
A BitMine Immersion Technologies (NYSE: BMNR) anunciou neste domingo (23) que suas participações em Ethereum atingiram 4.660.903 ETH, equivalentes a cerca de US$ 9,6 bilhões ao preço atual. Com caixa de US$ 1,1 bilhão e posições em outras empresas, os ativos totais da companhia somam US$ 11 bilhões. O número impressiona: a BitMine já detém 3,86% de todo o Ethereum em circulação.
Pra quem acompanha o pré-mercado desta terça-feira (24), o dado é relevante. Quando uma única empresa concentra quase 4% da oferta de um ativo com market cap acima de US$ 250 bilhões, qualquer movimentação dela pode mexer com o preço. E a BitMine não dá sinais de que vai parar de comprar.
A BitMine era originalmente uma mineradora de Bitcoin. Em junho de 2025, a empresa fez um pivô radical: levantou US$ 250 milhões em colocação privada e anunciou que se tornaria uma "empresa de tesouraria em Ethereum", seguindo o modelo que a Strategy Inc. (ex-MicroStrategy) popularizou com o Bitcoin.
O rosto por trás dessa estratégia é Tom Lee, cofundador da Fundstrat Global Advisors e ex-estrategista-chefe de ações do J.P. Morgan por sete anos. Lee assumiu a presidência do conselho da BitMine em 30 de junho de 2025 e desde então vem executando o que a CNBC chamou de "a MicroStrategy do Ethereum".
A tese é simples: assim como Michael Saylor apostou que o Bitcoin seria reserva de valor corporativa, Tom Lee aposta que o Ethereum, com sua rede de contratos inteligentes e mecanismo de staking, pode gerar retornos compostos pra acionistas. A diferença é que, além da valorização do ativo, a BitMine gera receita com staking.
Na semana encerrada em 22 de março, a BitMine comprou 65.341 ETH por aproximadamente US$ 138 milhões. Foi a terceira semana consecutiva de compras aceleradas. Na semana anterior, as participações eram de 4.596 milhões de ETH.
Dos 4,66 milhões de tokens, 3.142.643 ETH estão em staking (cerca de 67% do total), gerando uma receita anualizada estimada em US$ 184 milhões. Quando 100% das participações estiverem em staking, a projeção sobe pra US$ 272 milhões por ano.
A empresa também mantém 196 BTC em carteira, uma participação de US$ 200 milhões na Beast Industries e US$ 95 milhões na Eightco Holdings (Nasdaq: ORBS).
A estratégia agressiva tem um lado que não dá pra ignorar. Manchetes recentes do Yahoo Finance destacaram que a BitMine estava "US$ 8 bilhões underwater" quando o Ethereum caiu abaixo de US$ 2.000 no início de março.
Isso acontece porque o preço médio de compra da BitMine é significativamente mais alto do que a cotação atual. Com o ETH negociando em torno de US$ 2.160 nesta manhã (alta de cerca de 5,6% nas últimas 24 horas), parte desse prejuízo não realizado foi reduzido, mas a posição ainda é delicada.
Na comunidade da Traders, os traders estão discutindo justamente esse ponto: a aposta de Tom Lee é visionária ou temerária? A história da Strategy com Bitcoin mostrou que quem aguentou a volatilidade colheu resultados no longo prazo, mas os piores trades da história também estão cheios de apostas concentradas que deram errado.
Quando uma única entidade detém quase 4% de todo um ativo e anuncia publicamente que quer chegar a 5% da oferta total, o mercado presta atenção. São 120,7 milhões de ETH em circulação. A meta de 5% significaria acumular mais de 6 milhões de tokens.
Esse tipo de concentração tem efeitos práticos. Primeiro, reduz a oferta disponível no mercado, o que em tese sustenta preços. Segundo, cria um risco sistêmico: se a BitMine precisar vender uma fração significativa por qualquer motivo (pressão de acionistas, necessidade de caixa, mudança regulatória), o impacto no preço do ETH seria violento.
Pra quem investe em criptomoedas via BDRs pela B3, esse é um fator de risco novo. Os BDRs de ETFs de Ethereum, como o ETHE39, refletem diretamente a cotação do ativo. Uma eventual liquidação forçada da BitMine poderia pressionar o preço do ETH globalmente.
A lista de investidores da BitMine não é de amadores. Entre os nomes que participaram das rodadas de captação estão Founders Fund (de Peter Thiel), ARK Invest (de Cathie Wood), Pantera Capital, Galaxy Digital, Kraken e Digital Currency Group.
Esse nível de apoio institucional dá uma camada de credibilidade pra tese, mas também mostra o quanto o mercado cripto institucional está concentrado. São os mesmos nomes aparecendo em praticamente todas as grandes apostas do setor.
A ação BMNR fechou a última sessão em torno de US$ 21,65, com capitalização de mercado de US$ 9,52 bilhões. Os dois analistas que cobrem o papel têm recomendação de compra, com preço-alvo médio de US$ 34,50. Mas vale lembrar: essa mesma ação já chegou a US$ 135 em julho de 2025, logo após o pivô pra Ethereum, numa alta de 3.000% em cinco dias que depois devolveu a maior parte.
A BitMine também está construindo o que chama de MAVAN (Made-in-America Validator Network), uma infraestrutura dedicada de staking com operações nos Estados Unidos. O projeto está previsto pra entrar em operação plena no primeiro trimestre de 2026, e a ideia é que toda a posição em ETH da empresa eventualmente passe por essa rede.
É uma jogada que mistura a narrativa de "cripto americano" com geração de receita recorrente. Se funcionar, a BitMine se torna não apenas a maior detentora corporativa de Ethereum, mas também uma das maiores operadoras de validação da rede.
Pra o investidor brasileiro que acompanha cripto, três pontos merecem atenção nesta manhã:
Primeiro, o ETH está tentando consolidar acima dos US$ 2.100 após uma semana volátil. Se conseguir, pode buscar a resistência nos US$ 2.200. Se perder, o suporte relevante fica na região dos US$ 2.000.
Segundo, a BitMine vem comprando nas quedas. Esse padrão de acumulação institucional geralmente é lido como sinal positivo pelo mercado, mas também pode mascarar uma posição que vai ficando cada vez mais difícil de sair.
Terceiro, o mercado de BDRs de cripto na B3 reflete esses movimentos com um delay e com o efeito adicional do câmbio. Com o dólar na casa dos R$ 5,70, a exposição a ETH via BDRs carrega tanto o risco do ativo quanto o risco cambial.
O caso BitMine levanta uma questão que vale pra qualquer investidor: qual o limite saudável de concentração numa única tese? Tom Lee, com toda sua experiência em Wall Street, está colocando a reputação e bilhões de dólares numa aposta direcional em Ethereum. Até agora, a aposta está no vermelho.
A história de Michael Saylor e a Strategy mostrou que esse tipo de estratégia pode funcionar espetacularmente quando o mercado vira a favor. Mas o Bitcoin teve uma trajetória de adoção institucional mais madura quando Saylor começou a comprar. O Ethereum, apesar de ser a segunda maior cripto, ainda enfrenta concorrência de blockchains mais novas e incertezas regulatórias sobre a classificação dos tokens.
Pra quem quer entender melhor como funcionam as reservas e tesourarias de ativos em escala institucional, o caso BitMine é um estudo em tempo real. Com 4% de todo o Ethereum do mundo nas mãos de uma empresa, o mercado cripto acaba de ganhar mais um fator que pode amplificar tanto as altas quanto as correções.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.