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Barril de crude dispara e ameaça gasolina a R$ 8 no segundo semestre

Publicado em
31/3/2026
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Barril de crude dispara e ameaça gasolina a R$ 8 no segundo semestre
Barril de crude dispara e ameaça gasolina a R$ 8 no segundo semestre
Barril de crude dispara e ameaça gasolina a R$ 8 no segundo semestre

O petróleo Brent se aproxima dos US$ 120 por barril nesta segunda-feira (31) e caminha pra encerrar março com uma alta de cerca de 55%, o maior ganho mensal desde que o contrato começou a ser negociado, em 1988. O recorde anterior era de setembro de 1990, quando o Brent subiu 46% durante a primeira Guerra do Golfo. O barril, que estava cotado a cerca de US$ 70 no fim de fevereiro, bateu US$ 119,50 na máxima do mês e opera na faixa dos US$ 115 nesta tarde.

O gatilho pra essa disparada tem nome e endereço: o Estreito de Ormuz, passagem entre o Irã e Omã por onde escoam aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Desde o início de março, o estreito está efetivamente fechado ao tráfego comercial em consequência do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que começou no fim de fevereiro. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que 17,8 milhões de barris por dia de petróleo e derivados deixaram de fluir pela rota, e que cerca de 500 milhões de barris já foram perdidos no acumulado do mês.

Por que o Brent disparou 55% em março?

A resposta curta: choque de oferta. Diferente de altas anteriores motivadas por demanda aquecida ou cortes coordenados da OPEP, desta vez o mercado perdeu acesso físico a uma fatia enorme da produção global. O Estreito de Ormuz é o principal gargalo logístico do petróleo mundial. Quando ele fecha, não existe alternativa imediata pra redirecionar esse volume.

A guerra, agora na quinta semana, destruiu infraestrutura portuária e de oleodutos na região, e os navios-tanque simplesmente pararam de transitar. Mesmo países do Golfo Pérsico que não estão diretamente envolvidos no conflito, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar, ficaram com a capacidade de exportação severamente limitada.

Pra dimensionar: o último choque comparável foi em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia levou o Brent a US$ 130. Mas naquele caso, as sanções foram graduais e o mercado teve tempo de se ajustar. Agora, a interrupção foi abrupta. O petróleo saiu de US$ 70 pra US$ 100 em menos de duas semanas e não parou de subir.

O que isso significa pra quem investe no Brasil?

O impacto mais direto é na Petrobras. As ações PETR4 acumulam alta de mais de 50% em 2026 e cerca de 14% só em março. O valor de mercado da estatal bateu R$ 673 bilhões, renovando recordes dez vezes desde o início da guerra. Pra quem acompanha como commodities movem o Ibovespa, o momento é emblemático: a Petrobras praticamente segurou o índice nos 182 mil pontos em sessões onde a maioria dos papéis operou no vermelho.

O Ibovespa fechou esta segunda-feira (30) em 182.514 pontos, com alta de 0,53%. Mas o saldo do mês é de instabilidade. Na quarta (26), por exemplo, o índice caiu 1,45% com incertezas sobre o desenrolar do conflito. A leitura é que o Ibovespa está refém do petróleo: sobe quando a commodity dispara (via Petrobras e outras petroleiras), mas sofre com o medo de recessão global que a própria alta do barril alimenta.

Gasolina e inflação: a conta chega

No bolso do brasileiro, o efeito já apareceu. O diesel subiu 11,8% em uma única semana de março, e a gasolina avançou mais de 2,5% no mesmo período. A Petrobras chegou a adotar cotas extras de oferta de combustíveis pra tentar conter os preços internos, mas a defasagem em relação ao mercado internacional continua pressionando.

As projeções de inflação já foram revisadas pra cima. A XP elevou sua estimativa de IPCA pra 2026 de 3,8% para 4,5% após o IPCA-15 de março. O Inter fez movimento parecido, de 3,8% para 4,3%. O Ministério da Fazenda também revisou seus números. O canal de transmissão é duplo: preço direto dos combustíveis na bomba e efeito cascata no frete, que encarece alimentos e produtos industriais. Quem quer entender como esse cenário afeta a renda fixa com a Selic elevada, vale ficar atento às próximas reuniões do Copom.

