
A semana que começa nesta segunda (5) é a mais carregada da temporada de balanços do 1º trimestre de 2026 na bolsa brasileira. Mais de 80 empresas listadas devem divulgar resultados entre 5 e 9 de maio, com nomes pesados como Itaú (ITUB4), Mercado Livre (MELI34) e Prio (PRIO3) liderando a fila. É a janela em que o mercado finalmente coloca preço nos números reais, depois de meses operando à base de projeção.
O peso dessa semana vai além do volume. Os três pilares da bolsa, bancos, varejo digital e óleo e gás, estão todos representados. E cada um chega com uma narrativa diferente: o setor financeiro defende margens contra a queda da Selic, o varejo testa se o consumo aguenta a inflação ainda pressionada, e as petroleiras tentam segurar caixa num cenário de Brent mais comportado.
A divisão do calendário tem uma lógica clara. Bancos abrem a semana, indústrias ficam no miolo, e as exportadoras e teses de crescimento fecham o ciclo. Confira os destaques:
Segunda-feira (5/5): Klabin (KLBN11), Petz (PETZ3) e algumas mid caps industriais abrem a temporada. É o aquecimento, com investidores já posicionando carteiras pros números maiores que vêm na sequência.
Terça-feira (6/5): Itaú Unibanco (ITUB4) divulga depois do fechamento do pregão, em data que historicamente é a mais aguardada da temporada brasileira. BTG Pactual (BPAC11) também sai no dia, junto de Cielo e Vamos.
Quarta-feira (7/5): Vivo (VIVT3), Iguatemi (IGTI11), Cosan (CSAN3) e Suzano (SUZB3) reportam. É um dia que mistura defensivas (telecom, shopping) com cíclicas exportadoras.
Quinta-feira (8/5): Prio (PRIO3) entra em cena, junto de Banco do Brasil (BBAS3), Magalu (MGLU3) e Ambev (ABEV3). É o dia mais carregado, com leituras importantes pra commodities, varejo e consumo.
Sexta-feira (9/5): Mercado Livre (MELI34) divulga após o fechamento da Nasdaq, fechando a semana com a maior tese de tech latina. Eletrobras (ELET3), Hapvida (HAPV3) e Embraer (EMBR3) completam o cardápio.
O Itaú abre a temporada dos bancões e historicamente dá o tom pro setor todo. O consenso de analistas projeta lucro líquido recorrente entre R$ 11 bilhões e R$ 11,5 bilhões no 1T26, o que representaria crescimento de cerca de 8% a 10% na comparação anual (YoY), mas algo próximo de estabilidade ante o 4T25 (QoQ).
O ROE deve continuar acima de 22%, patamar que coloca o Itaú entre os bancos mais rentáveis do mundo. Mas o detalhe que o mercado vai dissecar é a margem financeira com clientes, especialmente a parte sensível à Selic. Com a taxa básica em ciclo de queda mais acelerado, o spread bancário tende a comprimir, e o desafio é compensar isso com volume e crédito mais arrojado.
Outro ponto crítico: a inadimplência. O ciclo passado deixou cicatrizes, e o investidor quer ver se a qualidade da carteira PJ e PF continua melhorando. A área de cartões e crédito ao consumo, especialmente, costuma antecipar tendências da economia real. Para quem quer entender melhor a tese, vale conferir o guia Como investir em Itaú (ITUB4): guia completo.
O MELI fecha a semana com a divulgação prevista pra sexta-feira após o fechamento da Nasdaq. A expectativa é que o GMV (volume bruto de mercadorias) cresça na casa de 25% a 30% em moeda constante na América Latina, puxado por Brasil e México. A receita líquida consolidada deve ficar próxima de US$ 5,5 bilhões a US$ 5,8 bilhões, mantendo o ritmo de expansão de dois dígitos.
O ponto polêmico é a margem operacional. O Mercado Livre tem queimado mais caixa em logística e tecnologia pra segurar a posição contra o avanço asiático (Shopee, Shein, AliExpress) e isso vinha pressionando o EBITDA. Se a empresa entregar margem operacional acima de 12%, o papel pode reagir com força. Abaixo de 10%, o mercado pode castigar.
O Mercado Pago segue como motor importante. A operação financeira da empresa cresce mais rápido que o e-commerce e tem margens estruturalmente maiores. Investidores vão olhar com lupa o número de usuários ativos e o volume total de pagamentos (TPV).
