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Avalanche de queixas prenunciou o colapso e foi ignorada

Publicado em
22/3/2026
Avalanche de queixas prenunciou o colapso e foi ignorada
Avalanche de queixas prenunciou o colapso e foi ignorada
Avalanche de queixas prenunciou o colapso e foi ignorada

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) encaminhou ao liquidante do Banco Master um levantamento que consolida mais de 33 mil reclamações registradas contra a instituição entre 2020 e janeiro de 2026. Os dados, obtidos a partir da plataforma consumidor.gov.br e dos Procons de todo o país, mostram que o volume de queixas disparou justamente em 2025, o mesmo ano em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco fundado por Daniel Vorcaro.

O número não é só grande. Ele é revelador. A maior parte das reclamações gira em torno de empréstimos consignados contratados por aposentados, pensionistas do INSS, servidores públicos e trabalhadores do setor privado. E entre 2024 e 2025, apenas na plataforma federal, o volume de queixas sobre esse tema mais que dobrou.

O que o levantamento da Senacon revela sobre o Banco Master

Nos Procons, foram 9.365 reclamações sobre consignados ao longo do período. No consumidor.gov.br, outras 14.992. Somadas, as queixas sobre esse produto bancário representam mais de 24 mil registros, o grosso do dossiê.

Outros 7.768 registros se referem a cobranças por serviços não solicitados ou não reconhecidos pelos clientes. E mais 2.767 reclamações tratam de cobranças indevidas ou abusivas. O padrão que emerge é claro: milhares de brasileiros relataram ter sido cobrados por produtos que não pediram ou que não reconhecem.

No ranking de 2025 dentro dos Procons, as queixas sobre consignados a beneficiários do INSS lideraram com folga, ultrapassando 3 mil registros. Já na plataforma federal, a liderança ficou com consignados a servidores públicos e trabalhadores do setor privado, somando 2,9 mil casos no ano.

A Senacon não divulgou os dados por acaso. O diretor do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, Osny da Silva Filho, afirmou em ofício que o compartilhamento busca "subsidiar a adoção de providências pertinentes no âmbito do processo de liquidação", especialmente quanto à "adequada informação aos consumidores" e ao "tratamento das demandas pendentes".

Da tentativa de venda à liquidação: a cronologia do colapso

Pra entender como o Master chegou a esse ponto, é preciso voltar alguns meses. Em 2025, o Banco de Brasília (BRB) protagonizou uma tentativa de aquisição do Master que chamou atenção do mercado. A operação foi vetada pelo Banco Central em setembro de 2025, e o BRB desistiu de recorrer. Uma segunda tentativa, pela Fictor, também não prosperou.

Em 17 de novembro de 2025, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras bilionárias. No dia seguinte, 18 de novembro, o BC decretou a liquidação extrajudicial do banco, citando "grave crise de liquidez".

Vorcaro foi solto posteriormente, mas passou a cumprir medidas cautelares. A CPMI do INSS investiga cerca de 254 mil contratos de empréstimos consignados que teriam sido firmados sem o conhecimento de aposentados e pensionistas. O INSS chegou a suspender os repasses ao Master, bloqueando cerca de R$ 2 bilhões em novembro de 2025.

R$ 40 bilhões em garantias: o maior resgate da história do FGC

A liquidação do Master se tornou o maior evento de acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) da história do sistema financeiro brasileiro. O fundo estimou a necessidade de aproximadamente R$ 40,6 bilhões líquidos pra cobrir as garantias de cerca de 800 mil investidores.

Os pagamentos começaram em 17 de janeiro de 2026. Até o início de março, o FGC já havia desembolsado R$ 38,4 bilhões a credores do conglomerado Master (incluindo Banco Master, Master de Investimento e Letsbank). Mas o processo não foi indolor pra ninguém.

