
A temporada de balanços do 1T26 dos grandes bancos brasileiros começa em poucos dias e a pergunta que está dominando as mesas de análise é uma só: o Itaú (ITUB4) mantém o domínio absoluto da rentabilidade ou o Bradesco (BBDC4) finalmente encosta depois de dois anos de reestruturação? O consenso de mercado aponta que o Itaú deve entregar lucro líquido recorrente próximo de R$ 11 bilhões, enquanto o Bradesco trabalha para confirmar a virada com algo entre R$ 5,3 bi e R$ 5,7 bi.
Os dois bancos divulgam os resultados na primeira quinzena de maio. O Itaú abre a temporada e tende a marcar o tom, como sempre. O Bradesco vem na sequência e carrega o peso de provar que o plano apresentado pelo CEO Marcelo Noronha está dando frutos no ritmo prometido.
O Itaú entra no trimestre com a régua bem alta. No 4T25, o banco reportou lucro líquido recorrente de cerca de R$ 11,1 bilhões, com ROE (retorno sobre patrimônio) próximo de 22,5%. Para o 1T26, as projeções de casas como BTG, XP e Itaú BBA convergem para um lucro entre R$ 10,8 bi e R$ 11,2 bi, alta de aproximadamente 13% a 15% YoY e estabilidade ou leve queda em base sequencial (QoQ), efeito típico do primeiro tri por causa da sazonalidade da carteira.
Três pontos vão estar no radar. Primeiro, a margem financeira com clientes, que vem crescendo acima de dois dígitos por causa do mix mais rentável da carteira (mais PJ, mais crédito imobiliário, menos exposição a grandes empresas com spread apertado). Segundo, a inadimplência, que deve continuar comportada na faixa de 2,2% a 2,4%, abaixo do pico de 2023. Terceiro, as provisões para devedores duvidosos (PDD), que vêm caindo trimestre a trimestre e ajudam a sustentar o resultado.
O guidance que o Itaú divulgou no início do ano projeta crescimento de carteira de crédito entre 4,5% e 8,5% e expansão da margem com clientes de 7,5% a 10,5%. Se o banco entregar a ponta de cima desses ranges, o lucro de R$ 11 bi vira piso, não teto. Quem quer entender melhor o case da ação pode começar pelo nosso guia completo de como investir em Itaú (ITUB4).
Nem tudo é vento a favor. O risco regulatório ronda o setor, com discussões sobre limites de juros do rotativo, spread bancário e tributação extra dos grandes bancos voltando à pauta no Congresso. Além disso, o ambiente de Selic em patamar elevado (acima de 13% segundo o último Copom) ajuda no curto prazo, mas pressiona a inadimplência da pessoa física se demorar pra cair.
O Bradesco vive um momento bem diferente. Depois de quase dois anos de reestruturação intensa, fechamento de agências, corte de despesas e troca da liderança, o mercado quer ver no 1T26 a comprovação de que a virada é estrutural e não conjuntural. O consenso aponta lucro líquido entre R$ 5,3 bi e R$ 5,7 bi, alta de cerca de 16% a 20% YoY, com ROE saindo da casa dos 12% para algo perto de 14% a 14,5%.
Pode parecer pouco perto dos 22% do Itaú, mas é uma evolução enorme considerando que o ROE do Bradesco chegou a ficar abaixo de 11% no auge da crise de 2023. O caminho ainda é longo. Marcelo Noronha apresentou no Bradesco Day de 2024 a meta de levar o ROE para algo entre 16% e 18% até 2027. O 1T26 precisa mostrar que essa trajetória é viável.
Os destaques que o mercado vai ler com lupa são quatro. A carteira de crédito expandida, que precisa crescer pelo menos 6% YoY pra confirmar o guidance. A margem financeira, que vinha pressionada pelo mix de baixa qualidade herdado e agora deve mostrar recuperação. As despesas operacionais, que precisam continuar em queda (o banco fechou centenas de agências e demitiu milhares de funcionários nos últimos 18 meses). E a inadimplência, que precisa cair da casa de 4% para algo abaixo de 3,7%.
