Notícias

Moeda americana em queda dispara turismo e compras lá fora

Publicado em
24/4/2026
Compartilhar:
Moeda americana em queda dispara turismo e compras lá fora
Moeda americana em queda dispara turismo e compras lá fora
Moeda americana em queda dispara turismo e compras lá fora

O brasileiro voltou a rodar o mundo e, mais ainda, voltou a comprar nele. O Banco Central divulgou nesta sexta-feira (24) os dados de transações correntes do primeiro trimestre de 2026 e o recado foi claro: os gastos de brasileiros no exterior bateram o maior patamar da série histórica pra um começo de ano, impulsionados por um dólar cotado na faixa dos R$ 4,95 a R$ 5,10 ao longo de janeiro, fevereiro e março.

Só em despesas de viagens internacionais, o acumulado do trimestre passou da casa dos US$ 6 bilhões, acima do pico anterior registrado no pré-pandemia. Somando a isso o uso de cartão de crédito em compras online fora do país, o número cresce ainda mais e deixa analistas atentos ao efeito cascata na conta corrente do Brasil.

Por que o brasileiro está gastando tanto fora?

A resposta curta tem três letras: USD. O real se valorizou cerca de 17% frente ao dólar entre o fim de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, saindo da faixa dos R$ 6,20 pra rondar os R$ 5 em 2026. É o tipo de movimento que muda comportamento de consumo num país acostumado a olhar o câmbio antes de decidir qualquer coisa.

Quando o dólar cai, duas coisas acontecem quase ao mesmo tempo. A primeira é óbvia: viagem pra fora fica mais barata em reais. Passagem, hotel, ingresso de parque, tudo vira oferta. A segunda é menos perceptível, mas pesa mais na estatística: compra em site gringo sobe. Quem comprou tênis no Nike americano, eletrônico na B&H ou roupa no Shein exportador sentiu o efeito no extrato do cartão.

A valorização do real aconteceu num contexto específico. O diferencial de juros segue largo (Selic na casa dos 11% contra Fed rate entre 3,50% e 3,75%), o fluxo estrangeiro pra renda fixa local voltou forte no começo do ano e os preços de commodities, em especial minério e petróleo, ajudaram a manter o saldo comercial positivo. Pra entender melhor essa dinâmica, vale ler como o dólar afeta a bolsa brasileira: guia completo.

Qual o tamanho real do recorde?

O Banco Central mostrou que as despesas de viagens internacionais subiram mais de 25% na comparação com o primeiro trimestre de 2025. As receitas, que são os gastos de estrangeiros por aqui, também cresceram, mas num ritmo bem mais tímido. Resultado: o déficit da conta de viagens voltou a se abrir depois de três anos de recuperação pós-pandemia.

Esse descompasso importa. A conta de serviços do balanço de pagamentos, onde as viagens entram, é uma das que mais puxam o déficit em transações correntes do país. Quando o brasileiro gasta mais fora do que o estrangeiro gasta aqui, sai dólar líquido do sistema. Com o número do trimestre, o déficit em conta corrente nos 12 meses encerrados em março deve ficar acima de US$ 60 bilhões, algo em torno de 2,5% do PIB.

Pra contexto: esse patamar de déficit ainda é confortável pro perfil de reservas internacionais do Brasil, que segue acima de US$ 340 bilhões. Mas é uma conta que, se continuar crescendo, começa a aparecer no radar das agências de rating.

Cartão de crédito: o vilão silencioso

Dentro do número de gastos no exterior, o grande salto veio do cartão internacional. Com o IOF reduzido pra compras internacionais (hoje em 3,38%, depois da queda programada pelo governo Lula no fim de 2024), ficou mais atrativo fechar compra em site estrangeiro. AliExpress, Shein, Amazon gringa, Temu: todas registraram crescimento expressivo no tráfego de brasileiros no primeiro trimestre.

