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Quem lucrou enquanto Wall Street sangrava?

Publicado em
13/4/2026
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Quem lucrou enquanto Wall Street sangrava?
Quem lucrou enquanto Wall Street sangrava?
Quem lucrou enquanto Wall Street sangrava?

Enquanto boa parte do mercado financeiro global passava meses apostando que o Federal Reserve cortaria juros em 2025 e 2026, um fundo da BB Asset Management fez exatamente o contrário. Apostou na alta dos rendimentos dos Treasuries americanos. E acertou.

A maior gestora de recursos do Brasil, com mais de R$ 1,79 trilhão sob gestão e 2,7 milhões de investidores, se posicionou na contramão do consenso ao manter posições que se beneficiam da abertura da curva de juros americana. O resultado apareceu no desempenho: enquanto fundos que apostaram em cortes amargaram perdas com a marcação a mercado, o fundo da BB Asset capturou o movimento de alta nos yields.

Por que os juros americanos subiram em vez de cair?

Pra entender por que essa aposta deu certo, é preciso voltar ao cenário que se formou nos últimos meses. No fim de 2024, o mercado estava convicto de que o Fed iniciaria um ciclo agressivo de cortes. As apostas no CME FedWatch chegaram a precificar até seis cortes ao longo de 2025.

Só que a realidade foi bem diferente. A inflação americana se mostrou mais persistente do que qualquer modelo previa. O índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 0,9% só em março de 2026, a maior alta mensal desde junho de 2022. Na base anual, a inflação acelerou pra 3,3%, o patamar mais alto desde maio de 2024.

O PCE, indicador preferido do Fed pra medir inflação, está rodando acima de 4% na base anualizada dos últimos três meses, com o núcleo (core PCE) superando 4,5%. São números que praticamente eliminam qualquer possibilidade de corte no curto prazo.

Tarifas e geopolítica jogaram gasolina na fogueira

Dois fatores turbinaram a pressão inflacionária nos EUA e validaram a tese da BB Asset.

Primeiro, as tarifas comerciais impostas pelo governo Trump. Segundo estimativas da Morningstar, as tarifas adicionaram 0,6 ponto percentual à inflação em 2025 e devem acrescentar 1,3 ponto em 2026. É um choque de oferta que encarece importações e se espalha pela cadeia produtiva. A Suprema Corte americana chegou a invalidar parte das tarifas recíprocas em fevereiro, mas o estrago nos preços já estava feito.

Segundo, a escalada das tensões geopolíticas. O conflito envolvendo EUA e Irã pressionou o petróleo pra cima e reforçou o cenário de inflação sticky. Com isso, o yield do Treasury de 10 anos se firmou na faixa de 4,3% em abril, frustrando quem esperava vê-lo abaixo de 4%.

O resultado é que o CME FedWatch agora precifica apenas cerca de 25% de probabilidade de um corte de juros até o fim do ano. Uma mudança radical em relação ao otimismo de 12 meses atrás.

Como a BB Asset montou essa posição

A BB Asset é líder da indústria nacional de fundos desde 1994, segundo ranking da Anbima. Mas liderar em tamanho não significa necessariamente liderar em ousadia. Nesse caso, a gestora do Banco do Brasil mostrou que seu time macro soube ler o cenário melhor que a maioria.

A tese se baseava em três pilares. O primeiro era a avaliação de que o espaço pra cortes do Fed era muito mais limitado do que o mercado precificava. O cenário base da gestora previa, no máximo, um corte adicional de 25 pontos-base no segundo semestre de 2026.

O segundo pilar era o fiscal americano. Os déficits crescentes do governo dos EUA, combinados com estímulos como o tax refunding e investimentos massivos em inteligência artificial, mantêm a demanda agregada aquecida. Isso dificulta o trabalho do Fed de trazer a inflação de volta à meta de 2%.

O terceiro pilar era justamente o risco das tarifas. A equipe da BB Asset identificou cedo que a política comercial do governo Trump teria impacto inflacionário duradouro, não transitório.

O que isso significa pro investidor brasileiro

A performance desse fundo traz lições importantes pra quem investe no Brasil.

Com os juros americanos mais altos por mais tempo, o dólar tende a se manter forte globalmente. Isso pressiona moedas emergentes como o real e encarece importações. Pra quem tem exposição a fundos cambiais, esse cenário importa diretamente.

Além disso, juros altos nos EUA competem com ativos de risco no mundo inteiro. Quando o Treasury de 10 anos paga 4,3% ao ano em dólar, fica mais difícil justificar o risco de bolsas emergentes. Isso ajuda a explicar por que o fluxo estrangeiro pra B3 segue volátil mesmo com o Ibovespa em patamares historicamente atrativos.

Na comunidade da Traders, os traders têm debatido bastante esse tema. A dúvida principal é se o bull market nos EUA se sustenta com juros nesse patamar ou se uma correção mais forte está no radar.

E os fundos multimercado brasileiros?

Essa história da BB Asset também joga luz sobre a recuperação da classe de fundos multimercado no Brasil. Depois de anos difíceis, gestores que acertaram posições em juros globais e câmbio voltaram a entregar retornos acima do CDI.

O BB Multimercado LP Juros e Moedas, por exemplo, um dos veículos da gestora com patrimônio de R$ 4,9 bilhões, entregou 11,5% nos últimos 12 meses. Mas foi nos fundos com mandato mais agressivo pra operar juros internacionais que a tese de alta nos yields americanos realmente apareceu.

Pra quem está avaliando fundos exclusivos ou estratégias macro, vale prestar atenção se o gestor tem posições claras em juros americanos. O cenário de "higher for longer" parece cada vez mais consolidado.

O que esperar daqui pra frente

O consenso de mercado agora aponta o yield do Treasury de 10 anos migrando pra faixa de 4,5% até o fim de 2026, segundo projeções de casas como LPL Research e Charles Schwab. Se isso se confirmar, posições que apostam na alta dos juros americanos ainda têm espaço pra render.

Mas existem riscos dos dois lados. Uma desaceleração mais forte da economia americana, provocada justamente pelas tarifas e pelo aperto monetário, poderia forçar o Fed a cortar mesmo com inflação elevada. Esse cenário de estagflação não é o base, mas não pode ser descartado.

Do lado oposto, uma nova escalada geopolítica ou uma rodada adicional de tarifas poderia empurrar a inflação ainda mais pra cima e levar os yields a romperem 4,5%, beneficiando ainda mais a posição da BB Asset.

O fato é que a maior gestora do Brasil mostrou que, às vezes, ir contra o consenso é a melhor estratégia. Num mercado onde a maioria apostava em cortes, quem leu a inflação corretamente e manteve a convicção saiu ganhando. É o tipo de lição que vale mais do que qualquer projeção de planilha.

A próxima reunião do FOMC, marcada pra maio, será o grande teste. Se o Fed mantiver o tom hawkish e sinalizar que não há pressa pra cortar, a tese da BB Asset ganha mais um capítulo favorável. Se, por outro lado, houver qualquer sinal de flexibilização, os fundos que apostaram na queda podem ter uma janela de recuperação. Por enquanto, o placar está claro: vantagem pra quem apostou contra a manada.


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