Estratégias de Trading

Pairs trading: pares de ativos

Publicado em
16/10/2025
Pairs trading: como lucrar comprando um ativo e vendendo outro correlacionado. Estratégia market neutral com exemplos práticos na B3.
Dois gráficos paralelos correlacionados representando estratégia de pairs trading
Dois gráficos paralelos correlacionados representando estratégia de pairs trading

Pairs trading: o que é essa estratégia e por que ela é tão usada por institucionais

Imagina que você pudesse lucrar no mercado independente de ele estar subindo ou caindo. Parece bom demais pra ser verdade, né? Mas é exatamente isso que o pairs trading oferece, pelo menos em teoria. Essa é uma estratégia chamada de market neutral (neutra ao mercado), onde você compra um ativo e vende outro ao mesmo tempo, apostando na diferença de comportamento entre os dois.

O pairs trading nasceu nos anos 1980, dentro do Morgan Stanley, com um time de matemáticos e físicos liderados por Nunzio Tartaglia. Desde então, virou uma das estratégias mais populares entre hedge funds e mesas de operações institucionais do mundo inteiro. E a boa notícia é que, com as ferramentas disponíveis hoje, o trader de varejo também pode usar essa técnica.

Neste guia, vou te explicar como funciona o pairs trading na prática, como identificar pares de ativos, como montar a operação, como gerenciar o risco e quais são as armadilhas que a maioria dos traders ignora. Bora nessa.

Como funciona o pairs trading na prática

A ideia central é simples. Você encontra dois ativos que historicamente se movem juntos (são correlacionados). Quando um deles se descola temporariamente do outro, você aposta que eles vão voltar a convergir.

Funciona assim: digamos que PETR4 e VALE3 costumam andar juntas. De repente, PETR4 sobe 5% num dia enquanto VALE3 fica parada. O pairs trader olha pra isso e pensa: "Esse descasamento é temporário. Ou PETR4 volta a cair, ou VALE3 vai subir, ou as duas coisas." Então ele vende PETR4 (que subiu demais) e compra VALE3 (que ficou pra trás).

Se os ativos convergirem de volta, o trader lucra dos dois lados. Lucra na queda de PETR4 (porque vendeu) e na alta de VALE3 (porque comprou). E o mais interessante: não importa se o mercado inteiro cai ou sobe. O que importa é a diferença relativa entre os dois ativos.

É por isso que a estratégia é chamada de market neutral. Você não está apostando na direção do mercado. Está apostando na relação entre dois ativos específicos. Isso reduz drasticamente a exposição ao risco sistêmico, aquele que afeta o mercado como um todo.

Correlação vs cointegração: a diferença que separa amadores de profissionais

Aqui entra o conceito mais importante do pairs trading, e também o mais mal compreendido. A maioria dos textos que você vai encontrar por aí diz pra "procurar ativos correlacionados". Mas correlação não é suficiente.

O que é correlação

Correlação mede se dois ativos se movem na mesma direção ao mesmo tempo. Se PETR4 sobe e VALE3 também sobe na maioria dos dias, a correlação entre eles é alta. O coeficiente de correlação varia de -1 (perfeitamente inversa) a +1 (perfeitamente positiva). Pra pairs trading, procuramos correlações acima de 0,7 ou 0,8.

Mas o problema da correlação é que ela pode mudar com o tempo. Dois ativos podem ser muito correlacionados durante 2 anos e de repente se descasarem permanentemente. Se você montou uma operação de pairs trading baseado apenas na correlação, pode tomar um prejuízo grande.

O que é cointegração (e por que é melhor)

Cointegração é um conceito estatístico mais robusto. Dois ativos são cointegrados quando a diferença entre eles (o spread) tende a reverter pra uma média ao longo do tempo. Mesmo que os ativos individualmente sejam imprevisíveis, o spread entre eles é estacionário. Ou seja, quando se afasta da média, tende a voltar.

Pense assim: correlação diz que dois ativos andam juntos. Cointegração diz que, quando se separam, eles voltam. Pra pairs trading, cointegração é muito mais relevante.

