
O diesel acumulou alta de quase 20% em 30 dias no Brasil, segundo dados da ANP, e a crise de abastecimento que começou no Rio Grande do Sul já chegou a Petrópolis, Niterói e São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Postos de bandeira branca são os mais afetados, com dificuldade de compra junto às distribuidoras. A gasolina comum já bate R$ 9,99 o litro em casos extremos, e o diesel B (com 15% de biodiesel) está na média de R$ 7,26 por litro nas bombas. A semana que começa na segunda-feira (24) é uma das mais carregadas do mês, com ata do Copom na terça, assembleia decisiva dos caminhoneiros na quarta e IPCA-15 na sexta.
O combustível que encareceu é o mesmo que move a logística do país. E se os caminhoneiros decidirem parar na quarta-feira, dia 26, o investidor brasileiro vai sentir o impacto muito além dos postos de gasolina.
Tudo começa no Estreito de Ormuz. Desde os ataques aéreos conjuntos de EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, a passagem por onde transita 20% de todo o petróleo do mundo está praticamente bloqueada. Ataques iranianos a navios-tanque e instalações no Kuwait e no Iraque fizeram o preço do Brent saltar para US$ 112,19 o barril no fechamento de quinta-feira (20), com pico de US$ 119 na véspera.
O WTI (referência americana) fechou a US$ 98,32. A Agência Internacional de Energia (IEA) coordenou a maior liberação de estoques estratégicos da história, em 14 de março, mas nem isso segurou os preços.
A Petrobras reajustou o diesel A em R$ 0,38 por litro no dia 13 de março, levando o preço nas refinarias para R$ 3,65. Nas bombas, o impacto foi de aproximadamente R$ 0,32 por litro. O governo reagiu zerando o PIS/Cofins sobre o diesel em 12 de março, mas o alívio tributário mal compensou a escalada do barril no mercado internacional.
A Abicom (associação de importadores de combustíveis) já alertou para risco de desabastecimento de diesel em abril se a situação persistir. A Petrobras diz que está cumprindo todas as entregas e até ofereceu volumes acima do contratado às distribuidoras. Mas o Procon de Petrópolis confirmou que postos independentes simplesmente não conseguem comprar combustível das distribuidoras ao preço atual.
A paralisação prevista para 19 de março foi suspensa após assembleia em Santos (SP), quando o governo publicou a MP 1.343/2026. A medida provisória tornou obrigatório o CIOT (código de rastreamento de operações de transporte) e permitiu à ANTT cruzar pagamentos de frete com a tabela mínima, com multas de R$ 1 milhão a R$ 10 milhões por infração.
O recuo foi tático, não definitivo. A CNTTL (confederação nacional dos caminhoneiros) manteve o estado de alerta e colocou três demandas na mesa: reversão do aumento do diesel, cumprimento da tabela mínima de frete e alívio nos pedágios.
Na terça-feira (25), lideranças dos caminhoneiros se reúnem com o ministro Guilherme Boulos. Na quarta (26), acontece a assembleia decisiva que vai definir se a greve volta ou não. Se não houver avanço concreto, a paralisação pode ser retomada imediatamente.
Na comunidade da Traders, os traders já estão mapeando os setores mais expostos: transportadoras, varejistas, frigoríficos e distribuidoras de combustível. Quem viveu a greve de 2018 sabe o estrago que uma paralisação causa na bolsa e na economia real.
Além da crise do diesel e dos caminhoneiros, a semana é pesada em indicadores. Veja o que monitorar:
Segunda (24): Boletim Focus do Banco Central. Após o corte da Selic pra 14,75% na semana passada, o mercado vai atualizar as projeções de inflação e juros. PMIs preliminares de março na Europa e nos EUA também saem nesse dia.
Terça (25): A ata do Copom é o grande evento. O corte de 0,25 ponto percentual na Selic (de 15,00% para 14,75%) veio menor do que os 0,50 p.p. esperados antes da guerra. A ata vai detalhar como o conflito no Oriente Médio pesou na decisão e o que esperar do ritmo de cortes. Também sai o INCC-M da FGV.
