
A Suzano (SUZB3) conquistou um lugar entre as dez empresas mais lucrativas da B3 em 2025, com lucro líquido de R$ 13,4 bilhões no acumulado do ano. O número representa uma das viradas mais impressionantes da bolsa brasileira recente: em 2024, a companhia havia registrado prejuízo de R$ 7,1 bilhões. São R$ 20,5 bilhões de diferença de um ano pro outro, a maior reversão absoluta de resultado entre todas as empresas listadas, tirando a Petrobras.
A gigante de celulose e papel ficou na 10ª posição do ranking, que somou R$ 288,6 bilhões em lucros combinados, alta de 37,2% frente a 2024. A lista é dominada por Petrobras (R$ 110,1 bilhões), Itaú Unibanco (R$ 45,7 bilhões) e Bradesco (R$ 24,6 bilhões), mas a entrada da Suzano mostra que o setor de commodities pode surpreender quando o ciclo vira.
O prejuízo de 2024 tinha um componente muito específico: perdas cambiais e efeitos contábeis de marcação a mercado de derivativos, que distorceram o resultado da companhia. Em 2025, a história foi diferente. A receita líquida anual bateu recorde de R$ 50,1 bilhões, puxada por vendas recordes de celulose e papéis, que alcançaram 14,2 milhões de toneladas, alta de 15% em relação ao ano anterior.
Esse crescimento de volume veio em boa parte do Projeto Cerrado, a nova fábrica da Suzano no Mato Grosso do Sul, com capacidade de 2,55 milhões de toneladas por ano. A planta entrou em operação no segundo semestre de 2024 e atingiu plena capacidade ao longo de 2025, turbinando os números de produção e diluindo custos fixos.
O custo caixa de produção de celulose ficou em R$ 817 por tonelada no ano, o menor nível desde 2021. Pra uma empresa que depende de escala e eficiência operacional, esse dado é tão relevante quanto o lucro em si.
O EBITDA ajustado anual somou R$ 21,7 bilhões, queda de 9% frente aos R$ 23,8 bilhões de 2024. A explicação passa pelo preço da celulose no mercado internacional. Em 2025, os preços realizados ficaram na faixa de US$ 550 por tonelada, bem abaixo dos cerca de US$ 700/t do ano anterior.
Mesmo com o EBITDA menor, a geração de caixa operacional foi robusta: R$ 13,9 bilhões no ano. A companhia mostrou que consegue gerar caixa mesmo em cenários de preço mais apertado, graças ao volume recorde de vendas e à eficiência de custos.
É o tipo de dinâmica que quem analisa balanços de empresas precisa entender bem: às vezes o lucro sobe mesmo quando o EBITDA cai, porque outros fatores (câmbio, resultado financeiro, impostos) pesam de maneira diferente a cada período.
Olhando só o quarto trimestre de 2025, o lucro líquido foi de R$ 116 milhões. Parece pouco pra uma empresa que lucrou R$ 13,4 bilhões no ano, mas o contexto importa: no 4T24, a Suzano havia registrado prejuízo de R$ 6,73 bilhões. Ou seja, mesmo com um resultado modesto, a reversão trimestral foi brutal.
A receita líquida do 4T25 ficou em R$ 13,1 bilhões, queda de 8% na comparação anual, mas alta de 8% frente ao terceiro trimestre. O EBITDA ajustado do trimestre foi de R$ 5,6 bilhões, recuo de 14% YoY, porém avanço de 7% QoQ. A margem EBITDA fechou em 43%, contra 46% no mesmo período do ano anterior.
O fluxo de caixa livre trimestral foi de R$ 2,3 bilhões, equivalente a um yield anualizado de 15%. Esse número veio sustentado por redução de investimentos de capital e liberação de R$ 661 milhões em capital de giro.
A trajetória trimestral mostra uma curva descendente ao longo do ano: o 1T25 trouxe lucro de R$ 6,35 bilhões (beneficiado por efeitos cambiais), o 2T25 registrou R$ 5 bilhões, o 3T25 caiu pra R$ 1,96 bilhão e o 4T25 fechou em R$ 116 milhões. Essa desaceleração reflete principalmente a queda nos preços internacionais da celulose e a normalização dos efeitos financeiros que inflaram o primeiro trimestre.
Junto com os resultados do 4T25, a Suzano anunciou um novo programa de recompra de até 40 milhões de ações, o que representa 6,5% do total de papéis em circulação. A mensagem é clara: a administração considera que o papel está barato e prefere devolver valor ao acionista via recompra em vez de expandir capacidade produtiva.