Testar cointegração exige ferramentas estatísticas (o teste de Engle-Granger ou o teste de Johansen são os mais usados). Se você programa em Python, bibliotecas como statsmodels fazem isso em poucas linhas de código. Se não programa, existem screeners e ferramentas que calculam cointegração automaticamente.

Como identificar bons pares de ativos pra operar

Agora que você sabe a diferença entre correlação e cointegração, vamos ao prático. Onde encontrar bons pares?

Mesmo setor é o ponto de partida

A regra número um é: procure pares dentro do mesmo setor. Empresas do mesmo setor estão expostas aos mesmos fatores macroeconômicos, regulatórios e de mercado. Isso faz com que tendam a se mover juntas no longo prazo.

Alguns exemplos clássicos no mercado brasileiro:

Bancos: ITUB4/BBDC4 (Itaú e Bradesco) ou ITUB4/BBAS3 (Itaú e Banco do Brasil). São os pares mais tradicionais do pairs trading brasileiro. As duas ações respondem aos mesmos drivers: taxa de juros, inadimplência, regulação do Banco Central.

Petróleo e mineração: PETR4/VALE3 não é um par "puro" (são commodities diferentes), mas historicamente tem boa correlação porque ambas são blue chips de commodities na B3. Um par mais puro séria PETR3/PETR4 (ordinária e preferencial da mesma empresa) ou PETR4/PRIO3 (duas petroleiras).

Varejo: MGLU3/VIIA3 foi um par popular, mas ambas passaram por crises severas. Pares de varejo exigem cuidado redobrado porque o setor é mais volátil.

Elétricas: EGIE3/CPFE3 ou TAEE11/TRPL4. Empresas de transmissão de energia são ótimas pra pairs trading porque têm receita previsível e se movem de forma muito parecida.

ADRs e BDRs: pares internacionais

Você também pode montar pares com ativos internacionais. AAPL34/MSFT34 (Apple e Microsoft), ou AMZO34/MELI34 (Amazon e Mercado Livre, ambas de e-commerce). A Traders Corretora oferece mais de 500 BDRs, o que abre um leque enorme de possibilidades pra pairs trading internacional diretamente pela B3.

Pares entre índice e ação

Outra possibilidade é montar um par entre um índice futuro e uma ação que faz parte desse índice. Por exemplo: comprar VALE3 e vender mini índice (WING), apostando que a Vale vai performar melhor que o Ibovespa. Essa é uma forma de isolar o "alfa" da ação (ou seja, o retorno que ela gera acima do mercado).

Montando a operação: o passo a passo do pairs trading

Identificou um bom par? Ótimo. Agora vamos montar a operação.

Passo 1: Calcule o spread

O spread é a diferença (ou a razão) entre os preços dos dois ativos. O método mais simples é usar a razão: Preço do Ativo A dividido pelo Preço do Ativo B. Mas o método mais robusto é calcular o z-score do spread.

O z-score te diz quantos desvios-padrão o spread atual está distante da sua média histórica. Se o z-score é +2, significa que o spread está 2 desvios acima da média. Se é -2, está 2 desvios abaixo.

Passo 2: Defina os gatilhos de entrada

A regra clássica é:

Entrada long (compra do spread): Quando o z-score cai abaixo de -2 (o spread ficou muito comprimido). Você compra o Ativo A e vende o Ativo B.

Entrada short (venda do spread): Quando o z-score sobe acima de +2 (o spread ficou muito esticado). Você vende o Ativo A e compra o Ativo B.

O nível de 2 desvios é arbitrário. Alguns traders usam 1,5 (mais sinais, mais risco de falsos sinais) ou 2,5 (menos sinais, mas mais confiáveis). Teste o que funciona melhor pro par que você está operando.

Passo 3: Defina o tamanho da posição (hedging dollar neutral)

Aqui é onde muita gente erra. Se você compra R$ 10.000 de ITUB4 e vende R$ 10.000 de BBDC4, você está com uma posição dollar neutral. Isso significa que o valor financeiro dos dois lados é igual. Mas atenção: dollar neutral não é o mesmo que beta neutral.

