
O BTG Pactual elegeu a 3tentos (TTEN3) como sua ação preferida no setor agroindustrial, com preço-alvo de R$ 26 e recomendação de compra. Com o papel negociando na faixa de R$ 14,77, o upside projetado passa de 80%. A tese do banco conecta dois movimentos que se reforçam: o petróleo Brent sustentado acima de US$ 108 o barril e a disparada de 34% no preço do óleo de soja em dólar no acumulado de 2026.
A lógica é simples. Commodities agrícolas têm correlação histórica forte com o preço do petróleo. Quando o barril sobe, o biodiesel fica mais competitivo frente ao diesel fóssil. E como mais de 70% do biodiesel brasileiro é feito a partir de óleo de soja, a demanda por esse insumo tende a acompanhar o barril. É nessa interseção que a 3tentos opera, com presença em toda a cadeia: originação de grãos, esmagamento, produção de biodiesel e distribuição de insumos agrícolas.
O ponto central do relatório do BTG é uma distorção de preços que, segundo o banco, deve se corrigir nas próximas semanas. Enquanto o óleo de soja subiu 34% no mercado internacional em 2026, no Brasil a alta foi de apenas 8%. Essa defasagem sugere que os preços domésticos ainda não refletem o cenário global.
Mais curioso ainda: o preço do biodiesel no Brasil caiu 12% no acumulado do ano, num movimento que contradiz a correlação histórica com o petróleo. O BTG argumenta que essa divergência é insustentável. Se o Brent permanecer elevado e os preços do óleo de soja e do biodiesel convergirem pra média histórica, as margens de esmagamento da 3tentos podem crescer cerca de 70% em relação ao quarto trimestre de 2025.
Pra quem acompanha valuation e precificação de ações, esse tipo de assimetria entre o preço de mercado e o fundamento operacional é exatamente o que costuma gerar oportunidades.
O petróleo Brent viveu um dia de forte volatilidade nesta quarta-feira (19). O contrato chegou a bater US$ 119,10 na máxima intradiária, antes de recuar e fechar em US$ 108,65, alta de 1,18% no dia. O barril acumula mais de US$ 42 de valorização em relação ao mesmo período do ano passado.
O gatilho foi a escalada do conflito entre Israel e Irã. Ataques ao campo de gás de South Pars e retaliações à refinaria de Ras Laffan provocaram interrupções no trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. O recuo dos US$ 119 pros US$ 108 veio depois que o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, sinalizou a possível liberação de petróleo iraniano apreendido.
A Agência Internacional de Energia (EIA) projeta o Brent acima de US$ 95 por barril nos próximos dois meses, com recuo gradual pra abaixo de US$ 80 no terceiro trimestre e algo em torno de US$ 70 até o fim do ano. Mas enquanto a tensão geopolítica persistir, o cenário de alta segue no jogo.
Pode parecer contraintuitivo que o preço do petróleo influencie diretamente uma empresa do agro. Mas a conexão é real e tem fundamento regulatório. O Brasil opera hoje com a mistura obrigatória de 15% de biodiesel no diesel (B15). A Lei do Combustível do Futuro (14.993/2024) previa a elevação pra B16 a partir de março de 2026, embora o avanço esteja pendente de confirmação.
Se o B16 entrar em vigor, a demanda por biodiesel pode ultrapassar 11 milhões de metros cúbicos, exigindo algo como 8,9 milhões de toneladas de óleo de soja. A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) já pediu ao governo que acelere o aumento da mistura como forma de conter a alta do diesel fóssil. É um ciclo onde petróleo caro favorece o biodiesel, que puxa o óleo de soja, que beneficia empresas como a 3tentos.
No mercado internacional, os contratos futuros de óleo de soja na CME abriram o dia com alta superior a 4%. O USDA, no relatório WASDE de março, elevou a projeção de preço médio pra US$ 0,55 por libra e cortou a estimativa de produção em 20 milhões de libras, pra 29,9 bilhões. Oferta menor com demanda crescente é a combinação que sustenta a tendência de alta.
