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Armada de tanqueiros já cruza oceanos rumo ao solo americano

Publicado em
12/4/2026
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Armada de tanqueiros já cruza oceanos rumo ao solo americano
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Armada de tanqueiros já cruza oceanos rumo ao solo americano

Os Estados Unidos estão se posicionando como fornecedor de última instância do mercado global de petróleo. No sábado (11), o presidente Donald Trump afirmou na Truth Social que "um grande número de navios petroleiros completamente vazios, alguns dos maiores do mundo", está se dirigindo aos EUA para carregar crude e gás natural. A declaração veio no meio de uma semana caótica para o mercado de energia, marcada por um cessar-fogo frágil com o Irã, o fechamento persistente do Estreito de Ormuz e uma volatilidade brutal nos preços do barril.

Pra quem investe em petróleo via ETFs e BDRs na B3, a semana de 7 a 11 de abril foi uma montanha-russa. O Brent despencou 13% na quarta-feira (8), quando EUA e Irã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão. Na quinta (9), recuperou 4% e voltou a US$ 99. Na sexta (10), fechou perto de US$ 96. Mas o dado que ninguém quer ver: o preço spot do Brent físico (dated Brent), que reflete entregas reais de 10 a 30 dias, bateu US$ 131,97 por barril na quinta, segundo a CNBC. Isso mostra um estresse absurdo no mercado físico que os futuros não estão capturando.

O que Trump realmente quis dizer com os petroleiros vazios

Trump afirmou que os EUA possuem mais petróleo do que "as duas maiores economias petrolíferas juntas" e que a qualidade do crude americano (West Texas Intermediate, o chamado "light sweet") é superior. Não deu detalhes sobre quais países estão enviando os navios, quais empresas estão envolvidas ou os valores das transações.

Especialistas do setor receberam a declaração com ceticismo. Um executivo ouvido pela Reuters disse que "não pode confirmar se petroleiros vazios estão de fato se dirigindo aos EUA", embora reconheça que o fechamento de Ormuz naturalmente aumenta a demanda por crude americano. Outro analista afirmou simplesmente que "não faz ideia" se isso está acontecendo na escala que Trump sugere.

O que é verificável: segundo a Bloomberg, as exportações de crude da Costa do Golfo dos EUA devem atingir o recorde de 5 milhões de barris por dia em maio, com compradores asiáticos correndo pra garantir carga do Atlântico pra compensar a perda de suprimento do Oriente Médio. Em abril, os fluxos já estão se aproximando desse patamar.

Ormuz fechado: o gargalo que não se resolve com um tuíte

O pano de fundo dessa história é o Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. Desde que a guerra entre EUA/Israel e Irã começou em 28 de fevereiro, o Irã vem usando o controle do estreito como arma estratégica.

Na terça-feira (7), o cessar-fogo negociado em Islamabad parecia um alívio. O mercado reagiu com euforia: o Brent caiu 13,3% num único pregão, a maior queda diária desde abril de 2020. O WTI tombou mais de 16%. A Petrobras (PETR4) perdeu R$ 27,9 bilhões em valor de mercado em um dia, a maior perda intraday em quatro anos.

Mas o cessar-fogo durou pouco. Israel lançou um ataque massivo contra o Líbano, o Irã acusou violação do acordo e fechou novamente o Estreito de Ormuz na quarta-feira (8). A confusão diplomática se instalou: EUA e Israel insistem que o Líbano não fazia parte do acordo; Teerã diz que qualquer agressão regional invalida a trégua.

Resultado: o estreito segue essencialmente bloqueado. Não houve retorno à navegação comercial normal. Os EUA dizem ter iniciado operações de "limpeza de minas", mas o Irã classifica as exigências americanas como "excessivas".

Os números por trás da crise de oferta

Alguns dados ajudam a dimensionar o problema:

A Arábia Saudita informou que ataques às suas instalações reduziram a capacidade de produção em cerca de 600 mil barris por dia. Com Ormuz fechado, mesmo o petróleo saudita que não foi afetado tem dificuldade de escoamento.

Os EUA produzem cerca de 13,5 milhões de barris por dia em 2026, segundo a EIA (Energy Information Administration), ligeiramente abaixo do recorde de 13,6 milhões de 2025. Porém, a capacidade real de exportação tem um teto prático: traders e analistas apontam que a infraestrutura americana não sustenta mais do que 6 milhões de barris por dia de exportação, muito abaixo dos 10 milhões frequentemente citados como capacidade teórica.

O Goldman Sachs publicou uma nota durante a semana afirmando que, se Ormuz permanecer fechado por mais um mês, o Brent deve ficar acima de US$ 100 durante todo o ano de 2026. Após o cessar-fogo, o banco revisou suas projeções pra baixo, mas o colapso do acordo colocou a previsão original de volta à mesa.

Como a semana terminou nos mercados

Apesar da turbulência no petróleo, o Ibovespa teve sua melhor semana desde janeiro: alta de 4,93%, fechando em recorde histórico de 197.323 pontos na sexta-feira (10). O dólar recuou quase 3% na semana, fechando a R$ 5,01. O fluxo de capital estrangeiro pra B3 foi forte, com investidores aproveitando o desconto de ativos brasileiros em relação ao risco percebido.

A PETR4, depois de perder R$ 27,9 bilhões na quarta, recuperou boa parte na quinta (+1,91%) e encerrou a semana em alta. No acumulado de 2026, a ação ainda sobe cerca de 60%, surfando a alta do petróleo que já acumula 80% no ano. Mas a volatilidade intraday da semana lembrou que quem opera petróleo em 2026 precisa de estômago forte.

Na comunidade da Traders, os traders passaram a semana discutindo se o cessar-fogo teria pernas ou se o petróleo voltaria acima de US$ 100 rapidamente. A resposta veio rápido: o acordo desmoronou em menos de 24 horas.

O que esperar da semana que vem

As negociações entre EUA e Irã continuam em Islamabad, com mediação paquistanesa. A reabertura do Estreito de Ormuz é a condição central de qualquer acordo, mas o Irã tem pouco incentivo pra ceder enquanto ataques israelenses no Líbano continuarem.

Pra quem acompanha ETFs americanos, vale monitorar os ETFs de energia como XLE e os de petróleo como USO. A tese de que os EUA vão substituir o Oriente Médio como fornecedor global tem um problema estrutural: capacidade de infraestrutura. Os 5 milhões de barris/dia de exportação são um recorde, mas não compensam os 17 a 20 milhões de barris que passavam por Ormuz.

Quem investe em BDRs de Europa e Ásia também deve ficar atento. A Europa, altamente dependente de petróleo do Oriente Médio, já enfrenta pressão inflacionária com energia cara. E compradores asiáticos, como China, Índia e Japão, estão competindo agressivamente por crude americano, o que pode pressionar preços ainda mais.

O diferencial entre o preço dos futuros (US$ 96) e o spot físico (US$ 132) é talvez o indicador mais importante pra observar. Quando esse spread se alarga assim, significa que quem precisa de petróleo agora está desesperado, enquanto o mercado de futuros aposta num alívio que pode não vir. Se Ormuz não reabrir nas próximas duas semanas, esse spread tende a contaminar os futuros e empurrar o Brent de volta pra cima de US$ 100.

A fala de Trump sobre petroleiros vazios pode ser mais propaganda do que realidade operacional. Mas o fato incontestável é que a guerra no Oriente Médio transformou os EUA no principal fornecedor alternativo do mundo. A questão é se a infraestrutura americana aguenta a demanda. Por enquanto, os números dizem que não, pelo menos não na escala necessária pra substituir Ormuz.


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