Se o beta do ITUB4 é 1,1 e o do BBDC4 é 0,9, sua posição não está realmente neutra ao mercado. Pra ficar beta neutral, você precisa ajustar os tamanhos. Se ITUB4 tem beta 10% maior, coloque 10% menos em ITUB4 ou 10% mais em BBDC4. A fórmula exata é:

Tamanho da posição B = Tamanho da posição A x (Beta A / Beta B)

Esse ajuste é fundamental. Sem ele, uma queda forte do mercado vai te prejudicar mesmo numa posição que deveria ser neutra.

Passo 4: Defina saída e stop

Saída com lucro: Quando o z-score volta pra zero (ou perto de zero). Isso significa que o spread voltou à média, e a convergência que você apostou aconteceu.

Stop loss: Se o z-score atinge +3 ou -3 (ou seja, 3 desvios-padrão), é sinal de que algo mudou fundamentalmente na relação entre os ativos. Hora de sair e reavaliar. Nunca opere pairs trading sem stop. A relação entre os ativos pode quebrar permanentemente, e sem stop você fica preso numa posição que só piora.

Se quiser se aprofundar em como definir stops de forma mais estruturada, nosso artigo sobre gestão de risco no trading cobre isso em detalhes.

Gestão de risco no pairs trading: os perigos que ninguém te conta

O pairs trading parece seguro por ser "market neutral", mas tem riscos reais que você precisa conhecer.

Risco de divergência permanente

O maior risco do pairs trading é que dois ativos que sempre andaram juntos parem de andar juntos. Isso pode acontecer por vários motivos: uma empresa é adquirida, muda de setor, passa por uma crise específica, ou simplesmente os fundamentos mudam.

Exemplo real: imagine que você monta um par MGLU3/VIIA3 em 2020 porque ambas são varejistas de e-commerce. Em 2021, Magalu cai 70% e Via cai 90%. A relação entre as duas muda drasticamente. Quem estava posicionado no spread tomou um prejuízo enorme porque a divergência foi permanente.

Por isso, é essencial ter um stop loss rígido e monitorar os fundamentos dos dois ativos constantemente.

Risco de execução

Pra que o pairs trading funcione, você precisa entrar e sair das duas posições ao mesmo tempo. Se você consegue comprar ITUB4 mas demora pra vender BBDC4 (ou vice-versa), fica temporariamente exposto ao mercado. Em ativos líquidos, isso raramente é problema. Em ativos de menor liquidez, pode ser.

Risco de short selling

O lado vendido do par envolve venda a descoberto. E venda a descoberto tem custos (aluguel de ações) e riscos específicos (short squeeze, recall do aluguel). No Brasil, o aluguel de blue chips costuma ser barato (0,5% a 2% ao ano), mas em small caps pode passar de 10% ou 15%, o que corrói o lucro da operação.

Risco de alavancagem

Como o pairs trading geralmente gera retornos pequenos por operação (a convergência do spread costuma ser de 1% a 3%), muitos traders usam alavancagem pra amplificar o retorno. Isso é perigoso. Uma posição alavancada de pairs trading que dá errado pode gerar um prejuízo muito maior do que uma posição direcional simples.

Pairs trading no Brasil: particularidades do nosso mercado

O mercado brasileiro tem algumas características que afetam o pairs trading:

Liquidez concentrada: A B3 tem poucos ativos realmente líquidos. A maioria do volume se concentra em 30 ou 40 ações. Isso limita o número de pares viáveis, mas também significa que os pares disponíveis são muito líquidos e fáceis de operar.

Custos de aluguel: No Brasil, o custo de alugar ações pra vender a descoberto é geralmente baixo pra blue chips. PETR4, VALE3, ITUB4, BBDC4 costumam ter taxas de aluguel inferiores a 1% ao ano. Isso torna o pairs trading mais viável aqui do que em mercados onde o short selling é caro ou restrito.

