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Polícia rastreia elo oculto entre corretora e banco sob suspeita

Publicado em
9/4/2026
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Polícia rastreia elo oculto entre corretora e banco sob suspeita
Polícia rastreia elo oculto entre corretora e banco sob suspeita
Polícia rastreia elo oculto entre corretora e banco sob suspeita

A Polícia Federal identificou Fabiano Zettel, cunhado do fundador do Banco Master Daniel Vorcaro, como o operador financeiro central do esquema que pode ter gerado até R$ 16 bilhões em carteiras de crédito fraudulentas. Zettel, que é pastor da Igreja Lagoinha e foi o maior doador individual para as campanhas de Bolsonaro e Tarcísio em 2022, intermediava pagamentos e movimentava recursos entre os membros da organização por meio de contratos simulados.

A revelação veio no desdobramento da Operação Compliance Zero, que já está na terceira fase e mira o que pode se tornar a maior fraude financeira da história do Brasil. Além de Zettel, a PF identificou outro nome-chave: Benjamim Botelho de Almeida, apontado como sócio oculto de Vorcaro nos Estados Unidos, que administra a Sefer Investimentos, gestora responsável por 102 fundos que somam mais de R$ 20 bilhões.

Quem é Fabiano Zettel e qual era o papel dele no esquema?

Zettel é casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel. Apesar de atuar publicamente como líder religioso, a PF afirma que ele era peça fundamental na engrenagem financeira do Master. Sua função era executar pagamentos e intermediar transações entre os membros do esquema, usando contratos simulados pra dar aparência de legalidade às movimentações.

O operador foi preso durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 4 de março de 2026, que cumpriu quatro mandados de prisão e quinze de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais. Zettel chegou a se entregar à PF dias depois. A CPI do Crime Organizado no Senado também quebrou seu sigilo bancário e fiscal.

O fato de o maior doador individual de campanhas eleitorais em 2022 ser, na verdade, o operador financeiro de um esquema bilionário levanta questões sobre a origem desses recursos. A investigação segue apurando se houve financiamento ilegal de campanhas com dinheiro desviado do sistema financeiro.

Benjamim Botelho: o sócio oculto nos Estados Unidos

Se Zettel era o braço operacional no Brasil, Benjamim Botelho de Almeida era o braço internacional. A PF afirma que "a grande maioria das operações suspeitas" da família Vorcaro "envolve empresas de Benjamim Botelho". Ele dirige a Sefer Investimentos, gestora que administra 102 fundos de investimento. Quase metade desses fundos mantém relação direta com o ecossistema Master.

São mais de R$ 20 bilhões sob gestão que, segundo os investigadores, serviam como veículos pra movimentar e ocultar recursos. A Justiça dos Estados Unidos já autorizou o rastreamento amplo de bens de Vorcaro e seus associados, validando 24 de 28 subpoenas solicitadas pelas autoridades brasileiras. Foram identificadas 16 entidades classificadas como "Asset Freeze Parties", com ativos de luxo rastreados em galerias de arte e varejistas internacionais.

Pra quem investe, entender a liquidez no mercado financeiro é fundamental em momentos como este. Fundos com lastro questionável podem travar resgates e pegar cotistas desprevenidos.

A cronologia do escândalo que abalou o sistema bancário

O caso do Banco Master não surgiu do nada. Ele foi se desenrolando ao longo de meses, com cada nova revelação ampliando o tamanho do rombo.

Em novembro de 2025, a primeira fase da Operação Compliance Zero resultou na prisão de Daniel Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, quando ele tentava embarcar pra Dubai. O Banco Central decretou o Regime de Administração Especial Temporária (RAET) sobre o Master.

Em janeiro de 2026, veio a segunda fase da operação e a liquidação extrajudicial da Will Financeira, braço do grupo. A Justiça americana reconheceu a liquidação e bloqueou ativos nos EUA. No mesmo mês, a PF realizou operação contra a Rioprevidência por aplicações no Master.

Em março de 2026, a terceira fase trouxe as prisões de Vorcaro (novamente) e Zettel. O Banco Central converteu o RAET em liquidação extrajudicial do Banco Master Múltiplo em 17 de março. Vorcaro fechou um acordo de cooperação (delação) com as autoridades, o que deve expandir significativamente o escopo das investigações.

Agora, em abril de 2026, a PF formalizou os papéis de Zettel e Botelho no esquema, enquanto a CPI ouviu o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o BRB enviou seu relatório final de auditoria à Polícia Federal.

