
Quatro das maiores montadoras do mundo acumulam US$ 70 bilhões em perdas (cerca de R$ 378 bilhões) por causa de apostas frustradas em veículos elétricos. O número, que já se compara ao PIB de países inteiros, ganhou mais peso na última semana com a Honda anunciando o cancelamento de três modelos elétricos e projetando seu primeiro prejuízo anual em quase sete décadas como empresa de capital aberto.
Pra quem acompanha o pré-mercado nesta segunda-feira, o recado é claro: o setor automotivo global está em plena reestruturação. E isso afeta diretamente quem tem exposição a montadoras, fornecedores de baterias, mineradoras de lítio e ETFs do setor.
A conta é salgada e continua crescendo. Os números consolidados até março de 2026 mostram um estrago sem precedentes na indústria automotiva:
Stellantis lidera o ranking com US$ 26,5 bilhões em baixas contábeis. A dona de Jeep, Fiat e Ram cancelou projetos como a picape elétrica Ram 1500 REV e, num movimento simbólico, ressuscitou motores V8. As ações da companhia despencaram 23% no pregão europeu no dia do anúncio e acumulam queda superior a 13% em 2026.
Ford registrou US$ 19,5 bilhões em encargos, sendo US$ 8,5 bilhões em ativos da divisão Model E, US$ 6 bilhões pela dissolução da joint venture de baterias com a sul-coreana SK On e US$ 5 bilhões em despesas de programas cancelados. A montadora encerrou a produção do F-150 Lightning, sua picape elétrica que havia sido lançada com promessa de custar US$ 40 mil, mas chegou ao mercado por US$ 55 mil. Desde 2023, a Ford já acumula US$ 13 bilhões em prejuízos operacionais só na divisão de elétricos.
A Honda é a vítima mais recente. Na semana passada, a japonesa anunciou o cancelamento de toda a linha 0 Series nos EUA (SUV, Saloon e o Acura RSX) e projetou uma baixa contábil de US$ 15,7 bilhões (1,2 trilhão de ienes). É o primeiro prejuízo anual da Honda desde que a empresa abriu capital, há quase 70 anos. As ações da companhia recuam 7% no acumulado de 2026.
A General Motors fechou a conta com US$ 7,6 bilhões em write-downs no segundo semestre de 2025. Desse total, US$ 4,2 bilhões foram pagamentos em dinheiro a fornecedores que tinham expandido capacidade com base em projeções de vendas que se mostraram irreais. As fábricas de baterias Ultium em Ohio e Tennessee foram paralisadas por seis meses a partir de janeiro, deixando 1.550 trabalhadores temporariamente sem função.
A resposta tem vários ingredientes, mas dois pesaram mais do que qualquer previsão otimista poderia absorver.
O primeiro foi o fim do crédito fiscal federal de US$ 7.500 para veículos elétricos nos Estados Unidos, eliminado em setembro de 2025. Esse incentivo era o que tornava os EVs competitivos em preço frente a modelos a combustão. Sem ele, a demanda esfriou rápido.
O segundo foi o afrouxamento das metas federais de economia de combustível (padrões CAFE), que reduziu a pressão regulatória sobre as montadoras. Sem multa por emissões elevadas, o incentivo financeiro pra investir pesado em eletrificação simplesmente desapareceu.
Tem ainda a concorrência chinesa. Enquanto Ford e GM queimavam caixa tentando competir em elétricos, fabricantes como BYD e NIO inundaram o mercado global com modelos mais baratos e tecnologicamente competitivos. A Honda citou explicitamente a "intensificação da competição na China" como motivo pra reavaliar seus investimentos e registrar perdas adicionais no mercado chinês.
No fundo, as montadoras tradicionais superestimaram a velocidade de adoção dos veículos elétricos. Muitas aceleraram planos de produto inspiradas pela valorização meteórica da Tesla entre 2020 e 2021. Mas o mercado real se mostrou mais sensível a preço, infraestrutura de recarga e autonomia do que as projeções indicavam. É um caso que lembra outros episódios de apostas bilionárias que deram errado na história dos mercados.
