
O Santander reiterou sua visão otimista para a Vale (VALE3) e projeta um primeiro trimestre de 2026 robusto pra mineradora, com margens operacionais saudáveis e avanço relevante na divisão de metais básicos. O banco manteve a recomendação Outperform (acima da média do mercado) e a Vale como top pick do setor de mineração, com preço-alvo de US$ 15,50 por ADR para o fim de 2026.
A tese do Santander se apoia em três pilares: preços de minério de ferro sustentados acima de US$ 100 por tonelada, valuation descontado frente aos pares globais e a aceleração estratégica da Vale Base Metals, subsidiária que reúne as operações de cobre e níquel. O conjunto desses fatores deve se traduzir em dividendos mínimos estimados em US$ 4,1 bilhões ao longo de 2026, o que corresponde a um dividend yield de 7,5%.
Embora os números oficiais do primeiro trimestre ainda não tenham sido divulgados, a expectativa do mercado é de um EBITDA na casa de US$ 4 bilhões no 1T26, o que representaria alta de cerca de 28% na comparação anual, segundo estimativas do Citi. A produção de minério de ferro deve ficar entre 68 e 69 milhões de toneladas, praticamente estável em relação ao primeiro trimestre de 2025, com preço realizado estimado em torno de US$ 96 por tonelada.
O cenário é favorável. O preço do minério de ferro opera ao redor de US$ 117 por tonelada em abril de 2026, bem acima do consenso de mercado que projetava algo entre US$ 95 e US$ 105 pra esse período. Isso beneficia diretamente as margens da Vale, que já vinham em trajetória de recuperação.
No quarto trimestre de 2025, a mineradora entregou um EBITDA ajustado de US$ 4,8 bilhões, com margem proforma de 44%, e receita líquida de US$ 11 bilhões (alta de 9% na base anual). O prejuízo líquido reportado de US$ 3,8 bilhões no 4T25 veio de baixas contábeis não recorrentes, relacionadas principalmente a Brumadinho e descaracterização de barragens. O lucro proforma, que exclui esses efeitos, foi de US$ 1,4 bilhão, avanço de 68% frente ao trimestre anterior.
O grande destaque da análise do Santander é o peso crescente da Vale Base Metals (VBM) nos resultados consolidados. Em 2024, a divisão de cobre e níquel representava cerca de 10% do EBITDA da companhia. Em 2026, a expectativa é que esse número salte para 26%, mais que dobrando sua participação. E o plano de longo prazo é ainda mais ambicioso: a Vale projeta que metais básicos respondam por até 35% do EBITDA a partir de 2035.
No Base Metals Day realizado em março de 2026, os executivos detalharam a estratégia de crescimento. A meta é elevar a produção de cobre para 700 mil toneladas anuais até 2035, partindo das 382 mil toneladas entregues em 2025 (alta de 9,8% versus 2024). Já a produção de níquel, que foi de 177 mil toneladas no ano passado, deve alcançar entre 210 mil e 250 mil toneladas até 2030.
Pra 2026, o guidance de produção aponta pra algo entre 350 a 380 mil toneladas de cobre e 175 a 200 mil toneladas de níquel. O fluxo de caixa livre da VBM é estimado entre US$ 400 milhões e US$ 1,9 bilhão no ano, dependendo das cotações internacionais de cobre (US$ 11.600 a US$ 13.200/ton), níquel (US$ 15.000 a US$ 18.100/ton) e ouro (US$ 4.300 a US$ 5.500/onça).
A cereja do bolo: a divisão de metais básicos está se preparando pra um possível IPO ainda no primeiro semestre de 2026, antecipando o cronograma original que apontava pra 2027. A Vale detém cerca de 90% da VBM, com a Manara Minerals (braço do fundo soberano saudita PIF) como sócia minoritária. Uma abertura de capital desbloquearia valor significativo pros acionistas da Vale.
Um dos argumentos centrais do Santander é o desconto no valuation da Vale. A mineradora negocia a 3,8 vezes o EV/EBITDA estimado pra 2026, o que representa um desconto de 15% em relação ao consenso de mercado e de 24% comparado à média dos pares globais como Rio Tinto, BHP e Anglo American.
Em termos de preço da ação, VALE3 opera ao redor de R$ 83,55 (cotação de início de abril), acumulando alta expressiva desde os R$ 72,38 no começo do ano. Mesmo com essa valorização, o Santander enxerga espaço adicional de upside.
