
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que o fundo Gold Style, alvo da Operação Carbono Oculto, transferiu R$ 180 milhões entre 2020 e 2025 para a Super Empreendimentos. A empresa é apontada pela Polícia Federal como peça central no esquema de financiamento de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, que cometeu suicídio em 4 de março de 2026 enquanto estava sob custódia policial em Belo Horizonte.
O caso é mais um capítulo da investigação que apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro brasileiro. Segundo as autoridades, o esquema movimentou nada menos que R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, usando uma rede sofisticada de postos de combustíveis e fundos de investimento pra ocultar a origem ilícita dos recursos. O epicentro das operações ficava na Avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo.
O documento do Coaf descreve que o Gold Style realizou operações com o objetivo de "ocultar beneficiários e partes envolvidas no mercado de valores mobiliários, utilizando de desdobramentos complexos". Na prática, o fundo funcionava como uma camada a mais pra dificultar o rastreamento do dinheiro.
O Gold Style é apontado pela Justiça de São Paulo como um dos instrumentos financeiros no esquema de fraude atribuído a Mohamad Hussein Mourad, investigado por fraudes fiscais e suspeito de ligações com o PCC. A partir do fundo, os valores eram canalizados pra Super Empreendimentos e, dali, seguiam pra empresas de fachada controladas por Sicário.
Quem entende de fundos de ações e como funcionam sabe que a estrutura de fundos no Brasil tem várias camadas de governança. Esse caso mostra como a sofisticação financeira pode ser usada pra fins ilícitos quando os controles falham.
Sicário era o operador de campo. Segundo a PF, ele recebeu R$ 24 milhões de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro do Banco Master, pra executar serviços ilícitos. Entre eles, montar uma estrutura pra monitorar e coagir autoridades, jornalistas e adversários comerciais do banqueiro.
A Super Empreendimentos, que recebeu os R$ 180 milhões do Gold Style, teve como diretor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, entre 2021 e 2024. A empresa também é identificada como proprietária de uma mansão em Brasília adquirida por R$ 36 milhões, usada frequentemente pra reuniões entre o ex-banqueiro e autoridades.
Os valores saíam da Super Empreendimentos e iam pra empresas de fachada controladas por Sicário, como a King Participações Imobiliárias Ltda., com o objetivo de esconder a origem e o destino do dinheiro.
O ministro André Mendonça, do STF, afirmou em decisão judicial que a Super Empreendimentos funcionou como a principal fonte de recursos de um grupo criado pra vigiar e intimidar quem se colocasse no caminho de Vorcaro. Esse grupo ficou conhecido como "A Turma".
A Turma operava via canais de comunicação organizados pelo próprio Vorcaro e incluía pagamentos a integrantes da estrutura de Sicário. O nome apareceu no centro da decisão de prisão do ex-banqueiro e virou um dos focos da CPI do Crime Organizado no Senado.
No dia 11 de março de 2026, a CPI do Crime Organizado do Senado aprovou mais de 20 requerimentos mirando especificamente o núcleo financeiro do PCC na Faria Lima. A comissão quer entender como o crime organizado conseguiu se infiltrar tão profundamente no mercado financeiro brasileiro, usando instrumentos sofisticados como fundos de investimento, empresas de fachada e redes de laranjas.
A CPI também aprovou a quebra de sigilos bancários e telefônicos de diversos envolvidos, incluindo figuras ligadas ao grupo de Vorcaro e ao próprio Sicário. O objetivo é mapear toda a cadeia de lavagem de dinheiro e identificar possíveis cúmplices no sistema financeiro.
Pra quem acompanha o mercado, vale entender como funcionam os diferentes tipos de fundos exclusivos, já que estruturas como essa são frequentemente citadas em investigações de lavagem de dinheiro por conta da menor transparência na composição de cotistas.
A dimensão do caso preocupa. R$ 52 bilhões é um volume que coloca esse esquema entre as maiores operações de lavagem de dinheiro já investigadas no Brasil. Pra ter uma ideia, é um valor equivalente ao PIB de cidades inteiras.
O caso levanta questões sérias sobre a eficácia dos mecanismos de compliance no mercado de capitais brasileiro. Se um fundo conseguiu movimentar R$ 180 milhões pra uma empresa ligada a crime organizado ao longo de cinco anos sem ser barrado antes, algo falhou no caminho.
Na comunidade da Traders, os traders já estão discutindo os possíveis efeitos regulatórios desse caso. A tendência é que a CVM e o Banco Central endureçam as regras de KYC (Know Your Customer) e monitoramento de operações atípicas em fundos de investimento, o que pode afetar prazos e burocracia pra quem opera no mercado.
Quem investe em fundos de previdência ou qualquer outro tipo de fundo regulado não precisa se alarmar. A estrutura regulatória brasileira tem camadas de proteção, e fundos registrados na CVM seguem regras rígidas de transparência. O problema aqui foi justamente a operação em zonas cinzentas do sistema.
A CPI deve convocar novos depoimentos nas próximas semanas, com foco em gestores e administradores de fundos que possam ter facilitado o esquema. A expectativa é que a PF aprofunde as investigações sobre outros fundos que possam ter sido usados como veículo de lavagem.
Com Sicário morto, parte da cadeia de informações se perdeu. Mas os rastros financeiros seguem vivos nos sistemas do Coaf e da Receita Federal. A movimentação cambial também está sendo investigada, já que parte dos recursos pode ter sido enviada ao exterior.
O caso Vorcaro, que começou como uma investigação sobre o Banco Master, se transformou numa das maiores investigações sobre a infiltração do crime organizado no mercado financeiro brasileiro. E ainda tá longe de acabar.
Pra quem opera no mercado, a lição é clara: a sofisticação do crime organizado no uso de instrumentos financeiros é real e está mais próxima do que muita gente imagina. Ficar atento à procedência dos fundos em que você investe e à reputação dos gestores não é paranoia. É diligência básica.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.