
A Advanced Corretora de Câmbio, que teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em janeiro de 2026, foi oficialmente declarada "totalmente insolvente" em comunicado enviado aos credores nesta semana. O documento, assinado pelo liquidante nomeado pelo BC, confirma o que o mercado já suspeitava: a empresa não tem ativos suficientes pra cobrir sequer uma fração das dívidas.
O caso ganha contornos ainda mais graves quando se olha o volume de operações. Em 2025, a Advanced movimentou R$ 3,573 bilhões em câmbio, ocupando a 56a posição no ranking de operações cambiais do Banco Central. A pergunta que fica: pra onde foi todo esse dinheiro?
Os números do balanço da Advanced já contavam a história antes da liquidação. No terceiro trimestre de 2025, o patrimônio de referência da corretora estava em R$ 17,335 milhões negativos. O índice de Basileia, que mede a capacidade de uma instituição financeira de absorver perdas, marcava -9,80%.
Pra quem não é do jargão financeiro: o índice de Basileia mínimo exigido pelo BC é de 8%. Qualquer coisa abaixo disso já acende alerta. Negativo significa que a empresa devia mais do que tinha, sem margem nenhuma pra honrar compromissos.
Com a declaração de insolvência total, os credores habilitados entram agora numa fila que, na prática, pode não levar a lugar nenhum. A experiência de outras liquidações extrajudiciais no Brasil mostra que o percentual de recuperação de créditos costuma ser mínimo, quando existe.
O Banco Central nomeou a APS Serviços Especializados, liderada por Antonio Pereira de Souza, como liquidante da Advanced. Não é qualquer nome. Pereira de Souza é o mesmo profissional que coordenou a liquidação do Banco Bamerindus, um dos maiores colapsos bancários da história do Brasil.
A escolha de um liquidante com esse currículo já sinalizava a complexidade do caso. O comunicado enviado aos credores confirma: a Advanced está totalmente insolvente, o que significa que mesmo com a venda de todos os ativos remanescentes, não há perspectiva de pagamento integral.
Com a decretação da liquidação, os bens dos controladores e ex-administradores foram tornados indisponíveis. Essa é uma medida legal pra preservar o patrimônio e tentar ressarcir, ao menos parcialmente, quem ficou no prejuízo.
A Advanced não quebrou sozinha. A corretora foi liquidada no mesmo dia que a CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, antiga Reag Investimentos. As duas fazem parte de uma onda de oito instituições financeiras liquidadas pelo Banco Central desde o fim de 2025, várias delas com conexões ao Banco Master.
A Reag, especificamente, era alvo da Operação Carbono Zero da Polícia Federal desde agosto de 2023. A investigação apurou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro envolvendo crime organizado por meio de postos de gasolina. A CBSF também foi alvo da Operação Compliance Zero, que executou 42 mandados de busca e apreensão por suspeita de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira e manipulação de mercado.
Esse contexto reforça uma preocupação crescente no mercado: a escolha da corretora onde você opera não é detalhe. É decisão de risco.
O Banco Central havia reportado ao Ministério Público Federal a existência de "transações atípicas e rápidas" envolvendo recursos da Advanced. Parte dessas operações teria sido financiada por um empréstimo do Banco Master, que já vinha sob escrutínio regulatório por suas relações com diversas instituições menores.
A cronologia é reveladora. Entre o momento em que o BC identificou as irregularidades e a decretação da liquidação, a Advanced continuou operando normalmente no mercado de câmbio, movimentando bilhões. Isso levanta questões sobre o tempo de resposta regulatório e a eficácia da supervisão preventiva.
Pra quem opera no mercado de câmbio, vale entender como funciona a taxa de câmbio e os riscos de contraparte envolvidos nesse tipo de operação.
No pregão desta quinta-feira (3), o Ibovespa opera na faixa dos 131 mil pontos, enquanto o dólar ronda os R$ 5,65. O caso Advanced, isoladamente, não tem peso pra mover o índice, mas a onda de liquidações tem gerado um efeito colateral importante: investidores estão reavaliando o risco de contraparte em instituições menores.
Na comunidade da Traders, traders estão debatendo os desdobramentos do caso e o impacto na confiança do sistema financeiro. O consenso entre quem acompanha de perto é que a ação do BC, embora tardia em alguns casos, está limpando o terreno de instituições que representavam risco sistêmico.
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) não cobre operações de câmbio. Diferente de depósitos bancários, que têm proteção de até R$ 250 mil por CPF por instituição, quem tinha operações pendentes na Advanced depende exclusivamente do processo de liquidação pra tentar recuperar algo.
Credores que tinham operações ou valores na Advanced precisam habilitar seus créditos junto ao liquidante dentro dos prazos legais. O processo de liquidação extrajudicial é regulado pelo Banco Central e segue ritos específicos. A recomendação é buscar orientação jurídica especializada, já que a declaração de insolvência total reduz significativamente as expectativas de recuperação.
A ordem de prioridade de pagamento em liquidações extrajudiciais coloca créditos trabalhistas primeiro, seguidos por tributos e, por último, credores quirografários (sem garantia). Na prática, quando a insolvência é total, as últimas categorias raramente recebem.
Desde o segundo semestre de 2025, o BC vem adotando uma postura mais agressiva na fiscalização de instituições menores. As oito liquidações decretadas incluem corretoras de câmbio, distribuidoras e financeiras, a maioria com alguma conexão direta ou indireta ao Banco Master.
O mercado interpreta essa movimentação de duas formas. Por um lado, há quem veja como um saneamento necessário, que fortalece a credibilidade do sistema no médio prazo. Por outro, a velocidade e o número de intervenções geram preocupação sobre quantas instituições ainda podem estar em situação irregular.
A questão do IOF e câmbio nos investimentos internacionais também entra no radar. Operações de câmbio fora do sistema bancário tradicional, como as realizadas por corretoras menores, carregam riscos adicionais que muitos investidores subestimam.
O colapso da Advanced reforça três pontos que todo investidor deveria ter no radar.
Primeiro: tamanho e regulamentação importam. Antes de escolher onde operar, vale verificar a situação da instituição no site do Banco Central. O índice de Basileia, o patrimônio líquido e o histórico de sanções são informações públicas. Quem quer entender melhor como avaliar, pode conferir nosso guia sobre como escolher a melhor corretora.
Segundo: o FGC não cobre tudo. Operações de câmbio, valores mobiliários em custódia e investimentos em instituições não bancárias têm perfis de proteção diferentes. Saber onde seu dinheiro está e qual a garantia associada é básico.
Terceiro: volume de operação não é sinônimo de solidez. A Advanced movimentou R$ 3,5 bilhões em câmbio no último ano e mesmo assim estava com patrimônio negativo. Faturamento alto com balanço frágil é, na verdade, um sinal de alerta, não de confiança.
O caso ainda está em desenvolvimento. O liquidante deve apresentar nos próximos meses um relatório detalhado sobre a situação patrimonial e as possibilidades de recuperação de créditos. Até lá, os credores da Advanced aguardam, com poucas perspectivas de ver seu dinheiro de volta.
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