O Bank of America, que também tem visão construtiva pra Vale, estima um lucro por ação de US$ 1,73 em 2026, mais que o triplo do registrado em 2025. Isso reforça a tese de que os resultados operacionais da mineradora estão em franca recuperação, mesmo com o ruído contábil do 4T25.
Pro investidor de renda passiva, os números chamam atenção. Os US$ 4,1 bilhões em dividendos mínimos projetados pelo Santander pra 2026 representam um yield de 7,5% sobre os preços atuais. E o banco ainda vê espaço pra US$ 578 milhões em dividendos extraordinários, o que adicionaria cerca de 1,1 ponto percentual ao retorno total.
O BTG Pactual também reforçou recentemente a expectativa de dividendos extraordinários "batendo à porta" do investidor, sustentados pela forte geração de caixa e pela desalavancagem da companhia. A relação dívida líquida/EBITDA da Vale segue em patamares confortáveis, o que abre margem pra distribuições mais generosas.
Vale lembrar que, no ano cheio de 2025, a Vale reportou um EBITDA ajustado de US$ 15,5 bilhões (alta de 4% ano a ano) e lucro de R$ 13,8 bilhões, mesmo absorvendo provisões bilionárias. O fluxo de caixa livre robusto é o que sustenta a tese de dividendos polpudos em 2026.
Quem quer entender melhor a tese de investimento pode conferir o guia como investir em Vale (VALE3): guia completo.
O cenário pra commodities em 2026 continua sendo o fator mais determinante pros resultados da Vale. O minério de ferro, que responde pela maior fatia da receita, opera acima das expectativas de consenso no início do ano. A demanda chinesa, principal compradora global, tem dado sinais mistos, mas os estímulos do governo de Pequim ao setor imobiliário e de infraestrutura ajudam a sustentar os preços.
O Santander trabalha com uma estimativa de preço médio de US$ 105 por tonelada pra 2026, enquanto o mercado spot está significativamente acima disso. Se os preços se mantiverem nos patamares atuais ao longo do trimestre, o EBITDA do 1T26 pode surpreender positivamente as projeções.
Do lado da produção, a Vale mantém o guidance de 335 a 345 milhões de toneladas de minério de ferro em 2026, buscando retomar a liderança global que foi da Rio Tinto nos últimos anos. Em 2025, a produção de 336 milhões de toneladas foi a maior desde 2018, sinalizando que a mineradora está de fato no caminho de entregar o prometido.
Nem tudo são flores, claro. Os principais riscos pra tese incluem uma desaceleração mais forte da economia chinesa, que poderia derrubar os preços do minério abaixo da faixa de US$ 90 por tonelada. Nesse cenário, as margens da Vale seriam comprimidas e os dividendos poderiam ficar abaixo das projeções.
Outro ponto de atenção é a volatilidade cambial. A cotação do real frente ao dólar afeta diretamente o custo de produção da Vale (majoritariamente em reais) e a receita (precificada em dólares). Uma valorização abrupta do real poderia pressionar as margens operacionais.
Há também o risco de execução nos planos de metais básicos. Dobrar a produção de cobre em menos de uma década exige investimentos pesados em projetos como Salobo III e o desenvolvimento de novas minas. Qualquer atraso ou estouro de orçamento pode frustrar as expectativas de mercado. Se você quer entender melhor como se proteger em cenários adversos, vale conferir o artigo sobre COE: o que é e quando vale a pena investir.
Os investidores devem ficar de olho em três catalisadores. Primeiro, a divulgação do relatório de produção e vendas do 1T26, que vai confirmar (ou não) se a Vale manteve o ritmo operacional do segundo semestre de 2025. Segundo, qualquer novidade sobre o IPO da Vale Base Metals, que pode destravar valor significativo caso avance no calendário previsto. E terceiro, a evolução dos preços do minério de ferro e do cobre ao longo do trimestre.
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O consenso entre os analistas é de que a Vale está num momento operacional favorável. A combinação de preços de commodities resilientes, avanço estratégico em metais de transição energética e valuation com desconto torna a ação uma das mais acompanhadas do Ibovespa. O Santander, ao manter a mineradora como top pick com preço-alvo de US$ 15,50, reforça essa visão. Resta ver se o 1T26 vai confirmar a tese de margens robustas que o mercado espera.
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