Estreito de Ormuz: o gargalo que o mercado subestimou

Ormuz tem 33 km de largura no ponto mais estreito. Por ali passam diariamente cerca de 17 a 20 milhões de barris de petróleo e derivados, dependendo da fonte consultada. Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar dependem dessa passagem pra exportar. Quando o Irã declarou o estreito fechado no início de março, o mercado entrou em modo pânico.

A IEA coordenou uma liberação recorde de reservas estratégicas, mas o volume não foi suficiente pra compensar a perda. Alternativas por oleodutos existem, como o East-West Pipeline da Arábia Saudita, mas a capacidade é limitada e não chega perto de suprir o déficit. Na prática, o mundo está operando com 15 a 20% menos petróleo disponível do que precisa. E enquanto Ormuz estiver fechado, não tem saída simples.

Como o mercado está precificando o risco?

O WTI (referência americana) também disparou, operando na faixa dos US$ 103 a US$ 108 por barril. A diferença entre Brent e WTI se alargou, refletindo o fato de que o choque de oferta atinge mais diretamente o mercado europeu e asiático do que o americano, que conta com produção doméstica robusta de shale oil.

Na comunidade da Traders, os traders estão acompanhando de perto o comportamento das petroleiras e discutindo como esse cenário de tendência de alta se sustenta. A grande questão é se o Brent rompe os US$ 120 ou se a liberação de reservas e eventuais negociações diplomáticas conseguem aliviar a pressão.

Analistas estão divididos. De um lado, há quem argumente que o preço já incorporou o pior cenário e que qualquer sinal de reabertura de Ormuz provocaria uma correção violenta. Do outro, há quem aponte que, se o bloqueio persistir em abril, o Brent pode testar US$ 130 ou mais, igualando os picos de 2022 e potencialmente superando as máximas históricas de 2008 (US$ 147).

Exposição ao petróleo na B3

Pra quem opera na bolsa brasileira, as formas mais diretas de exposição ao petróleo são as ações da Petrobras (PETR3 e PETR4), da PRIO (PRIO3), da 3R Petroleum (RRRP3) e da PetroReconcavo (RECV3). Todas acumulam ganhos expressivos no ano. Quem quer diversificar via BDRs e ETFs pode conferir as opções de investimento em petróleo via B3.

Mas atenção ao risco. Alta de 55% em um mês é historicamente insustentável. Quando a Guerra do Golfo terminou em 1991, o petróleo devolveu praticamente toda a alta em questão de semanas. Se houver um cessar-fogo ou reabertura parcial de Ormuz, a correção pode ser igualmente brusca. Quem está posicionado em petroleiras precisa ter clareza sobre o cenário que está comprando: se é uma tese de longo prazo sobre a empresa ou uma aposta direcional no conflito.

O que observar nos próximos dias

Março termina com o petróleo no maior bull market mensal da história do Brent. Abril começa com três variáveis decisivas pra quem acompanha o mercado.

Primeiro, o andamento das negociações diplomáticas. Qualquer sinal de reabertura, mesmo parcial, de Ormuz pode derrubar o barril em US$ 10 ou US$ 15 numa única sessão. Segundo, a resposta da OPEP+. A organização se reúne nos próximos dias e pode decidir aumentar a produção dos membros que não dependem de Ormuz, embora o espaço pra isso seja limitado. Terceiro, o impacto na demanda global. Petróleo acima de US$ 100 por tempo prolongado historicamente desacelera a economia, o que pode reduzir a demanda e criar um teto natural pro preço.

No Brasil, o foco fica na Petrobras e na política de preços de combustíveis. Se a defasagem continuar subindo, a pressão por reajuste na bomba vai aumentar, e com ela o impacto inflacionário que já está sendo precificado pelo mercado. Pra quem opera, o cenário exige atenção redobrada à volatilidade e gestão de risco rigorosa. Meses como esse são raros na história. E costumam cobrar caro de quem não respeita o risco.


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