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Fim de uma era: criadores da gigante de cosméticos largam o barco

Publicado em
31/3/2026
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Fim de uma era: criadores da gigante de cosméticos largam o barco
Fim de uma era: criadores da gigante de cosméticos largam o barco
Fim de uma era: criadores da gigante de cosméticos largam o barco

A Natura anunciou nesta segunda-feira (31) uma das maiores mudanças de governança da sua história: a gigante de private equity Advent International vai adquirir entre 8% e 10% das ações da companhia no mercado secundário, enquanto os três cofundadores, Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, deixam o conselho de administração pela primeira vez desde a fundação da empresa, em 1969. O mercado reagiu com entusiasmo: NATU3 disparou cerca de 10%, negociando na casa dos R$ 10,15 na manhã desta segunda.

É o fim de uma era de 57 anos. E o início de outra, com um dos maiores fundos de private equity do mundo sentado à mesa.

O que a Advent International vai fazer na Natura

O acordo prevê que a Advent monte uma posição de 8% a 10% do capital da Natura comprando ações diretamente na B3, a um preço médio de R$ 9,75 por papel. O fundo tem até seis meses pra completar a compra. Não é emissão de novas ações: a Advent vai adquirir de acionistas que já estão no mercado.

Em troca da posição, a gestora americana ganha o direito de indicar dois membros pro conselho de administração e participar de alguns comitês. Mas não terá poder de veto sobre decisões da companhia nem obrigação de voto conjunto com outros blocos de acionistas, exceto em questões relacionadas à composição do board.

Um novo acordo de acionistas com validade de 10 anos foi assinado com efeito imediato. Vale destacar: o J.P. Morgan alertou que a entrada da Advent está condicionada a certos requisitos que podem não se concretizar. Ou seja, o deal ainda carrega alguma incerteza.

Por que os fundadores estão saindo do conselho

Seabra, Leal e Passos vão renunciar aos cargos no conselho após a assembleia geral de 2026. O presidente do conselho, Fabio Barbosa (ex-CEO), também sai. Os quatro migram pra um novo Conselho Consultivo, um órgão sem poder executivo, sem capacidade de decisão e sem autoridade pra representar a empresa. A função é preservar valores, cultura e legado da Natura.

No lugar dos fundadores, entram representantes das famílias: Luiz Guerra (family office do Seabra), Pedro Villares (family office do Leal) e Guilherme Passos (filho do Pedro Passos). O novo presidente do conselho proposto é Alessandro Carlucci, ex-CEO da Natura que comandou a empresa entre 2005 e 2014.

Os fundadores também publicaram uma carta sobre "inovação e memória para um novo ciclo". Na prática, a mensagem é clara: a gestão agora é profissional, e a família fica como guardiã do DNA da marca, não das decisões de negócio.

Como o mercado reagiu à notícia da Natura

A reação foi inequivocamente positiva. NATU3 abriu em forte alta, acumulando cerca de 10% de valorização nos primeiros minutos do pregão. O papel, que vinha sendo negociado na faixa dos R$ 9,24, saltou pra R$ 10,15.

Os analistas, em geral, gostaram do que viram. O BTG Pactual disse que a entrada de um investidor financeiro do porte da Advent "adiciona credibilidade à tese de investimento" e pode funcionar como catalisador pra uma reprecificação das ações. O J.P. Morgan classificou o movimento como "um passo positivo na modernização da governança", destacando a profissionalização do conselho. A XP já mantinha recomendação de compra pra NATU3 entrando em 2026.

Quem acompanha o mercado de ações do Ibovespa sabe que a Natura tem sido uma das histórias mais turbulentas dos últimos anos. A alta de hoje reflete, acima de tudo, alívio: o mercado enxerga a nova governança como o capítulo final de uma reestruturação longa e dolorosa.

A reestruturação que trouxe a Natura até aqui

Pra entender o peso desse anúncio, é preciso olhar o caminho que a Natura percorreu nos últimos anos. A empresa passou por uma das maiores transformações corporativas da história recente do Brasil.

Em dezembro de 2025, a Natura concluiu a venda da Avon Internacional pro fundo Regent LP por aproximadamente 1 libra esterlina (cerca de R$ 7). A operação transferiu toda a operação da Avon na Europa, África e Ásia. A Natura ficou com a operação latino-americana, a marca e a propriedade intelectual. No início de 2026, vendeu também a unidade da Avon na Rússia, encerrando de vez esse capítulo.

