Notícias

Caso $LIBRA: documentos inéditos ligam presidente argentino ao golpe cripto

Publicado em
8/4/2026
Compartilhar:
Caso $LIBRA: documentos inéditos ligam presidente argentino ao golpe cripto
Caso $LIBRA: documentos inéditos ligam presidente argentino ao golpe cripto
Caso $LIBRA: documentos inéditos ligam presidente argentino ao golpe cripto

Registros telefônicos obtidos pela Justiça argentina e revelados pelo New York Times mostram que o presidente Javier Milei fez sete ligações para o lobista cripto Mauricio Novelli na noite de 14 de fevereiro de 2025. Foi exatamente nessa noite que Milei publicou no X (antigo Twitter) o endereço do contrato do token $LIBRA na blockchain Solana. Horas depois, investidores de varejo perderam um total estimado em US$ 251 milhões.

As novas evidências, divulgadas nesta semana, reacendem um escândalo que parecia perder força depois que Milei foi absolvido de violações éticas em junho de 2025. Agora, o cerco se fecha novamente: a Câmara dos Deputados argentina aprovou nesta terça-feira (8) uma comissão de investigação formal, e um juiz federal determinou o congelamento de ativos de três operadores ligados ao projeto.

O que o celular de Novelli revelou sobre o caso $LIBRA

A análise forense do celular de Mauricio Novelli, apreendido como parte da investigação criminal federal conduzida pelo promotor Eduardo Taiano, trouxe à tona um documento datado de 11 de fevereiro de 2025, três dias antes do lançamento do $LIBRA. O documento descreve um suposto acordo de US$ 5 milhões vinculado à promoção do token por Milei.

O pagamento seria dividido em três etapas: US$ 1,5 milhão como adiantamento em tokens ou dinheiro; mais US$ 1,5 milhão após Milei anunciar publicamente Hayden Davis como seu assessor no X; e US$ 2 milhões pela formalização de um contrato de consultoria em blockchain e inteligência artificial, assinado presencialmente pelo presidente.

Não se sabe se o contrato foi de fato assinado. Mas o documento coloca em xeque a versão oficial de que Milei apenas "divulgou um projeto promissor" sem vínculo financeiro.

Mensagens de áudio indicam pagamentos regulares

Além do acordo de US$ 5 milhões, a perícia do celular revelou mensagens de áudio que sugerem uma relação financeira anterior entre Novelli e o entorno de Milei. Em uma gravação de 2023, o lobista orientou um assistente a provisionar "os 2 mil de sempre pro Milei", referindo-se aparentemente a um pagamento mensal.

Em outra mensagem de abril de 2024, Novelli mencionou "os 4 mil que precisamos dar pra Karina", numa aparente referência a Karina Milei, irmã do presidente e figura influente no governo. São valores pequenos se comparados ao acordo do $LIBRA, mas importantes porque apontam pra uma relação de longa data.

A oposição argentina já anunciou que vai protocolar pedidos de informação exigindo que Milei, Karina, o assessor presidencial Santiago Caputo e Demian Reidel expliquem o teor das conversas com Novelli. Um pedido de interpelação do chefe de gabinete Manuel Adorni também está em andamento.

Como o $LIBRA evaporou US$ 251 milhões em horas

Pra quem não acompanhou o caso desde o início, vale recapitular. Na noite de 14 de fevereiro de 2025, Milei compartilhou no X o endereço de contrato do token $LIBRA, um memecoin baseado em Solana. O post foi suficiente pra disparar uma corrida de compras: em minutos, o $LIBRA atingiu uma capitalização de mercado superior a US$ 4 bilhões.

O euforia durou pouco. Enquanto investidores de varejo compravam, oito carteiras ligadas ao projeto venderam posições massivas, retirando cerca de US$ 107 milhões em lucro. O token derreteu mais de 96% em questão de horas. Milei apagou o post, mas o estrago já estava feito.