Quarta (26): IPC Fipe semanal, dados de crédito e fluxo cambial do BC. E, o mais importante: a assembleia dos caminhoneiros que pode decretar greve.
Quinta (27): IGP-M da FGV, pesquisas de comércio e serviços.
Sexta (28): Os dois indicadores de peso. O IPCA-15 (prévia da inflação oficial) sai pelo IBGE, com estimativa do Bradesco em +0,56% no mês. O Caged (emprego formal) também é divulgado.
No cenário internacional, não tem reunião do Fed esta semana (próximo FOMC em 5 e 6 de maio) nem payroll (próximo em 3 de abril). Mas os PMIs preliminares de segunda podem mexer com as bolsas americanas se vierem abaixo do esperado, num ambiente já pressionado pelo petróleo.
Com o Brent acima de US$ 110, o cenário se divide claramente. A relação entre commodities e a bolsa brasileira fica ainda mais evidente em momentos como esse.
Quem tende a se beneficiar: Petrobras (PETR3/PETR4) é a escolha óbvia, com receita em dólar e custos em real. Mas atenção: o risco político de interferência nos preços aumenta junto com a crise. PetroRio (PRIO3) e 3R Petroleum (RRRP3) também surfam o barril alto, com menos exposição política que a estatal.
Quem sofre: Companhias aéreas (Azul, Gol) sentem diretamente o querosene mais caro. Transportadoras e varejistas que dependem de logística rodoviária ficam pressionadas. A inflação do diesel contamina a cadeia inteira de distribuição, dos alimentos à construção civil.
Pro investidor que quer entender como se posicionar em petróleo via ETFs e BDRs na B3, a diversificação geográfica pode funcionar como proteção. Com o Brent nesse patamar, analistas do Citi projetam que pode chegar a US$ 120 nos próximos 1 a 3 meses, com cenário extremo de US$ 150 se o Estreito de Ormuz continuar fechado.
O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto na quarta passada, primeira redução desde maio de 2024. O mercado esperava 0,50 p.p. antes da crise no Oriente Médio, mas a guerra forçou cautela. O Focus projeta a Selic em 12,25% no fim de 2026, mas essa estimativa está sob pressão.
O diesel 20% mais caro em 30 dias é um choque inflacionário que se espalha. Frete mais caro significa alimento mais caro, material de construção mais caro, tudo mais caro. Se o IPCA-15 de sexta vier acima de 0,56%, o mercado pode começar a precificar um ritmo ainda mais lento de cortes.
A ata do Copom na terça vai ser lida com lupa. O investidor quer saber: o BC priorizou a inflação de curto prazo (pressionada pelo petróleo) ou o cenário de desaceleração global? A resposta define o tom dos juros futuros e, por tabela, de toda a renda fixa e da bolsa.
Pra quem investe em renda fixa internacional como alternativa de proteção, vale entender como funcionam os bonds e a renda fixa global acessível via B3.
O pregão de segunda abre com três vetores de risco sobrepostos. Primeiro, o petróleo: qualquer escalada no Estreito de Ormuz no fim de semana pode abrir o Brent acima de US$ 115 na segunda. Segundo, o risco de greve: se a reunião de terça com Boulos não avançar, o mercado vai precificar a paralisação antes mesmo da assembleia de quarta. Terceiro, a ata do Copom: o tom do documento vai calibrar as expectativas de juros pro segundo trimestre.
A combinação de petróleo caro, diesel em alta e ameaça de greve cria um cenário onde a inflação de curto prazo pode surpreender negativamente. Quem opera swing ou carrega posições em setores cíclicos precisa ajustar o risco.
A recomendação é pragmática: fique atento ao Boletim Focus de segunda, leia a ata do Copom com calma na terça e, na quarta, acompanhe a assembleia dos caminhoneiros em tempo real. Essa pode ser a semana que define se a crise do combustível fica contida nos postos ou transborda pra economia inteira.
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