Efeito dominó: R$ 30 bilhões em risco nos cofres públicos

O escândalo do Master não afeta só investidores privados. A crise tem um efeito dominó que atinge diretamente os cofres públicos de pelo menos cinco unidades da federação.

O BRB (Banco de Brasília) desembolsou R$ 12,76 bilhões na aquisição de carteiras de crédito do Master, muitas delas potencialmente fraudulentas. Até agora, conseguiu recuperar R$ 10 bilhões, mas o Banco Central determinou uma provisão mínima de R$ 2,6 bilhões. Pra cobrir o rombo, o BRB planeja levantar até R$ 8,86 bilhões via emissão de novas ações.

Além do DF, os estados da Bahia, Maranhão, Alagoas e Paraíba também estão expostos. O Master implementou um sistema de "pix judicial" em tribunais dessas regiões, criando um risco estimado em R$ 30 bilhões nos cofres públicos. Na comunidade da Traders, os traders acompanham de perto os desdobramentos e debatem o impacto nos papéis de bancos médios e nos fundos que tinham exposição ao ecossistema Master.

A governadora do DF, Celina Leão, garantiu nesta quarta-feira (9) que "o BRB não vai quebrar" e anunciou medidas pra resolver a crise. Mas o mercado não se convenceu facilmente. As ações do BRB (BSLI4) já despencaram mais de 20% em um único pregão em fevereiro, quando o plano de recomposição de capital foi divulgado.

FGC pode desembolsar até R$ 50 bilhões

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estima que precisará ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes afetados pela liquidação do Master. O desembolso projetado varia entre R$ 41 bilhões e R$ 50 bilhões, o que representaria o maior acionamento do fundo na história.

Isso coloca em xeque a capacidade do FGC de absorver um choque dessa magnitude sem impactar o sistema como um todo. Investidores que tinham CDBs, LCIs e outros títulos do Master dentro do limite de R$ 250 mil por CPF estão protegidos, em tese. Mas o processo de ressarcimento pode levar meses.

É um lembrete importante sobre alocação de ativos e diversificação de carteira. Concentrar recursos em um único emissor, mesmo com garantia do FGC, carrega riscos que vão além do crédito.

Delação de Vorcaro pode mudar tudo

Talvez o capítulo mais importante dessa história ainda esteja por vir. Daniel Vorcaro fechou um acordo de cooperação com as autoridades em março de 2026. Na prática, é uma delação premiada que pode expandir as investigações pra nomes que ainda não apareceram publicamente.

As primeiras informações indicam que o esquema do Master envolveu pagamentos milionários a ex-diretores do Banco Central, financiamento de despesas de autoridades (incluindo participação do ex-diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, em evento em Londres bancado pelo Master) e possíveis conexões com organizações criminosas.

O Banco Central impôs sigilo de 8 anos sobre os documentos da liquidação, formalizado em novembro de 2025 e que só será levantado em 2033. Essa decisão tem gerado críticas no Congresso. O senador Eduardo Girão já anunciou notificação pra abertura de uma CPMI específica sobre o caso, embora haja resistência política às vésperas das eleições de 2026.

O que o investidor deve observar agora

O caso Master é um divisor de águas pro mercado financeiro brasileiro. Ele expõe fragilidades na regulação de bancos médios e na supervisão de fundos de investimento com estruturas complexas.

Os investidores devem ficar atentos a alguns pontos concretos. Primeiro, a exposição de fundos de investimento ao ecossistema Master. Com 102 fundos ligados à Sefer Investimentos, é possível que alguns fundos de renda fixa ou multimercado populares tenham tido exposição indireta a ativos do Master. Checar a lâmina do fundo e a composição da carteira é essencial.

Segundo, o impacto nos bancos médios. O escândalo gerou uma crise de confiança que já afetou a captação de outros bancos médios via CDBs e letras financeiras. Pra quem entende de pairs trading e correlação entre ativos, os spreads de crédito de bancos médios versus grandes bancos se alargaram significativamente.

Terceiro, o destino do BRB. Se a emissão de R$ 8,86 bilhões em novas ações não for bem-sucedida, o banco estatal pode precisar de aporte direto do governo do DF, o que teria implicações fiscais pra toda a região.

Por fim, a delação de Vorcaro. As revelações que podem surgir nas próximas semanas têm potencial pra movimentar o mercado, especialmente se envolverem nomes ligados a instituições financeiras maiores ou a figuras políticas de peso. O caso está longe de acabar, e cada novo desdobramento pode trazer volatilidade pros mercados.


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