BBDC4 acumula desempenho fraco nos últimos 24 meses, negociando com desconto significativo em relação a ITUB4 quando se olha múltiplos como P/VP e P/L. Pra fechar esse desconto, o mercado precisa ver: ROE acima de 14% no 1T26, queda de PDD em base sequencial, despesas operacionais flat ou em queda YoY e melhora na originação de crédito de melhor qualidade (consignado, imobiliário, PME premium).
Se entregar tudo isso, a tese de "Bradesco descontado" ganha tração. Se decepcionar em algum ponto, o desconto persiste. Antes de tomar qualquer decisão, vale revisar nosso material sobre como analisar balanços de empresas e investir melhor.
O Itaú entra no 1T26 com a máquina rodando azeitada. O Bradesco entra ainda em meio à reestruturação, mas mostrando sinais mais claros de virada. A diferença de ROE explica praticamente todo o gap de valuation entre as duas ações: enquanto ITUB4 negocia perto de 1,8x o valor patrimonial, BBDC4 ronda 1,1x a 1,2x.
Vale lembrar que os bancos não competem só entre si. Banco do Brasil (BBAS3), Santander (SANB11) e os bancos digitais como Nubank também divulgam resultados nesta janela. O Banco do Brasil tem entregue ROE acima de 21%, rivalizando com o Itaú em rentabilidade pura, mas com risco político maior. O Santander vem se recuperando depois de uma crise de inadimplência em 2023. E o Nubank cresce em ritmo acelerado, embora ainda em base muito menor.
O ciclo de juros altos ainda favorece os bancos no curto prazo, especialmente na ponta de captação (depósitos a prazo, LCI, LCA). Por outro lado, a expectativa do mercado é de que o Banco Central comece um ciclo de corte da Selic ainda em 2026, possivelmente a partir do segundo semestre. Isso significa que os números do 1T26 podem ser dos últimos com margens financeiras tão gordas. Os investidores já estão olhando pra frente, tentando entender quanto da rentabilidade atual é estrutural e quanto é puramente cíclico.
Outro ponto que merece atenção é a concentração bancária. Os cinco maiores bancos do país concentram cerca de 80% do crédito do sistema. Esse domínio gera economia de escala enorme, mas também atrai escrutínio regulatório. Qualquer mudança nas regras de IOF, depósito compulsório ou tributação pode mexer no resultado de todos eles ao mesmo tempo.
As ações dos bancões costumam ter reação rápida ao balanço. Histórico recente mostra que ITUB4 tende a se valorizar 1% a 3% nos dias seguintes a um resultado dentro ou acima do esperado, enquanto BBDC4 tem volatilidade maior, com movimentos de até 5% para cima ou para baixo dependendo de como vier o ROE. Quem opera essas ações no swing trade ou no day trade precisa ficar atento ao calendário exato de divulgação e à coletiva de imprensa que acontece logo na manhã seguinte.
Vale o aviso: ler balanço de banco não é trivial. As demonstrações financeiras de instituições financeiras seguem regras próprias do Banco Central, com termos como spread bancário, crédito ampliado, índice de Basileia e inadimplência E-H que não aparecem em outras empresas. Se você está começando, vale dar uma estudada antes de tomar decisão baseada apenas no headline do lucro.
A resposta curta: o Itaú continua dominando a rentabilidade no 1T26. A resposta longa: o Bradesco diminui a distância e oferece, pra quem aceita o risco da execução, um upside maior caso a virada se confirme. Quem busca previsibilidade e qualidade ainda paga prêmio em ITUB4. Quem aposta na recuperação e aceita volatilidade encontra em BBDC4 uma tese mais agressiva.
O que importa, no fim, é entender o que cada banco está entregando e o que está sendo precificado pelo mercado hoje. Resultado bom em ação que já subiu muito pode gerar correção. Resultado morno em ação descontada pode gerar disparada. Por isso a leitura tem que ser sempre combinada: balanço mais valuation mais expectativa. Quem leva a sério essa análise costuma se dar melhor que quem só olha o headline do lucro líquido. Pra finalizar a análise, vale comparar também as estruturas operacionais: confira nosso conteúdo sobre corretora grande vs corretora pequena: qual escolher e como isso impacta o setor financeiro como um todo.
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