
A rede atacadista argentina Caromar, conhecida pela marca El Coloso, entrou em concurso preventivo de credores no início de abril de 2026, após uma queda de 42% nas vendas em apenas 12 meses. A empresa fechou quatro filiais, demitiu 115 funcionários e agora tenta evitar a falência num processo judicial que deve se estender até 2027. O caso é mais um capítulo da crise que vem corroendo o varejo na América Latina, com reflexos que chegam ao Brasil.
A decisão foi homologada pelo Juzgado Comercial N°1, que classificou o processo como um "gran concurso", o equivalente argentino a uma recuperação judicial de grande porte. A Caromar, controlada pela família Manassero desde 1989, reconheceu estar em "estado de cessação de pagamentos".
A Caromar operava nove unidades atacadistas no país, abastecendo pequenos comércios de bairro com produtos de limpeza, perfumaria, fraldas e cosméticos. No auge, tinha cerca de 500 funcionários. Hoje, restam pouco mais de 200.
O problema central foi a retração brutal do consumo argentino. Entre novembro de 2024 e novembro de 2025, as vendas de mercadorias da rede caíram 42% em termos reais e nominais. A queda foi tão acentuada que a empresa acumulou mais de 1 bilhão de pesos em cheques devolvidos, o que fez fornecedores passarem a exigir pagamento antecipado.
A crise se agravou por uma combinação de fatores: perda de capital de giro, dificuldade de abastecimento, conflitos sindicais que paralisaram operações e dois processos trabalhistas que, somados, representam cerca de 1 bilhão de pesos. Curiosamente, a dívida bancária da Caromar, de aproximadamente 55 milhões de pesos, está em dia. O rombo está nos passivos comerciais e trabalhistas.
No final de 2025, a Caromar encerrou as operações em quatro cidades: Mar del Plata, Burzaco, La Tablada e San Justo. As demissões atingiram 115 trabalhadores.
Atualmente, a rede mantém apenas cinco pontos de venda: três na Grande Buenos Aires (Laferrere, Moreno e José C. Paz) e dois no interior (Rosário e Neuquén). São essas unidades que sustentam a tentativa de reestruturação.
O cronograma judicial prevê a verificação de créditos até 28 de maio de 2026. As negociações com credores devem se estender até abril de 2027, quando uma audiência definirá se a empresa conseguiu um acordo ou caminhará para a liquidação.
O caso da Caromar não é isolado. Na Argentina, a combinação de inflação persistente, queda do poder de compra e políticas de ajuste fiscal do governo Milei criou um ambiente hostil pro varejo. Atacadistas, que dependem de volume alto e margem baixa, são os primeiros a sentir quando o consumidor corta gastos.
No Brasil, o padrão é parecido, guardadas as proporções. O Grupo Pão de Açúcar (GPA) protocolou em março de 2026 um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas. A rede fechou 39 lojas em dois anos e acumulou prejuízo líquido de R$ 651 milhões em 2025, com capital circulante negativo de R$ 1,22 bilhão.
Antes do GPA, a rede espanhola Dia já havia entrado em recuperação judicial no Brasil, fechando 343 das suas 587 lojas. O Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial registrou 68 empresas usando o mecanismo em 2025, um recorde absoluto.
O denominador comum? Juros elevados, consumidor mais sensível a preço e a ascensão do atacarejo, que espreme redes tradicionais. Como disse um analista do setor ao SuperVarejo: "O consumidor brasileiro tem se mostrado mais sensível a preço nos últimos anos, o que fortalece formatos como atacarejo e grandes redes com forte estratégia promocional."
O Ibovespa segue em território de recorde, tendo fechado a segunda-feira (14) aos 198.657 pontos na 11ª alta consecutiva, com o dólar abaixo de R$ 5,00. Mas o bom momento do índice mascara a fragilidade de alguns setores.
O varejo é um deles. Quem acompanha ações de supermercados e varejo alimentar na B3 sabe que a tese precisa de cuidado redobrado. O GPA, que já foi um dos queridinhos do mercado, virou um caso de reestruturação. Casas Bahia, Americanas e agora o segmento de alimentação mostram que a onda de recuperações judiciais no varejo brasileiro não acabou.
Na comunidade da Traders, os traders estão discutindo bastante a tese de varejo neste momento. O consenso entre quem opera o setor é que seletividade é tudo. Empresas com baixo endividamento, operação de atacarejo e presença forte no digital tendem a se sair melhor do que redes tradicionais com muitas lojas físicas e margens apertadas.
Pra quem investe no mercado argentino via BDRs ou acompanha a economia do Mercosul, o caso da Caromar é um termômetro. A retração de 42% nas vendas de um atacadista de necessidades básicas (produtos de limpeza e higiene) mostra que a crise de consumo na Argentina ainda não encontrou o fundo do poço.
Três pontos merecem atenção de quem acompanha o mercado de perto:
Primeiro: o desenrolar do concurso preventivo da Caromar. Se a empresa não conseguir acordo com credores até abril de 2027, a falência é o próximo passo. Isso afetaria toda a cadeia de fornecedores do segmento de limpeza e perfumaria na Argentina.
Segundo: o andamento da recuperação extrajudicial do GPA no Brasil. A renegociação dos R$ 4,5 bilhões vai definir o futuro do maior grupo de supermercados premium do país. O desfecho impacta diretamente a confiança dos fornecedores e a dinâmica competitiva do setor.
Terceiro: os dados de consumo na Argentina e no Brasil ao longo do segundo semestre. A FGV já projeta desaceleração do varejo brasileiro em 2026, com crédito mais caro e inadimplência em alta. Se os indicadores de consumo não reagirem, mais redes podem seguir o caminho da Caromar.
Pra quem está começando a investir, o principal aprendizado aqui é simples: varejo é um setor cíclico. Quando a economia aperta, as margens evaporam rápido. Diversificação e atenção aos fundamentos financeiros das empresas continuam sendo a melhor proteção contra surpresas desagradáveis.
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