A estratégia do Master era conhecida no mercado: crescimento vertiginoso baseado na emissão de CDBs com taxas muito acima do padrão. Segundo a BBC, os retornos chegavam a 120%, 140% e até 160% do CDI. Pra quem acompanha o funcionamento do mercado financeiro brasileiro, taxas nesse patamar já eram um sinal de alerta há tempos.

Com a liquidação, todos os recursos em conta corrente, CDBs, RDBs, LCIs, LCAs e letras de câmbio ficaram congelados. Os rendimentos foram contabilizados apenas até 18 de novembro de 2025. Quem tinha até R$ 250 mil por CPF na instituição pôde acionar a garantia do FGC.

Quase R$ 800 milhões ainda não foram resgatados

Mesmo quatro meses depois do início dos pagamentos, um dado chama atenção: quase R$ 800 milhões permanecem parados no FGC, segundo levantamento recente. Milhares de investidores ainda não foram buscar o dinheiro. O prazo final para solicitação vai até 30 de abril de 2026.

Pra recompor o caixa após o rombo, os bancos brasileiros fecharam acordo pra antecipar R$ 32,5 bilhões ao FGC, equivalente a 60 meses de contribuições. O recolhimento foi definido pra 25 de março. O Banco Central também alterou regras do compulsório pra permitir que recursos depositados compulsoriamente pelos bancos sejam direcionados ao fundo.

CPMI do INSS e a investigação sobre consignados

O caso Master transcendeu o sistema financeiro e virou caso político. A instituição entrou na mira de duas CPIs do Congresso: a CPMI do INSS e a do Crime Organizado.

A CPMI investiga especificamente os contratos de consignados firmados pelo Master com aposentados e pensionistas. Daniel Vorcaro foi convocado pra depor em fevereiro de 2026. O depoimento foi adiado mais de uma vez, mas a comissão obteve acesso a mensagens do empresário com políticos de alto escalão, reveladas em março após quebra de sigilo telemático autorizada pela Justiça.

Na comunidade da Traders, os traders acompanharam de perto a repercussão no setor bancário. O caso levantou discussões sobre risco de contraparte e sobre a importância de diversificar entre instituições financeiras, especialmente quando a rentabilidade prometida foge muito do padrão.

Quem opera no mercado sabe que retornos muito acima da média sempre carregam risco proporcional. O caso Master é um lembrete concreto disso. A lógica por trás de estratégias de gestão de risco como as de George Soros parte exatamente dessa premissa: o risco precisa ser dimensionado antes do retorno.

O que esperar nas próximas semanas

A CPMI do INSS entra na reta final, sem sinal de prorrogação até agora. A expectativa é que o relatório final indique responsáveis e proponha mudanças regulatórias no mercado de consignados.

Enquanto isso, o FGC precisa concluir os pagamentos aos credores do Will Bank, que também integrava o conglomerado Master. A estimativa total, incluindo todas as entidades do grupo, pode chegar a R$ 46,9 bilhões, segundo dados do UOL Economia.

Pra o sistema financeiro como um todo, o legado do caso Master já está sendo sentido. A contribuição extraordinária dos bancos ao FGC e a mudança nas regras do compulsório são medidas que impactam o setor inteiro. E a discussão sobre limites pra CDBs de bancos menores, que já vinha ganhando corpo, agora se tornou inadiável.

O investidor que mantém posições em ações de bancos como BBAS3 precisa acompanhar de perto os desdobramentos regulatórios. A recomposição do FGC e eventuais mudanças nas regras de captação podem afetar margens e resultados do setor bancário nos próximos trimestres.

O dossiê da Senacon é mais uma peça num quebra-cabeça que ainda está sendo montado. Com 33 mil queixas documentadas, 254 mil contratos sob suspeita e mais de R$ 40 bilhões em garantias acionadas, o caso Master é, de longe, o maior colapso bancário brasileiro desde o Banco Santos em 2004. E suas consequências ainda estão longe de terminar.


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