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Agenda de empresas: Advent adquire participação na Natura; lucro da Simpar soma R$ 543 milhões

Publicado em
31/3/2026
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Agenda de empresas: Advent adquire participação na Natura; lucro da Simpar soma R$ 543 milhões. Entenda o impacto nos seus investimentos.
Agenda de empresas: Advent adquire participação na Natura; lucro da Simpar soma R$ 543 milhões
Agenda de empresas: Advent adquire participação na Natura; lucro da Simpar soma R$ 543 milhões

A Natura (NTCO3) anunciou nesta segunda-feira (30) um pacote de mudanças que redesenha a governança da companhia. A gestora americana Advent International firmou compromisso vinculante para adquirir entre 8% e 10% do capital social da empresa no mercado secundário, a um preço-alvo médio de R$ 9,75 por ação. Se concretizada na faixa máxima, a operação pode representar um desembolso de até R$ 1,34 bilhão.

Na outra ponta, os três cofundadores, Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, vão deixar o conselho de administração pela primeira vez em mais de cinco décadas e migrar para um conselho consultivo sem poderes executivos. A saída será formalizada na assembleia geral ordinária e extraordinária de 2026.

As ações NTCO3 acumulam alta de 28% no ano, e a chegada de um investidor institucional de peso reforça a tese de reestruturação que a companhia vem executando desde a venda da The Body Shop.

O que a Advent ganha com a Natura

A Advent International é uma das maiores gestoras de private equity do mundo, com mais de US$ 90 bilhões em ativos sob gestão. A empresa já investiu em mais de 400 companhias ao redor do globo e tem histórico de atuação no Brasil, com passagens por empresas como Tempo Assist e International Meal Company.

Ao atingir a participação alvo, a Advent terá direito a indicar dois membros adicionais para o conselho de administração e participar de comitês de assessoramento. O prazo para concluir as compras é de seis meses.

O preço-alvo de R$ 9,75 por ação está ligeiramente acima dos patamares recentes de negociação do papel, o que sinaliza que a gestora enxerga valor na tese de recuperação. A um múltiplo de 11x o lucro estimado para 2026 e 5,5x EBITDA, a Natura negocia com desconto em relação a pares do setor de cosméticos.

Fundadores abrem mão do comando direto

Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos fundaram a Natura em 1969 e estiveram presentes no conselho desde então. A migração para um conselho consultivo é simbólica: marca o fim de uma era na qual os fundadores tinham assento formal na governança da companhia.

O novo órgão consultivo será responsável por preservar os valores, a cultura e o legado da empresa, mas sem poderes deliberativos. Na prática, o trio perde voto, mas ganha voz institucional.

A composição proposta para o novo conselho de administração inclui nomes como Alessandro Carlucci, que deve assumir a presidência do colegiado, o CEO João Paulo Ferreira e Duda Kertész. Entram também novos conselheiros: Pedro Villares, Guilherme Passos, Luiz Guerra, Flávia Almeida e Gabriela Comazzetto.

O acordo de acionistas terá duração de dez anos, o que dá previsibilidade à governança e sinaliza compromisso de longo prazo tanto dos controladores remanescentes quanto da Advent.

Os números do 4T25 mostram virada operacional

O anúncio da Advent chega semanas depois da divulgação dos resultados do quarto trimestre de 2025, que confirmaram a virada operacional da Natura. A companhia registrou lucro líquido de R$ 186 milhões nas operações continuadas no 4T25, revertendo prejuízo do mesmo período do ano anterior.

A receita líquida consolidada somou R$ 6,19 bilhões no trimestre, uma queda de 12,1% na comparação anual. A retração reflete desaceleração de vendas no Brasil e dificuldades operacionais na Argentina, incluindo efeitos da hiperinflação e integração de negócios.

Apesar da receita menor, o EBITDA recorrente avançou 57,2% e atingiu R$ 978 milhões, com margem de 15,8%. A melhora veio de cortes de custos, disciplina em despesas comerciais e administrativas e ajustes na remuneração variável. Quem analisa balanços sabe que esse tipo de expansão de margem com receita em queda exige execução operacional rigorosa. Pra se aprofundar no tema, vale conferir o guia sobre como analisar balanços de empresas e investir melhor.

O resultado foi impactado por uma provisão não recorrente de R$ 434 milhões relacionada à venda da The Body Shop, sem efeito caixa. Excluindo esse efeito, o lucro teria sido de R$ 620 milhões no trimestre.