A 3tentos virou uma espécie de unanimidade entre os analistas do setor agrícola. JP Morgan tem alvo de R$ 21 e classificou o papel como top pick. O Citi atribui alvo de R$ 19,50 com recomendação de compra. A XP Investimentos vai mais longe, com preço-alvo de R$ 23,60 e projeção de upside próximo de 50%. O Santander também coloca TTEN3 entre suas preferidas no agro.
O BTG, com os R$ 26, é o mais otimista. A diferença está no peso que o banco dá à normalização da relação entre petróleo e biodiesel no curto prazo. Se essa tese se concretizar, o impacto operacional pode ser relevante já nos resultados do primeiro e segundo trimestres de 2026.
Outro catalisador no radar é a nova planta de etanol de milho, com início de operações previsto pra o primeiro semestre de 2026. Na capacidade plena, esperada pra 2028, a unidade pode adicionar R$ 1,4 bilhão em receita e R$ 470 milhões em lucro bruto anual. É uma diversificação que reduz a dependência da soja e amplia a exposição ao tema de biocombustíveis.
O Ibovespa opera pressionado em março, com queda de 5,9% no mês e mais de 80% dos papéis no vermelho. Mas o índice ainda acumula alta de 11,9% em 2026, sustentado pelo rali de janeiro e fevereiro. O dólar ronda os R$ 5,22, e a Petrobras (PETR4) se beneficia diretamente do Brent elevado, com o BTG também elevando a recomendação pro papel com alvo de R$ 56.
Pra entender como o múltiplo P/L ajuda a avaliar se uma ação está cara ou barata, vale olhar o caso da TTEN3. Com o papel negociando abaixo de R$ 15 e analistas projetando expansão significativa de margem, o P/L forward da empresa fica comprimido em relação aos pares, o que reforça a leitura de que há espaço pra reprecificação.
Na comunidade da Traders, os traders estão debatendo justamente esse ponto: se a distorção entre o preço internacional do óleo de soja e o doméstico vai se corrigir rápido o suficiente pra aparecer nos resultados do primeiro trimestre, ou se é uma tese mais pro segundo semestre. A resposta depende em boa parte do que acontecer com o petróleo nas próximas semanas.
Toda tese de investimento tem contrapartidas, e essa não é exceção. O primeiro risco é o mais óbvio: se o Brent recuar rapidamente pro patamar de US$ 70 a US$ 80, como projeta a EIA pro segundo semestre, a pressão sobre biodiesel e óleo de soja diminui, e a expansão de margens pode não se materializar na magnitude que o BTG espera.
Existe também o risco regulatório. O avanço pra B16 não é garantido. O B15 foi implementado com atraso em 2025, e o governo pode repetir o padrão. Se a mistura obrigatória não subir, a demanda adicional por óleo de soja pra biodiesel fica limitada.
Por fim, a nova planta de etanol de milho ainda é uma promessa. Atrasos na construção ou ramp-up mais lento do que o projetado podem frustrar parte da expectativa de crescimento de receita. O investidor precisa considerar esses cenários na hora de montar posição. Quem opera com foco em ações ordinárias sabe que o fundamento é só metade da equação; o timing e o gerenciamento de risco completam o quadro.
O mercado vai monitorar três variáveis de perto. A primeira é a evolução do conflito no Oriente Médio e seu impacto no preço do barril. Se o Brent se estabilizar acima de US$ 100, a tese da 3tentos ganha força. A segunda é qualquer sinalização do governo federal sobre o cronograma do B16. E a terceira são os dados de margem de esmagamento que devem aparecer nos resultados do primeiro trimestre, previstos pra o final de abril.
Com cinco casas de análise recomendando compra e preços-alvo que vão de R$ 19,50 a R$ 26, TTEN3 entrou no radar como uma das apostas mais consensuais do agro brasileiro em 2026. O papel concentra exposição a três tendências simultâneas: energia cara, transição pra biocombustíveis e demanda global crescente por proteína. A dúvida não é se o fundamento é sólido, mas se o mercado vai antecipar esse movimento antes que ele apareça no balanço.
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