
A Embraer (EMBR3) reportou nesta sexta-feira (8) o resultado do primeiro trimestre de 2026 e o mercado não gostou do que viu. O lucro líquido ajustado caiu 51,5% na comparação anual, indo para R$ 145,4 milhões, mesmo com a receita batendo recorde para um primeiro trimestre. A reação foi imediata: o papel desabou 11,45% e fechou cotado a R$ 73,78, sendo a pior performance do Ibovespa no dia.
Foi o tipo de balanço que confunde até quem acompanha a companhia de perto. De um lado, números operacionais robustos. De outro, lucro mais magro, margens menores que o consenso e fluxo de caixa livre decepcionante. Resultado: tombo expressivo no papel mesmo com os principais bancos mantendo recomendação de compra e classificando a queda como exagerada.
A receita líquida da Embraer somou R$ 7,6 bilhões no trimestre, alta de 18% na comparação com o 1T25, quando a companhia havia faturado R$ 6,4 bilhões. Em dólares, foram aproximadamente US$ 1,4 bilhão. O número é o maior já registrado pela fabricante para um primeiro trimestre, historicamente o período mais fraco do ano por questões de sazonalidade nas entregas.
O EBITDA ajustado ficou em R$ 749,4 milhões, ante R$ 631 milhões um ano antes. A margem EBITDA ajustada, porém, ficou estável em 9,9%, e foi justamente esse o ponto que incomodou o mercado. Diante de receita 18% maior, esperava-se alguma alavancagem operacional. Não veio. O EBIT ajustado, em dólares, ficou em US$ 94 milhões, cerca de 12% abaixo do consenso dos analistas.
A linha que mais decepcionou foi o fluxo de caixa livre, que veio negativo e abaixo das estimativas. Em uma indústria intensiva em capital de giro como a aviação, esse é um indicador que pesa bastante na avaliação dos investidores. O Goldman Sachs classificou a qualidade dos ganhos como "baixa", expressão que costuma soar como alerta em mesas de operação.
Olhando só pela fotografia do operacional, a Embraer fez bonito. A companhia entregou 44 aeronaves no trimestre, salto de 47% frente às 30 unidades do 1T25. Foram 19 jatos comerciais e 25 jatos executivos, número que coloca a empresa dentro do ritmo necessário para cumprir o guidance anual.
O destaque ficou para a divisão de Defesa & Segurança. A receita do segmento avançou 47% no comparativo anual, e a margem EBIT ajustada saltou para 6,0%, ante margem negativa de 1,6% no 1T25. A virada vem dos contratos do KC-390, jato cargueiro militar que ganhou novos clientes na Europa e na Ásia nos últimos 18 meses.
Os outros segmentos também cresceram: Aviação Comercial subiu 32%, Aviação Executiva 17% e Serviços & Suporte 4%. É um quadro raro de avanço em todas as quatro divisões simultaneamente. O problema é que esse avanço de receita não se converteu em margem como o mercado projetava, especialmente nos jatos executivos, onde havia expectativa de mix de produto melhor.
A pergunta dominou as reuniões matinais nas corretoras. Três fatores explicam o tombo de 11%:
O primeiro é o ajuste contábil que reduziu o lucro reportado e gerou ruído. A companhia teve impacto negativo de US$ 13 milhões no trimestre relacionado a tarifas comerciais americanas, sendo que outros US$ 11 milhões ainda estão alocados em estoques e devem afetar resultados futuros. Mesmo com a recente isenção tarifária concedida pelos EUA, o efeito retroativo machucou o trimestre.
O segundo é a margem EBIT bem abaixo do consenso. Quando uma companhia entrega receita recorde mas margens fracas, a leitura é de que o crescimento está vindo com qualidade ruim. Em ações de growth como a Embraer, que negocia em múltiplos elevados, esse tipo de leitura derruba o papel rápido.
O terceiro é o fluxo de caixa livre. Investidores institucionais costumam olhar com lupa essa métrica em fabricantes de aviões, porque o setor exige adiantamentos pesados de fornecedores e clientes. Um trimestre com queima de caixa acima do esperado acende alerta sobre a capacidade de geração de valor no curto prazo. Para entender melhor essa relação entre lucro e ação, vale a pena dar uma olhada em Lucro por Ação (LPA): o que é e como funciona.
Apesar do tombo, os principais bancos que cobrem o papel mantiveram a tese positiva. O JPMorgan reiterou recomendação overweight com preço-alvo de US$ 84 para o ADR. O Bradesco BBI seguiu com compra e alvo de US$ 88. O Itaú BBA manteve outperform com alvo de US$ 75. A XP Investimentos classificou a queda como "reação exagerada" do mercado.
