
A Ambev (ABEV3) divulgou nesta terça-feira (5) o balanço do primeiro trimestre de 2026 e mostrou que, mesmo num cenário de consumo apertado no Brasil, a maior cervejaria das Américas conseguiu virar o jogo no operacional. O lucro líquido chegou a R$ 3,886 bilhões, alta de 2,1% sobre o mesmo trimestre de 2025. E o conselho ainda aprovou o pagamento de R$ 700 milhões em Juros sobre Capital Próprio (JCP), divididos em duas parcelas para os acionistas.
O resultado superou parte das projeções do mercado, principalmente no EBITDA, que foi o grande destaque do trimestre. O número-cheio veio de uma combinação clássica da Ambev nos últimos trimestres: volume de cerveja crescendo no Brasil, mix premium ganhando peso e disciplina dura nos custos. A receita reportada ficou praticamente estável, mas em base orgânica (que ajusta efeitos cambiais e de hiperinflação na Argentina) a história muda bastante de cor.
Vamos aos dados do trimestre. A receita líquida somou R$ 22,5 bilhões, uma queda marginal de 0,1% na comparação reportada com o 1T25. Em base orgânica, porém, a linha de cima cresceu 8,1%, mostrando que, descontados os efeitos contábeis fora do operacional, a empresa segue expandindo.
O EBITDA ajustado ficou em R$ 7,555 bilhões, com avanço de 1,5% reportado e impressionantes 10% em base orgânica sobre o 1T25. A margem EBITDA chegou a 33,6%, expansão de 0,5 ponto percentual ano a ono. É o tipo de número que mostra que a empresa está conseguindo defender rentabilidade mesmo num ambiente onde o consumidor brasileiro está olhando o preço de cada produto na gôndola.
O lucro bruto foi de R$ 11,58 bilhões, alta de 0,3% YoY. Já o lucro líquido ajustado ficou em R$ 3,8 bilhões, um avanço modesto de 0,3% sobre o 1T25, sinalizando que a maior parte do crescimento do lucro contábil veio de itens não recorrentes e da linha de impostos, não da operação pura.
Aqui mora o ponto mais interessante do balanço. O volume consolidado da Ambev cresceu 0,1% organicamente, para 44,97 milhões de hectolitros no 1T26. Pode parecer pouco, mas a quebra por região conta uma história mais animadora.
No Brasil, vertical principal da empresa, o volume de Cerveja Brasil avançou 1,2% ano a ano, batendo um recorde para um primeiro trimestre. A liderança veio das marcas premium e super premium, que ajudaram a melhorar o mix e sustentar o preço médio. Brahma Duplo Malte, Spaten, Corona e Stella Artois seguiram como motores do segmento de maior valor agregado.
Já no América Latina Sul (LAS), que inclui Argentina, Chile, Bolívia e Paraguai, o volume cresceu 1,1% organicamente. A América Central e Caribe (CAC) e o Canadá tiveram performance mais fraca, refletindo movimentação de calendário e base comparativa elevada.
Quem acompanha a tese da Ambev sabe que o jogo aqui é simples de descrever, mas difícil de executar: vender mais litros de marca premium, segurar custo unitário e manter margem. No 1T26, a companhia entregou exatamente isso. Tanto que o EBITDA cresceu mais do que o volume, sinal de que cada hectolitro vendido rendeu mais.
O conselho de administração da Ambev aprovou a distribuição de R$ 700 milhões em JCP, em duas parcelas com janelas distintas.
A primeira parcela é referente ao exercício de 2025 e tem valor bruto de R$ 0,0755 por ação (R$ 0,0642 líquidos, já descontado o IR de 15% retido na fonte). O pagamento está previsto para 6 de julho de 2026.
A segunda parcela, vinculada ao próprio 1T26, é de R$ 0,0449 brutos por ação (R$ 0,0370 líquidos). As ações e ADRs passam a ser negociados ex-JCP a partir de 23 de junho de 2026, com base na posição acionária de 22 de junho. O pagamento na B3 ocorre até 31 de dezembro de 2026.
Pra quem está pensando em entrar na ação só pra pegar o provento, vale lembrar que JCP funciona um pouco diferente de dividendos comuns. Tem retenção de 15% de imposto na fonte, mas é dedutível pra empresa, o que costuma ser mais eficiente fiscalmente. Se você quer entender a fundo a mecânica, dá uma olhada em Juros Sobre Capital Próprio (JCP): o que é e como funciona.
Do lado positivo, o trimestre teve três pernas claras: volume premium em alta no Brasil, disciplina de preço e ganho de eficiência operacional. A companhia também se beneficiou de uma base comparativa não tão dura no 1T25, que tinha sido afetado por câmbio adverso e efeito Argentina.
Do lado negativo, dois pontos chamaram atenção. O primeiro foi a despesa financeira líquida maior, que comeu parte do avanço operacional na linha do lucro ajustado. O segundo foi a pressão de custos com matérias-primas, principalmente alumínio e açúcar, que continuaram em patamar elevado no início do ano.
