
A Ambev (ABEV3) entregou no primeiro trimestre de 2026 o resultado que o mercado estava esperando faz tempo. A dona da Brahma, Skol e Stella Artois reportou lucro líquido de R$ 3,886 bilhões no 1T26, alta de 2,1% sobre o mesmo período de 2025, e receita líquida de R$ 22,46 bilhões, com crescimento orgânico de 8,1%. O destaque, porém, veio de um lugar que andava decepcionando: o volume de cerveja no Brasil voltou a crescer.
O resultado foi divulgado na noite de segunda-feira (4/05) e a reação na bolsa foi imediata. Na terça-feira (5/05), a ABEV3 chegou a saltar 15,30% na máxima do dia, fechando como a maior alta do Ibovespa e registrando a segunda maior valorização diária da história da Ambev, atrás apenas de um movimento de 2004. O papel encerrou o pregão liderando o índice e arrastando consigo o setor de consumo.
Vamos por partes. O lucro líquido de R$ 3,886 bilhões ficou 2,1% acima do reportado no 1T25, e o lucro líquido ajustado avançou 0,3% na mesma base de comparação. Não foi um salto estratosférico, mas foi acima do que analistas esperavam para um trimestre que começou com tom pessimista por conta do consumo fraco no Brasil.
A receita líquida somou R$ 22,46 bilhões, praticamente estável no critério reportado, mas com avanço orgânico de 8,1%. Esse é o número que o mercado olha pra entender se a empresa está crescendo de verdade, sem efeitos de câmbio, aquisições ou venda de ativos. E aqui o sinal foi positivo.
O EBITDA ajustado chegou a R$ 7,56 bilhões, alta de 1,5% na comparação anual, com a margem subindo de 33,1% para 33,6%, ganho de 0,5 ponto percentual. Quem acompanha a empresa sabe que ganho de margem com volume crescendo é uma combinação rara nos últimos trimestres da Ambev. Não tinha como o mercado reagir morno.
O grande motor do balanço foi o segmento Cerveja Brasil. O volume cresceu 1,2% na comparação anual, dado que destoa completamente das projeções iniciais dos analistas, que esperavam queda. Pra dar dimensão: a Ambev superou tanto a Heineken quanto o crescimento da indústria como um todo no trimestre.
A receita por hectolitro avançou 8,3%, refletindo uma combinação de melhora no mix de produtos e reajustes de preço que não derrubaram a participação de mercado. Na prática, a empresa conseguiu cobrar mais sem perder cliente, algo que parecia impossível no cenário de consumo apertado.
Outro dado que chamou atenção foi o crescimento dos segmentos premium e super premium, que avançaram cerca de 20% no trimestre. Esse pedaço do portfólio paga margem maior e indica que o consumidor brasileiro, mesmo com o bolso pressionado, está topando trocar uma cerveja básica por uma mais cara em ocasiões específicas. As categorias core e value tiveram queda de um dígito baixo, parcialmente compensando o ganho premium.
A reação foi de explosão. Saber por que uma ação ordinária (ON) como a ABEV3 dispara desse jeito ajuda a entender o que estava precificado. O consenso entrava no balanço cético, com expectativa de mais um trimestre fraco no Brasil. Quando o resultado veio melhor que o esperado, principalmente em volume e margem, o curto vendido (operações de venda a descoberto) começou a recomprar e empurrou o papel pra cima.
Casas como BTG Pactual, XP, Bradesco BBI e Itaú BBA destacaram o desempenho operacional como "a melhor entrega da Ambev em vários trimestres". A maior parte dos analistas elevou as estimativas de lucro para 2026 e reforçou a tese de que a empresa está mais bem posicionada pra capturar o ciclo de consumo de bebidas que historicamente acelera no segundo semestre, ainda mais com a Copa do Mundo se aproximando em 2026.
