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Preço do QAV salta pela metade e ameaça encarecer voos

Publicado em
31/3/2026
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Preço do QAV salta pela metade e ameaça encarecer voos
Preço do QAV salta pela metade e ameaça encarecer voos
Preço do QAV salta pela metade e ameaça encarecer voos

A Petrobras (PETR4) vai aplicar um reajuste de 54,63% no preço do querosene de aviação (QAV) a partir de 1o de abril de 2026. O aumento, confirmado pela distribuidora Vibra Energia, que anunciou o repasse integral, é consequência direta da disparada do petróleo no mercado internacional. O barril de Brent acumula alta de 64% só em março, o maior ganho mensal desde 1988 segundo dados da LSEG, e chegou a bater US$ 118,35 antes de recuar pra casa dos US$ 107.

Pra quem investe em companhias aéreas ou simplesmente planeja viajar nos próximos meses, o recado é claro: o combustível representa entre 30% e 36% dos custos operacionais das aéreas no Brasil. Um aumento dessa magnitude não tem como ser absorvido sem impacto nas tarifas.

Por que o querosene de aviação subiu 55%?

A resposta está no Oriente Médio. O conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã provocou o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo e gás transportado no mundo. Com a rota bloqueada, o mercado entrou em modo de pânico.

O petróleo Brent, referência internacional, saiu de patamares próximos a US$ 70 no início do ano pra ultrapassar US$ 100 em meados de março, chegando a US$ 118,35 no fechamento do dia 30. Esse movimento forçou a Petrobras a rever sua tabela de preços do QAV vendido às distribuidoras.

Vale lembrar que esse não é o primeiro reajuste recente. Em 1o de março, a estatal já tinha elevado o QAV em 9,4%, um aumento de R$ 0,31 por litro, o maior desde setembro de 2023. Agora, com o novo reajuste de 54,63%, o acumulado do mês é brutal. E segundo fontes ouvidas pela CNN Brasil, o modelo de preços da Petrobras chegou a apontar alta de até 80%, o que significa que o reajuste aplicado ficou abaixo do teto calculado internamente.

Qual o impacto nas passagens aéreas?

Direto e inevitável. A Abra Group, controladora da Gol, já sinalizou ao mercado que cada US$ 1 de aumento no galão de querosene exige um repasse de aproximadamente 10% nas tarifas pra manter a operação viável.

Na prática, as companhias aéreas brasileiras, Gol, Azul e LATAM, vão precisar escolher entre três caminhos: repassar o custo pro passageiro, reduzir a oferta de voos ou cortar rotas menos rentáveis. Provavelmente vai ser uma combinação dos três.

A ABEAR (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) já vinha alertando o governo sobre a situação. O setor aéreo brasileiro opera com margens apertadas, e um choque de custos dessa proporção pode comprometer a saúde financeira de companhias que ainda carregam dívidas da pandemia. A Gol, por exemplo, saiu recentemente de um processo de recuperação judicial nos Estados Unidos.

Quem planeja comprar passagens pra o segundo trimestre deve se preparar pra preços mais altos. O período entre abril e junho, que costuma ser de tarifas mais baixas por conta da baixa temporada, pode não seguir esse padrão em 2026.

Governo anuncia pacote de socorro ao setor aéreo

Diante da pressão, o governo federal deve anunciar nesta terça-feira (31) um pacote de medidas emergenciais pra conter o impacto da alta do QAV sobre as companhias aéreas. As propostas foram discutidas entre o Ministério de Portos e Aeroportos, a Casa Civil, o Ministério da Fazenda, o Ministério de Minas e Energia e a própria Petrobras.

Entre as medidas em discussão, a principal é a liberação de uma linha de crédito emergencial com recursos do Fnac (Fundo Nacional de Aviação Civil). A ideia é permitir que as aéreas financiem a compra de combustível em condições mais favoráveis, aliviando a pressão de curto prazo sobre o caixa.

Outras medidas em análise incluem:

Redução temporária de PIS/Cofins sobre o querosene de aviação, o que diminuiria o preço final pago pelas companhias. Corte no IOF sobre operações financeiras das aéreas, que operam fortemente com hedge cambial e derivativos. Redução do Imposto de Renda incidente sobre o leasing de aeronaves, um dos maiores custos fixos do setor. E uso do FGE (Fundo de Garantia à Exportação) como garantia pra operações de financiamento de combustível.

É um pacote robusto no papel, mas a efetividade vai depender da velocidade de implementação e, principalmente, de quanto tempo o petróleo vai permanecer acima de US$ 100.

O que o Brent a US$ 100+ significa pra PETR4?

Pra quem é acionista da Petrobras, o cenário tem dois lados. De um lado, petróleo mais caro significa mais receita. A estatal é uma exportadora líquida de petróleo, e o Brent elevado tende a beneficiar diretamente o resultado operacional. Os dividendos, que já são generosos, podem ficar ainda mais atrativos se o preço do barril se mantiver nesse patamar.

Do outro lado, existe o risco político. A pressão pra segurar preços de combustíveis no mercado interno, historicamente forte no Brasil, pode voltar a assombrar. O governo já está mediando a situação com as aéreas, e a depender da evolução do conflito, a discussão pode se estender pra gasolina e diesel, como aconteceu em ciclos anteriores.

Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Parte vê a valorização do petróleo como oportunidade pra quem está posicionado em PETR4 e em papéis que compõem o Ibovespa com exposição a commodities. Outra parte aponta que o choque inflacionário do petróleo pode forçar o Banco Central a manter a Selic elevada por mais tempo, o que prejudica a bolsa como um todo.

Contexto global: a guerra e o Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz é um gargalo estreito entre o Irã e Omã, com apenas 33 km de largura na parte mais apertada. Por ali passam diariamente cerca de 21 milhões de barris de petróleo, algo como 20% do consumo global. Quando o Irã anunciou o fechamento parcial da rota em resposta aos ataques americanos e israelenses, o mercado precificou imediatamente o risco de desabastecimento.

A Arábia Saudita já começou a redirecionar parte das exportações por rotas alternativas, mas o custo logístico é muito maior. O resultado: o Brent subiu 64% em março, a maior valorização mensal em quase quatro décadas.

A grande dúvida agora é se o conflito vai escalar ou se haverá algum tipo de acordo diplomático. Se a tensão persistir, analistas projetam que o barril pode testar os US$ 140, nível que não é visto desde 2008. Nesse cenário, novos reajustes no QAV seriam praticamente inevitáveis.

O que esperar nos próximos meses

O reajuste de 55% no QAV é, por enquanto, o maior impacto direto da crise do petróleo no bolso do brasileiro. As passagens aéreas devem começar a refletir o aumento entre abril e maio, à medida que as companhias renovam seus estoques de combustível ao novo preço.

O pacote do governo pode suavizar a pancada, mas não resolve o problema estrutural: enquanto o petróleo estiver acima de US$ 100, o QAV vai continuar pressionado. E diferente de outros combustíveis, o querosene de aviação não tem substituto viável no curto prazo.

Pra investidores, vale ficar atento ao desdobramento em três frentes: a evolução do conflito no Oriente Médio, os próximos movimentos da Petrobras na política de preços e o impacto nos balanços das companhias listadas na B3 com exposição ao setor aéreo e ao petróleo. O segundo trimestre promete volatilidade, e quem não estiver acompanhando de perto pode ser pego de surpresa.


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