A Prio é o caso mais interessante da semana entre as commodities. A produção operada deve ter saltado pra próxima de 140 mil barris por dia no 1T26, depois da entrada em ramp-up de Wahoo, novo campo que veio pra adicionar capacidade relevante. Em termos operacionais, o trimestre tende a mostrar uma Prio bem maior que a do ano passado.
O contraponto é o preço do Brent. O barril operou em média na faixa dos US$ 73 a US$ 78 no 1T26, abaixo dos US$ 82 do mesmo trimestre do ano anterior. Isso significa que mesmo com produção maior, a receita líquida pode mostrar crescimento mais modesto ou até estabilidade YoY. O EBITDA deve girar entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões, com margem na casa dos 75% a 78%, ainda entre as mais altas do setor global.
O custo de extração (lifting cost) é a métrica favorita dos analistas pra Prio. A empresa tem se vangloriado de operar abaixo de US$ 8 por barril. Manter esse patamar com a entrada de novos campos é o sinal verde que o mercado quer ver.
Fora do trio principal, alguns balanços vão mexer com setores inteiros. O Banco do Brasil (BBAS3), que sai na quinta, tem uma exposição grande ao agronegócio e a inadimplência rural ainda preocupa. O lucro líquido deve ficar próximo de R$ 9 bilhões, mas o foco vai pras provisões.
O Magalu (MGLU3) tenta provar que virou a chave de prejuízo pra lucro de forma sustentável. O 4T25 mostrou margem operacional positiva pela primeira vez em vários trimestres. Se conseguir manter no 1T26, mesmo num trimestre tradicionalmente mais fraco no varejo, pode destravar o papel.
A Ambev (ABEV3) chega num momento de queda de volume no Brasil, mas com pricing power preservado. O mercado vai olhar pra margem EBITDA da operação Brasil, que vinha sendo pressionada pelo custo de insumos. Se a margem mostrar reação, o papel pode ter um rally técnico, conforme explica o conteúdo sobre Rally (Mercado): o que é e como funciona.
Essa temporada chega num momento delicado da bolsa brasileira. O Ibovespa rodou de lado nos primeiros meses de 2026, com o mercado dividido entre o alívio da queda de juros e a preocupação fiscal. Resultados ruins podem destravar uma onda de revisões pra baixo. Resultados bons, ao contrário, podem alimentar o argumento de que a bolsa está descontada.
O fluxo estrangeiro também pesa. Investidores institucionais externos voltaram a comprar Brasil em março, mas de forma seletiva. Bancos e exportadoras lideram a preferência. Se Itaú e Prio entregarem, o gringo pode acelerar a alocação.
Outro ponto de atenção é a Liquidez (Mercado): o que é e como funciona dos papéis durante a temporada. Os dias de divulgação tendem a ter volumes muito acima da média, o que aumenta a velocidade dos movimentos. Stops apertados e leituras técnicas no calor do balanço podem virar armadilha.
Três pontos merecem atenção redobrada. Primeiro, o guidance. Empresas que reforçarem ou elevarem projeções tendem a ter reação positiva imediata, mesmo que o número do trimestre venha abaixo do esperado. O contrário também vale: balanço bom com guidance cortado costuma derreter o papel.
Segundo, os dividendos extraordinários. Itaú, BB e Prio têm caixa robusto e podem surpreender com pagamentos acima do dividend payout normal. Bancos brasileiros, em particular, vinham segurando capital por conta de discussões regulatórias, e qualquer sinal de distribuição mais agressiva mexe com os preços.
Terceiro, a leitura sobre o 2T26 e o resto do ano. Os comentários nos earnings calls valem tanto quanto os números frios. Conferir a postura dos CEOs sobre cenário macro, custo de capital e M&A em curso é parte fundamental da análise. O preço do papel também passa por ajustes técnicos depois do balanço, processo que envolve Marcação a Mercado: o que é e como funciona, vale entender pra quem opera renda variável.
O calendário fica menos carregado a partir de 12 de maio, mas ainda terá nomes relevantes como Vale (VALE3), Petrobras (PETR4) e Eletrobras com complementos. A próxima semana já entra mais focada em consumo (Lojas Renner, C&A) e setor elétrico. Por ora, é a maratona de bancos, varejo digital e petróleo que vai definir o humor do mercado pelos próximos 60 dias.
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