O movimento é praticamente unânime: recuar dos elétricos puros e apostar em híbridos como ponte tecnológica.
A Ford vai transformar o F-150 Lightning num veículo com motor elétrico combinado a um gerador a gasolina (o chamado EREV, ou veículo elétrico de autonomia estendida). A GM reduziu volumes de produção de EVs e espera que as perdas da divisão elétrica diminuam entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão em 2026, mas ainda sem previsão de lucro antes de 2029.
A Stellantis, num giro de 180 graus, voltou a investir em motorização a combustão. A Honda, mesmo cancelando os três modelos americanos, disse que vai manter planos de eletrificação em mercados onde a regulação exige, como Europa e Japão, mas com volume e ritmo muito menores.
Na comunidade da Traders, os traders já estão debatendo se esse recuo abre oportunidade em ações de montadoras que sofreram demais ou se o setor automotivo como um todo perdeu atratividade. A tese de que "o pior já passou" precisa ser avaliada com cuidado, porque várias dessas empresas ainda vão reportar encargos adicionais nos próximos trimestres.
Pra o investidor brasileiro, existem três frentes de atenção.
A primeira são as ações das próprias montadoras. Ford (F), GM (GM), Honda (HMC) e Stellantis (STLA) são negociadas em Nova York e têm BDRs disponíveis na B3. Todas sofreram pressão vendedora nos últimos meses, o que pode representar oportunidade pra quem acredita na recuperação, mas também risco de queda adicional se os resultados do primeiro trimestre de 2026 vierem pior que o esperado.
A segunda frente é a cadeia de fornecedores. Empresas de baterias, mineradoras de lítio (como Albemarle e SQM) e fabricantes de componentes elétricos estão sendo atingidas em cascata. A dissolução da joint venture Ford-SK On é um exemplo direto de como o recuo das montadoras afeta toda a cadeia.
A terceira é o efeito sobre ETFs temáticos de energia limpa e mobilidade elétrica. Fundos que concentram posições em montadoras e empresas de baterias podem enfrentar pressão nas cotas, o que impacta diretamente quem investiu nessa tese nos últimos anos.
Do ponto de vista macroeconômico, o recuo dos EVs também tem implicações sobre inflação e política energética. Com montadoras voltando a investir em combustão, a demanda por petróleo tende a se manter mais resiliente do que o mercado projetava, o que pode sustentar preços da commodity por mais tempo. Quem investe em ativos ligados ao crescimento econômico e setores cíclicos precisa recalibrar essas premissas.
Os futuros americanos abriram sem grandes surpresas nesta segunda-feira, mas o tema dos EVs segue no radar. O mercado digere a notícia da Honda, que veio na última quarta-feira (12), e aguarda os próximos balanços trimestrais pra dimensionar se as baixas contábeis já foram totalmente reconhecidas ou se tem mais por vir.
Na Ásia, as ações da Honda fecharam em queda moderada em Tóquio. Na Europa, Stellantis segue pressionada em Milão. No pré-mercado americano, Ford e GM operam perto da estabilidade, com investidores avaliando se o pior do ciclo de write-downs já ficou pra trás.
O risco-país das economias que dependem pesado da indústria automotiva (como Japão, Alemanha e Coreia do Sul) também merece atenção. Um setor que queimou US$ 70 bilhões em poucos trimestres não se reestrutura sem deixar marcas na economia real.
A lição de fundo é direta: transições tecnológicas não acontecem em linha reta. O mercado apostou que o futuro seria 100% elétrico e descobriu, na prática, que a transição é mais lenta, mais cara e mais complexa do que qualquer PowerPoint corporativo prometia. Pra quem investe, isso significa olhar com mais ceticismo pra teses de "revolução inevitável" e dar mais peso pros números reais de demanda, margem e geração de caixa.
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