Resultados acumulados de 2025

No ano completo, a Natura reverteu o prejuízo de R$ 644 milhões registrado em 2024 e fechou 2025 com lucro líquido de R$ 463 milhões nas operações continuadas. Desconsiderando efeitos extraordinários de desinvestimentos e provisões contábeis, o lucro ajustado teria chegado a R$ 974 milhões.

A receita líquida anual totalizou R$ 22,2 bilhões, recuo de 5% frente a 2024. Já o EBITDA ajustado cresceu 9,5% e atingiu R$ 3,1 bilhões, evidenciando a prioridade da gestão em rentabilidade sobre crescimento de topline.

O lucro por ação (LPA) da Natura voltou ao território positivo depois de dois anos de prejuízo, o que é um sinal relevante pra quem acompanha múltiplos de valuation. O P/L (Preço/Lucro) da ação, que estava negativo, agora pode ser calculado novamente, facilitando a comparação com concorrentes do setor.

Alavancagem em queda e geração de caixa

A dívida líquida da Natura encerrou 2025 em R$ 3,5 bilhões, com alavancagem de 1,57x o EBITDA. Considerando exclusões de itens não recorrentes, esse indicador cairia para 1,31x. A meta da companhia é chegar a um patamar entre 1,0x e 1,2x até o final de 2026.

A redução da alavancagem foi um dos pilares da reestruturação iniciada com a venda da The Body Shop em 2024 e a separação da Avon Internacional. Com menos dívida e margens maiores, a empresa ganha flexibilidade pra investir em inovação e no relançamento da marca Avon no Brasil.

Avon: a aposta na revitalização

A marca Avon, incorporada em 2020 durante a fusão com a Avon Products, passou por um processo de reestruturação profunda. A Natura separou as operações internacionais da Avon (que entraram em recuperação judicial nos EUA) e ficou com a operação brasileira e latino-americana.

O relançamento da Avon no Brasil é considerado um dos principais catalisadores pra 2026. A estratégia combina venda direta com canais digitais e varejo seletivo, buscando rejuvenescer uma marca que perdeu espaço nos últimos anos mas ainda tem reconhecimento massivo entre consumidoras.

Se a Avon conseguir retomar crescimento, o impacto na receita consolidada pode ser relevante, dado que a marca ainda tem uma base instalada de milhões de consultoras no país.

Contexto setorial: cosméticos sob pressão, mas com sinais de recuperação

O setor de cosméticos e higiene pessoal no Brasil enfrentou pressão de custos em 2025, com matérias-primas indexadas ao dólar e consumo interno desacelerado pelo ciclo de juros altos. A Selic elevada encarece crédito e reduz o poder de compra das classes C e D, que são base da venda direta.

Mesmo assim, o segmento de prestige e cuidados com a pele continua crescendo, puxado por tendências globais de "skinification" e autocuidado. A Natura tem apostado nesse nicho com a marca homônima, que registrou ganho de market share em 2025.

Concorrentes como O Boticário e Grupo Coty também estão investindo pesado em inovação e digitalização. A diferença é que a Natura carrega um passivo de reestruturação (The Body Shop, Aesop vendida pra L'Oréal, Avon Internacional) que nenhum par doméstico enfrentou.

O que esperar daqui pra frente

Com a entrada da Advent e a nova governança, o mercado espera que a Natura entre num ciclo de maior disciplina de capital e foco em retorno ao acionista. Os próximos catalisadores incluem:

Primeiro, o fechamento da compra de ações pela Advent nos próximos seis meses, que pode gerar fluxo comprador relevante no papel. Segundo, a evolução das margens operacionais ao longo de 2026, com potencial de expansão adicional se os cortes de custos se sustentarem. Terceiro, o desempenho do relançamento da Avon, que começa a dar sinais mais concretos no segundo semestre.

A meta de alavancagem abaixo de 1,2x até o final do ano também abre espaço pra eventual distribuição de dividendos, algo que não acontece de forma relevante desde 2022. Pra quem acompanha dividendos de empresas globais via BDRs, a Natura é um caso interessante de empresa brasileira com operação multinacional que pode voltar a remunerar o acionista.

A ação negocia a 11x o lucro projetado pra 2026. Se a companhia entregar crescimento de receita no segundo semestre, o múltiplo pode comprimir rapidamente, dado que o mercado precifica mais o risco do que a recuperação neste momento.

O movimento da Advent é, no mínimo, um voto de confiança de quem faz a lição de casa antes de colocar mais de R$ 1 bilhão na mesa. Resta saber se a nova Natura, sem os fundadores no conselho e com um sócio de peso, vai conseguir transformar eficiência operacional em crescimento sustentável.


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