O argumento dos analistas é que os fundamentos de longo prazo seguem intactos. A Embraer tem um backlog robusto, beneficia-se da escassez global de aeronaves provocada pelos atrasos da Boeing, e o segmento de Defesa está em ciclo de alta com a recomposição de orçamentos militares na Europa. A própria companhia reiterou o guidance para 2026: receita entre US$ 8,2 e US$ 8,5 bilhões, margem EBIT ajustada de 8,7% a 9,3%, fluxo de caixa livre acima de US$ 200 milhões, entrega de 80 a 85 jatos comerciais e 160 a 170 jatos executivos.
Em outras palavras: o trimestre veio fraco, mas a empresa não mexeu nas projeções para o ano. Para os bancos, isso sinaliza que a administração enxerga os números como pontuais, não estruturais. Se quiser entender o tipo de papel ao qual EMBR3 pertence, vale conferir Ação Ordinária (ON): o que é e como funciona.
O resultado da Embraer precisa ser lido dentro de um cenário setorial favorável. O setor de aviação comercial vive um momento ímpar: a Boeing segue com problemas de produção e qualidade, a Airbus tem fila de mais de uma década para o A320neo, e companhias aéreas precisam renovar frota para atender demanda pós-pandemia que se mostrou muito maior que o esperado.
Nesse vácuo, o E-Jet E2 da Embraer ganhou tração comercial relevante nos últimos dois anos. A briga por fatias do mercado de jatos regionais virou disputa global, e a brasileira tem se beneficiado de pedidos de companhias americanas como American Airlines e SkyWest. No segmento executivo, o Praetor 600 e o novo Phenom 100EX mantêm a Embraer como líder em jatos leves e super-médios.
O segmento de defesa, por sua vez, está em ciclo de alta global. Os orçamentos militares europeus subiram após a guerra na Ucrânia, e o KC-390 surge como alternativa ao C-130 da Lockheed Martin, sobretudo para países que querem diversificar fornecedores. Holanda, Áustria, Hungria, Tcheca, Suécia e Coreia do Sul já fecharam compra. Esse pipeline tende a aparecer com força nos próximos trimestres. Para quem nunca olhou EMBR3 com atenção, vale ler Como investir em Embraer (EMBR3).
Os próximos catalisadores são conhecidos: confirmação ou revisão do guidance no 2T26, evolução das margens conforme o efeito tarifário se dissipa, e novos contratos do KC-390 e do E195-E2. O mercado também vai monitorar o ritmo de geração de caixa, que historicamente melhora no segundo semestre por conta da concentração de entregas no quarto trimestre.
A questão de fundo é se o tombo de 11% representa uma janela de entrada ou um sinal de que o papel havia esticado demais nos últimos meses. EMBR3 acumulava alta expressiva no acumulado dos últimos 12 meses antes deste pregão, então parte da correção pode ser leitura técnica, não apenas reação ao balanço. Para investidores que olham fundamentos, a reiteração do guidance somada ao backlog robusto sustenta a tese de longo prazo. Para quem opera no curto prazo, o trimestre serve de alerta de que receita recorde nem sempre vira lucro recorde.
O próximo balanço, do 2T26, será divulgado em agosto e deve trazer respostas mais claras sobre a sustentabilidade das margens. Até lá, o papel deve seguir sensível a qualquer sinalização adicional sobre tarifas americanas, ritmo de entregas e geração de caixa.
Sources: - [Embraer (EMBJ3) tem lucro ajustado de R$ 145,4 mi no 1T26 — InfoMoney](https://www.infomoney.com.br/mercados/embraer-embj3-resultados-primeiro-trimestre-2026/) - [Embraer: ação cai 10% com decepções em série no 1T — InfoMoney](https://www.infomoney.com.br/mercados/embraer-embj3-acao-desaba-10-com-decepcoes-em-serie-mas-tese-positiva-esta-intacta/) - [Embraer (EMBJ3): Lucro encolhe para R$ 145,4 milhões no 1T26 — Money Times](https://www.moneytimes.com.br/embraer-embj3-lucro-encolhe-para-r-1454-milhoes-no-1t26-veja-os-destaques-do-balanco-lmrs/) - [Embraer (EMBJ3) tem pior queda no Ibovespa após balanço — Seu Dinheiro](https://www.seudinheiro.com/2026/bolsa-dolar/embraer-embj3-despenca-apos-balanco-do-1t26-entenda-kaes/)Aviso Legal
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