Quem operou o ativo no dia também sentiu na pele a dinâmica de gap de abertura. A ABEV3 abriu o pregão com salto de cerca de 8% e seguiu subindo ao longo do dia, fechando perto da máxima. Esse tipo de movimento, em que o preço abre num patamar muito acima do fechamento anterior, é típico de balanços que mudam a narrativa do papel. Vale a pena entender como funciona o gap (Bolsa): o que é e como funciona antes de operar nesses dias.
Junto com o balanço, a Ambev anunciou juros sobre capital próprio (JCP) de R$ 700 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 0,044 por ação. O pagamento entra no bolso de quem tiver o papel na carteira na data-base que será divulgada nos próximos dias. Não é o maior provento da história da empresa, mas é mais um sinal de que a geração de caixa segue robusta e que a companhia continua privilegiando o retorno ao acionista.
Pra quem ainda não acompanha de perto, vale revisar o passo a passo de como investir em Ambev (ABEV3): guia completo, com os pontos de atenção da tese de longo prazo e as comparações com outros pesos pesados do setor de bebidas no mundo.
Olhando na base sequencial, o EBITDA do 1T26 manteve a tendência de recuperação que a Ambev vinha sinalizando desde o 4T25. O quarto trimestre tradicionalmente é o mais forte (envolve festas de fim de ano e verão), então a comparação direta de margem QoQ tem que ser olhada com cuidado, mas a leitura geral é positiva: a empresa está entregando ganho de eficiência mesmo num ambiente macro complicado.
O setor de bebidas no Brasil convive com pressão de custos importantes (alumínio, malte, energia) e com o consumidor cauteloso desde a pandemia. A capacidade da Ambev de defender margem nesse cenário é um diferencial competitivo que custa caro pra concorrência replicar. A Heineken, principal rival no Brasil, ainda não divulgou números regionais detalhados pra confirmar se perdeu participação de mercado, mas a leitura inicial dos dados Nielsen aponta nessa direção.
Vale notar que a Ambev é controlada pela AB InBev, gigante belgo-brasileira listada em Bruxelas e Nova York. Os resultados consolidados da matriz, a serem divulgados nos próximos dias, vão dar o quadro completo da operação global. Se o desempenho do Brasil se traduzir em melhora consolidada, pode haver um efeito de revisão positiva também nos papéis da AB InBev lá fora.
Os próximos catalisadores estão claros. Primeiro, o desempenho do segundo trimestre, que historicamente sente o frio do inverno no Sul/Sudeste e tende a ser mais fraco em volume. Se a Ambev conseguir manter a tração de receita por hectolitro nesse trimestre tradicionalmente difícil, a tese de virada operacional fica ainda mais sólida.
Segundo, a Copa do Mundo de 2026, que começa em junho. Eventos esportivos globais costumam puxar o consumo de cerveja, ainda mais com Brasil envolvido. A Ambev tem patrocínios e ativações relevantes pra essa janela, e o mercado já começou a precificar parte desse upside.
Terceiro, o cenário macro. Selic em trajetória de queda gradual, inflação de alimentos e bebidas ainda controlada e mercado de trabalho aquecido formam um pano de fundo razoável para o consumo de massa. Se a economia brasileira não der nenhuma tropeçada relevante no segundo semestre, o ano de 2026 pode terminar bem melhor do que o consenso projetava no início do ano. Pra entender o impacto desse cenário em outros papéis cíclicos, dá pra ler o setor de energia na bolsa: guia completo, que apresenta dinâmicas semelhantes de ciclo econômico e precificação.
Para quem acompanha a ABEV3, o balanço do 1T26 reforça a percepção de que a empresa pode ter encontrado uma fórmula sustentável pra crescer no Brasil sem queimar margem. É cedo pra cravar virada estrutural, ainda mais num único trimestre, mas o conjunto da obra (volume, preço, margem, JCP) pesou favoravelmente. O que não muda é a regra básica do mercado: rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, e o próximo balanço sempre pode trazer surpresa em qualquer direção.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.