O consumo no Brasil ainda preocupa a indústria de bens de consumo como um todo, com a renda real apertada e o cenário de juros altos pesando no bolso da classe C e D. Apesar disso, o pré-mix de cerveja segurou bem, ajudado por temperatura mais alta no Sudeste e calendário de Carnaval favorável.
O resultado foi visto como positivo pelas casas de análise, sobretudo pelo número operacional. A XP Investimentos classificou como "beat" no Brasil, com EPS acima do esperado e considerou catalisador positivo de curto prazo. O BTG Pactual também ressaltou o avanço da margem EBITDA e a manutenção da disciplina de preços.
O ticker ABEV3 entra no balanço com valuation considerado descontado por boa parte do sell side, com múltiplos de P/L (Preço/Lucro) abaixo da média histórica da própria empresa. Pra quem quer acompanhar a tese de longo prazo, vale ler Como investir em Ambev (ABEV3): guia completo.
O Lucro por Ação (LPA) ficou em torno de R$ 0,25 no trimestre, com a empresa mantendo recompras pontuais como parte da política de retorno ao acionista. A Ambev integra o segmento mais alto de governança da bolsa brasileira; entender as regras desse segmento ajuda no skill de leitura de balanço (Novo Mercado (B3): o que é e como funciona).
A Ambev não dá guidance numérico, mas a companhia sinalizou na teleconferência que segue confiante na continuidade do crescimento de volume premium e na expansão de margem. O segundo trimestre tradicionalmente é mais fraco no consumo de cerveja por causa do inverno, mas o calendário esportivo (com a aproximação da Copa do Mundo de 2026) deve dar tração extra.
Os principais catalisadores no horizonte são:
1. Copa do Mundo de 2026: Brahma é patrocinadora oficial da seleção brasileira, e o evento esportivo deve impulsionar o volume entre o 2T e o 3T26.
2. Eficiência tributária com a reforma: A reforma tributária avança em 2026 e pode trazer ganhos para a estrutura de impostos da companhia, que historicamente é uma das maiores pagadoras do país.
3. Expansão de não-cervejas: A Ambev tem investido em RTDs (ready-to-drink) e bebidas não alcoólicas, segmentos que ainda têm baixa participação na receita mas crescem em ritmo de dois dígitos.
O setor de bebidas no Brasil viveu uma reorganização nos últimos dois anos. A concorrência com a Heineken se intensificou, especialmente no segmento premium, e Ambev respondeu com agressividade comercial, lançamentos e reforço da distribuição direta via Zé Delivery e BEES. Os números da Heineken divulgados antes do balanço da Ambev já tinham antecipado um trimestre relativamente desafiador para volume, mas também sinalizado resiliência no premium.
A indústria como um todo conviveu com pressão sobre margem por conta dos custos de embalagem (alumínio em alta) e logística. As cervejarias artesanais, que cresceram forte entre 2018 e 2023, perderam espaço nos últimos trimestres, beneficiando os grandes players com escala.
No mercado externo, a empresa-mãe AB InBev (NYSE: BUD) também reportou números mistos no trimestre, com a operação latino-americana aparecendo como um dos pontos de força globais. A leitura é que, para o portfólio da Ambev, o pior do ciclo de pressão sobre rentabilidade pode ter ficado para trás, com 2026 servindo de transição rumo a um 2027 mais robusto.
O 1T26 da Ambev mostra que a tese segue funcionando: volume premium em alta no Brasil, margem em expansão, geração de caixa firme e remuneração consistente ao acionista via JCP. Nada espetacular na linha do lucro contábil, mas no operacional o trimestre foi sólido e respondeu bem ao ceticismo de parte do mercado sobre a capacidade da companhia de crescer num ambiente de consumo apertado. Os próximos trimestres terão a Copa como catalisador e a reforma tributária como variável macro a monitorar.
Sources: - [Ambev (ABEV3) lucra R$ 3,886 bi no 1º trimestre, alta anual de 2,1% — InfoMoney](https://www.infomoney.com.br/mercados/ambev-abev3-resultados-primeiro-trimestre-2026/) - [Ambev (ABEV3) lucra R$ 3,886 bi no 1T26 e anuncia R$ 700 milhões em JCP — Investidor10](https://investidor10.com.br/noticias/ambev-abev3-lucra-r-3-886-bi-no-1t26-e-anuncia-r-700-milhoes-em-jcp-120178/) - [Ambev lucra R$ 3,886 bi no 1T26, alta de 2,1% — SpaceMoney](https://www.spacemoney.com.br/investimentos/acoes/ambev-abev3-lucro-3886-bilhoes-primeiro-trimestre-2026/) - [Lucro líquido ajustado da Ambev soma R$ 3,8 bilhões no 1T — Diário do Grande ABC](https://www.dgabc.com.br/Noticia/4317615/lucro-liquido-ajustado-da-ambev-soma-rs-3-8-bilhoes-no-1-trimestre-alta-anual-de-0-3-) - [AmBev (ABEV3) | BZ Beat e EPS acima do esperado — XP Investimentos](https://conteudos.xpi.com.br/acoes/relatorios/ambev-abev3-bz-beat-e-eps-acima-do-esperado-catalisador-positivo/)Aviso Legal
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