O e-commerce cross-border aparece na conta de viagens do BC porque é classificado como despesa de bens e serviços adquiridos no exterior. Na prática, é o brasileiro sentado no sofá de São Paulo pagando em dólar o mesmo iPhone que custaria 30% a mais numa loja da avenida.

Como isso mexe com o investidor?

Pra quem opera bolsa, câmbio ou renda fixa, o dado de hoje reforça um cenário que já vinha sendo precificado. Real forte é bom pro controle da inflação, ajuda o Copom a manter ou até reduzir a Selic no médio prazo, mas pressiona exportadoras listadas no Ibovespa. Vale, Petrobras, Suzano, JBS e Embraer costumam sofrer em ciclos de real apreciado.

Do outro lado, importadoras e empresas que gastam em dólar tendem a se beneficiar. Varejo, aviação (Azul, Gol) e empresas com dívida dolarizada ganham fôlego. Na comunidade da Traders, os traders estão discutindo bastante a rotação setorial que esse câmbio está provocando: saindo de commodities e entrando em varejo doméstico e aviação.

Quem opera mini-dólar (WDO) no day trade precisa ficar esperto. Com dado ruim de conta corrente, o movimento natural seria o dólar subir. Mas, na prática, o mercado já está olhando pra frente: se o Fed começar a cortar juros mais rápido do que o esperado, o real pode se valorizar ainda mais, mesmo com conta corrente piorando. É o tipo de cenário em que fundamentos domésticos perdem pra fluxo global.

E a bolsa americana via BDR?

Um detalhe importante: com dólar mais barato, ficou mais acessível comprar BDRs de empresas americanas na B3. Um BDR da Nvidia (NVDC34), por exemplo, reflete tanto a variação da ação lá fora quanto a variação do dólar por aqui. Quando o real se valoriza, o BDR sofre mesmo com a ação subindo em Nova York.

Por outro lado, quem está montando posição de longo prazo em BDRs aproveita o câmbio pra comprar "mais barato" em reais. É o tipo de janela que muitos investidores da comunidade TC estão usando pra diversificar carteira sem precisar abrir conta no exterior. Pra entender a diferença, confira B3 vs corretora no exterior: prós e contras.

Até quando o dólar fica barato?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares, literalmente. A maioria das casas de análise projeta o dólar encerrando 2026 na faixa dos R$ 5,00 a R$ 5,30, mas com volatilidade alta no meio do caminho. Três fatores podem mudar o cenário:

Primeiro, o fiscal brasileiro. Se o governo não entregar os números do arcabouço fiscal no segundo semestre, o risco-país sobe e o dólar volta a testar resistências acima de R$ 5,50. Segundo, o Fed. Qualquer sinalização de postergação nos cortes de juros americanos já é suficiente pra forçar realocação de fluxo pra fora de emergentes. Terceiro, commodities. Minério e petróleo seguem sendo o colchão que sustenta o saldo comercial brasileiro. Sobre isso, vale ler como o Fed impacta os mercados brasileiros.

Por enquanto, o mercado continua vendo espaço pra real apreciado. Os contratos futuros de dólar com vencimento em dezembro de 2026 estão precificando algo próximo de R$ 5,20, patamar que mantém o brasileiro estimulado a manter o cartão internacional no bolso.

O recado do dado

O recorde de gastos no exterior no primeiro trimestre é um retrato fiel de um país com renda crescendo, inflação controlada e câmbio apreciado. É bom pra quem consome, pressiona quem exporta e acende uma luz amarela na conta externa. Num país onde o câmbio é termômetro de humor do mercado, é o tipo de indicador que vai ser olhado com lupa daqui pra frente, trimestre após trimestre.

Pra quem está começando a operar agora e quer entender melhor como ler esses movimentos, ver a experiência de quem já passou por outros ciclos ajuda muito. Dá uma olhada em traders brasileiros de sucesso: histórias reais da B3.


Aviso Legal

O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.

As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.

Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.

Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.

A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.