Minicontratos como substituto: Em vez de vender ações a descoberto, alguns traders usam mini índice ou mini dólar como hedge. Se você quer isolar o alfa de uma ação, pode comprar a ação e vender mini índice no valor equivalente. Isso simplifica a operação e elimina o custo de aluguel.

Impostos: No pairs trading, os lucros e prejuízos de cada perna são calculados separadamente pro IR. Se você lucra na perna comprada e perde na perna vendida, pode compensar um com o outro no mesmo mês (pra day trade) ou no mesmo tipo de operação (pra swing). Mas atenção: essa compensação tem regras específicas. Se não tá seguro, procure um contador especializado.

Ferramentas pra praticar pairs trading

Pra operar pairs trading com seriedade, você vai precisar de algumas ferramentas:

Planilha ou Python: Pra calcular correlação, cointegração e z-score. Se você usa Python, as bibliotecas pandas, numpy e statsmodels fazem tudo. Se prefere planilhas, o Excel ou Google Sheets dão conta com um pouco mais de trabalho manual.

Plataforma com gráfico de spread: Algumas plataformas permitem criar gráficos sintéticos que mostram a diferença ou razão entre dois ativos. Isso facilita a visualização do spread e dos pontos de entrada/saída.

Cotações em tempo real: Como a operação depende de timing, você precisa de dados rápidos e confiáveis. No app da Traders, você acompanha cotações em tempo real de mais de 20 mil ativos, incluindo todas as blue chips e BDRs que são candidatas naturais pra pares.

Simulador: Antes de colocar dinheiro real, teste a estratégia com dados históricos (backtesting) e, se possível, num simulador com condições reais de mercado. O erro mais comum no pairs trading é pular direto pra operação real sem testar.

Exemplos práticos de pares no mercado brasileiro

Pra fechar, vou deixar alguns exemplos de pares que historicamente apresentam boa relação pra pairs trading. Lembre-se: o passado não garante o futuro, e você precisa fazer seu próprio teste de cointegração antes de operar.

ITUB4/BBDC4: O par mais clássico do Brasil. Ambas são grandes bancos privados, com negócios parecidos, expostos aos mesmos fatores. A relação entre elas é surpreendentemente estável ao longo dos anos.

PETR3/PETR4: Par entre ações ordinárias e preferenciais da mesma empresa. O spread entre as duas depende principalmente da diferença de direitos de voto e dividendos. É um par de baixa volatilidade e baixo retorno, mas muito estável.

EGIE3/CPFE3: Duas elétricas de transmissão/distribuição. Receita previsível, negócios parecidos, drivers macroeconômicos iguais. Excelente par pra quem quer começar com baixo risco.

VALE3/CMIN3: Vale e CSN Mineração. Ambas expostas ao preço do minério de ferro, mas com estruturas de custo diferentes. O spread entre elas oferece boas oportunidades quando o preço do minério se move rapidamente.

BBAS3/BBSE3: Banco do Brasil e BB Seguridade. Não são o mesmo tipo de empresa, mas o BB detém participação na BBSE. A correlação entre elas é alta, e o spread tende a ser mean-reverting.

Pairs trading vale a pena pra o trader de varejo?

A resposta honesta é: depende. O pairs trading é uma estratégia sofisticada que exige conhecimento estatístico, disciplina de execução e ferramentas adequadas. Não é pra quem está começando agora.

Mas se você já tem experiência no mercado, entende conceitos como venda a descoberto, correlação e gestão de risco, o pairs trading pode ser uma adição poderosa ao seu arsenal. Ele te permite lucrar em cenários que seriam impossíveis com estratégias puramente direcionais. E reduz sua exposição ao risco sistêmico, o que é especialmente valioso em momentos de incerteza.

O mais importante é começar devagar. Escolha um par simples (como ITUB4/BBDC4), estude o histórico, faça backtesting, opere pequeno. Só aumente o tamanho quando tiver confiança no processo.

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