Em julho de 2025, a holding Natura &Co foi incorporada pela Natura Cosméticos, eliminando a estrutura de holding. O ticker voltou de NTCO3 pro original NATU3, o mesmo desde o IPO em 2004. No quarto trimestre de 2025, a empresa reverteu prejuízos e registrou lucro líquido de R$ 186 milhões, mas também cortou 1.400 funcionários no processo.

Agora, com a Advent entrando e os fundadores migrando pro conselho consultivo, a Natura completa o ciclo: simplificação societária, desinvestimento de ativos não estratégicos e profissionalização da governança. Tudo isso enquanto relança a Avon com novo posicionamento no Brasil e no México.

Quem é a Advent International

A Advent é uma das maiores gestoras de private equity do mundo, com mais de US$ 90 bilhões sob gestão. Tem histórico relevante na América Latina, com investimentos em empresas como Kroton (hoje Cogna), Dufry e International Meal Company. No setor de consumo, a gestora tem experiência global.

A entrada da Advent não é uma posição passiva de fundo de ações qualquer. Com dois assentos no conselho, o fundo vai participar ativamente das decisões estratégicas. O mercado interpreta isso como um voto de confiança na tese de recuperação da Natura, mas também como pressão por resultados. Private equity cobra performance.

O que muda na composição do conselho

O novo conselho proposto tem uma cara bem diferente do atual. Além de Carlucci como presidente, a formação inclui nomes como Duda Kertesz, João Paulo Ferreira (atual CEO) e Gabriela Comazzetto. Os dois indicados da Advent serão conhecidos após a efetivação do acordo.

Na comunidade da Traders, os traders estão debatendo se a nova configuração traz mais agilidade ou se a presença de um fundo de private equity pode gerar conflitos com a cultura original da empresa. É uma discussão válida: a Natura sempre se posicionou como uma companhia de propósito, e a Advent é, por definição, focada em retorno financeiro.

Contexto do pregão: Ibovespa e dólar nesta segunda

O pregão desta segunda-feira (31) começou sob tensão. O Ibovespa vinha de um fechamento na sexta em alta de 0,56%, na faixa dos 132,5 mil pontos, mas acumula queda de cerca de 3,8% em março. No ano, o índice sobe aproximadamente 12,7%.

O dólar abriu pressionado, rondando os R$ 5,24, com o mercado monitorando a escalada do conflito no Irã e o petróleo Brent de volta acima dos US$ 100 o barril. Dados de emprego no Brasil e nos Estados Unidos também estão no radar dos investidores.

Pra quem acompanha ações pagadoras de dividendos, a Natura historicamente não era uma candidata óbvia. Mas com a reestruturação avançada e o lucro voltando, o papel entra no radar de gestores que buscam histórias de turnaround.

O que observar daqui pra frente

Alguns pontos merecem atenção nos próximos meses. Primeiro, se a Advent vai de fato completar a aquisição de 8% a 10% no prazo de seis meses. O J.P. Morgan flagou que existem condições que podem inviabilizar o negócio. Segundo, como a dinâmica do novo conselho vai funcionar na prática, especialmente a relação entre os representantes das famílias e os indicados da Advent.

Terceiro, o relançamento da Avon no Brasil e no México é o grande teste operacional de 2026. A marca precisa provar que ainda tem relevância no mercado latino-americano depois de anos de declínio. Quarto, a Natura precisa sustentar a trajetória de lucro iniciada no 4T25 (R$ 186 milhões), mostrando que o corte de 1.400 funcionários e a simplificação societária geraram eficiência real.

Quem está montando posição ou avaliando se a valorização de hoje já precifica a notícia, vale lembrar que o preço médio da Advent é R$ 9,75. Se o fundo considera esse preço atrativo pra montar uma posição relevante, é um sinal. Mas sinal não é garantia. O risco de execução ainda existe, e a Natura tem um histórico recente de promessas que demoraram pra se materializar.

A saída dos fundadores do conselho, por mais simbólica que seja, é um movimento que o mercado esperava há tempo. A profissionalização da governança era vista como pré-requisito pra atrair capital institucional de peso. A Advent chegou. Agora é hora de entregar.

Pra quem quer entender melhor como funcionam fundos exclusivos e o papel de investidores institucionais em empresas listadas, vale aprofundar o tema. Movimentos como o da Advent na Natura tendem a se repetir em outras companhias brasileiras que passam por reestruturação.


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