Mais de 112 queixas criminais foram registradas nas primeiras 48 horas. O padrão é clássico de um rug pull: insiders acumulam tokens antes do lançamento, um evento de grande visibilidade dispara o preço, e os insiders vendem tudo antes que o varejo consiga reagir. Quem entende de como os mercados funcionam na prática sabe que esse tipo de esquema não é novidade, mas raramente envolve um chefe de Estado.

Qual é a situação política de Milei agora?

O escândalo do $LIBRA é considerado pela imprensa argentina a maior ameaça ao governo Milei desde sua posse. A investigação criminal federal continua aberta sob o promotor Eduardo Taiano, e o presidente é classificado como "pessoa de interesse", embora não tenha sido formalmente acusado de nenhum crime até o momento.

A comissão de investigação aprovada pela Câmara nesta terça-feira exige depoimentos de funcionários do governo, mas Milei e sua irmã Karina foram excluídos da lista inicial de convocados. A oposição já contesta essa exclusão e promete ampliar o escopo.

O governo mantém a posição de que Milei agiu de boa-fé ao divulgar o projeto e que não recebeu nenhum pagamento. Mas a cada nova revelação, essa narrativa fica mais difícil de sustentar. As sete ligações na noite do lançamento, combinadas com o documento de acordo financeiro datado de três dias antes, sugerem um nível de coordenação que contradiz a versão de um "compartilhamento espontâneo".

O que isso significa pro mercado cripto e pro investidor

O caso $LIBRA virou referência global sobre os riscos de memecoins promovidas por figuras públicas. Pra quem opera criptoativos, seja diretamente ou via instrumentos ligados à renda variável, o episódio reforça três lições que na comunidade da Traders muitos traders já discutem com frequência.

Primeiro: desconfie de qualquer ativo que dependa de uma única pessoa pra se valorizar. Se o fundamento do investimento é o tuíte de um presidente, de um CEO ou de um influenciador, isso não é investimento. É aposta.

Segundo: memecoins são instrumentos de alta especulação. Podem gerar retornos absurdos em minutos, mas também podem zerar seu capital na mesma velocidade. Quem entra precisa saber que está assumindo risco total.

Terceiro: regulação importa. A Argentina não tinha (e ainda não tem) um marco regulatório robusto pra criptoativos. Isso facilitou o esquema. No Brasil, a CVM e o Banco Central têm avançado em regulamentação, mas o mercado cripto global ainda opera em zonas cinzentas que exigem cautela redobrada do investidor. Vale ficar atento às novas regras tributárias de 2026 que também afetam criptoativos.

Impacto nos mercados argentinos

A bolsa argentina recuou mais de 5% quando o escândalo estourou originalmente em fevereiro de 2025. Agora, com as novas revelações, o risco político volta a pesar. O peso argentino, que já opera sob pressão constante, pode sofrer nova rodada de desvalorização se a crise escalar pra um cenário de impeachment ou perda de governabilidade.

Pra investidores brasileiros com exposição à Argentina (via BDRs de empresas como MercadoLibre ou fundos que incluem ativos latino-americanos), o momento pede atenção. Não necessariamente pra vender, mas pra monitorar de perto os desdobramentos políticos nas próximas semanas.

O que esperar do pré-mercado hoje

O tema deve dominar a cobertura de notícias na América Latina nesta quarta-feira. Com a comissão de investigação recém-aprovada, o noticiário argentino tende a manter pressão sobre ativos locais. Nos mercados globais, o impacto direto é limitado, mas o caso reforça o escrutínio regulatório sobre criptoativos, o que pode afetar o sentimento em relação a tokens menores e memecoins.

Na abertura do pregão brasileiro, fique de olho no comportamento de papéis com exposição ao mercado argentino e no noticiário político de Buenos Aires. O desenrolar do caso $LIBRA tem potencial pra redesenhar o mapa político da Argentina nos próximos meses, e isso inevitavelmente respinga nos mercados da região.


Aviso Legal

O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.

As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.

Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.

Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.

A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.