Mais do que isso, a companhia informou que vai manter a produção de celulose de mercado cerca de 3,5% abaixo da capacidade nominal anual em 2026. É uma estratégia de disciplina de oferta que o setor de celulose aprendeu a adotar: em vez de inundar o mercado e derrubar preços, a Suzano prefere segurar um pouco de volume pra sustentar a rentabilidade.
Pra quem acompanha dividendos e retorno ao acionista, vale notar que a recompra funciona como uma forma de remuneração indireta, reduzindo a base de ações e, consequentemente, aumentando o lucro por ação.
O ranking das dez mais lucrativas da B3 em 2025 é dominado por bancos. Cinco instituições financeiras figuram na lista, com Itaú, Bradesco, BTG Pactual, Santander Brasil e Itaúsa garantindo presença cativa. A Petrobras, como de costume, lidera com folga.
A entrada da Suzano nesse grupo seleto mostra que empresas de commodities podem competir com gigantes financeiros em anos favoráveis. Mas há uma diferença fundamental: enquanto os bancos entregam resultados relativamente previsíveis, empresas como a Suzano dependem do ciclo de preços da celulose, do câmbio e da demanda global. O lucro de R$ 13,4 bilhões veio em um ano de receita recorde, mas o próprio histórico da companhia mostra que o resultado pode oscilar bastante de um ano pro outro.
A Ambev, por exemplo, mantém presença no ranking com crescimento mais moderado, enquanto a Suzano fez uma entrada pelo contraste extremo: saiu de um dos maiores prejuízos da B3 em 2024 direto pro top 10 de lucros em 2025.
O cenário pra 2026 tem variáveis importantes. A Suzano já sinalizou que vai manter a restrição voluntária de produção, o que ajuda a sustentar preços. Ao mesmo tempo, a companhia anunciou reajustes consecutivos no preço da celulose no início de 2025, com aumentos de US$ 20/t na Ásia e US$ 60/t na Europa e América do Norte. Esses reajustes indicam que há espaço pra recuperação de margens.
Do lado da demanda, o crescimento chinês (principal mercado consumidor de celulose) continua sendo a variável mais relevante. Qualquer desaceleração na China pressiona os preços globais da commodity, enquanto uma retomada mais forte pode beneficiar diretamente a Suzano.
O câmbio também pesa. Boa parte da receita da Suzano é dolarizada, enquanto os custos são majoritariamente em reais. Um real mais fraco tende a beneficiar a companhia, como aconteceu no primeiro trimestre de 2025.
A XP Investimentos, em revisão de fevereiro de 2026, estabeleceu preço-alvo de R$ 66 por ação pra Suzano, acima dos patamares recentes de negociação. Analistas do BTG, Itaú BBA e Genial também viram os números do 4T25 como positivos e mantiveram recomendações construtivas pro papel.
A Suzano é a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo e, depois da aquisição da Fibria em 2019, se consolidou como líder absoluta do setor no Brasil. A empresa opera com florestas plantadas e tem forte presença em mercados internacionais, exportando pra mais de 100 países.
O setor de papel e celulose brasileiro tem vantagens competitivas estruturais: custo de produção entre os mais baixos do mundo (graças ao eucalipto de ciclo curto), escala e infraestrutura logística. Essas vantagens ficam ainda mais evidentes em anos como 2025, quando a eficiência operacional permite gerar lucro mesmo com preços internacionais menores.
Pra quem quer diversificar a exposição a commodities além do setor de celulose, vale explorar como empresas latinas listadas no exterior via BDRs oferecem acesso a outros segmentos da economia regional.
A reversão de prejuízo bilionário pra lucro de R$ 13,4 bilhões é impressionante, mas é preciso ter cuidado com a leitura. Parte relevante do lucro anual (quase metade) se concentrou no 1T25, beneficiado por efeitos cambiais. A trajetória descendente ao longo dos trimestres seguintes mostra que o resultado normalizado é bem diferente do pico.
Os pontos que merecem atenção daqui pra frente: evolução do preço da celulose no mercado internacional, efetividade da restrição voluntária de produção, ritmo de desalavancagem da companhia e execução do programa de recompra de ações. A geração de caixa livre de 15% anualizada no 4T25 é um sinal positivo, mas precisa se sustentar nos próximos trimestres pra confirmar a tese.
A entrada da Suzano no top 10 das mais lucrativas da B3 não é só um marco contábil. É uma demonstração de como o ciclo de commodities pode transformar completamente o perfil de resultado de uma empresa em questão de meses. Resta saber se a companhia consegue manter esse patamar de rentabilidade em 2026 ou se o ranking do próximo ano vai contar uma história diferente.
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