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Fim de uma era: emissora histórica sai do ar em SP

Publicado em
23/4/2026
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Fim de uma era: emissora histórica sai do ar em SP
Fim de uma era: emissora histórica sai do ar em SP
Fim de uma era: emissora histórica sai do ar em SP

O Grupo Estado anunciou nesta quinta-feira (23/04/2026) o encerramento das atividades da Rádio Eldorado, em uma decisão que escancara a crise estrutural da mídia tradicional brasileira. A emissora, uma das mais tradicionais de São Paulo, vai demitir parte do quadro de funcionários, e o grupo informou que está estudando a realocação de alguns profissionais em outras frentes da operação, especialmente no jornalismo digital do Estadão.

A notícia foi publicada originalmente pela Folha de S.Paulo e rapidamente repercutiu no mercado de mídia. Pra investidores, o caso é mais do que uma baixa no jornalismo paulista, é um sinal claro de que o modelo de radiodifusão AM/FM está perdendo a disputa pela atenção e pelos anunciantes, e que até os grupos mais tradicionais estão sendo obrigados a cortar na carne pra priorizar o digital.

O que aconteceu com a Rádio Eldorado

A Eldorado existe há décadas em São Paulo e se consolidou como uma das referências em jornalismo no rádio da capital. Operando em faixa FM, a emissora fazia parte do braço de mídia do Grupo Estado, mesmo controlador do jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão, e do Portal Estadão.

Segundo as informações divulgadas, o encerramento das atividades foi justificado pela direção do grupo como parte de uma reestruturação operacional. A empresa deve focar recursos na produção digital e em novos formatos de áudio, como podcasts, newsletters e conteúdo em plataformas de streaming. Os funcionários da rádio foram comunicados da decisão, e o grupo disse que vai avaliar caso a caso a possibilidade de aproveitar jornalistas em outras áreas.

Na prática, é o fim de uma operação que movimentava uma equipe relevante de jornalistas, apresentadores e equipe técnica. O impacto humano é imediato, demissões num setor que já vem sofrendo forte retração há anos.

Por que a Eldorado fechou?

A resposta curta é: receita publicitária em queda livre. A resposta longa passa por vários fatores que vêm empurrando o rádio tradicional pra um canto cada vez mais apertado.

Primeiro, a migração do ouvinte. Quem acompanha o mercado sabe que Spotify, YouTube, Apple Music, Deezer e um oceano de podcasts mudaram o hábito de consumo de áudio. O ouvinte quer conteúdo sob demanda, sem bloco comercial fixo, sem obrigação de estar ouvindo naquele horário específico. Isso esvaziou especialmente o rádio AM e impactou também o FM.

Segundo, a publicidade. O mercado publicitário brasileiro concentrou boa parte do investimento em digital, Meta, Google, TikTok e plataformas de streaming capturam a maior fatia. O rádio, que já foi um dos principais veículos do mix de mídia, virou complemento marginal em muitas campanhas.

Terceiro, o custo fixo. Manter uma redação de jornalismo, equipe técnica, infraestrutura de transmissão e outorga é caro. Quando a receita não sustenta, o fechamento vira matemática. E é exatamente a matemática que o Grupo Estado parece ter feito.

Crise da mídia tradicional brasileira: o que está por trás

O caso da Eldorado não é isolado. Nos últimos anos, o setor viu fechamentos, fusões, layoffs e mudanças de modelo em praticamente todos os grupos de comunicação do país. Emissoras tradicionais de rádio, redações de jornais impressos e até operações de TV vêm cortando custos pra sobreviver.

O pano de fundo é macroeconômico e estrutural. A indústria de mídia global passa pela maior transformação desde a chegada da internet comercial. Quem não se adaptou ao digital, ou não conseguiu monetizar bem essa adaptação, ficou pra trás. Mesmo grandes grupos americanos, como os que operam jornais históricos, vêm registrando prejuízos bilionários e reduzindo operações impressas.

No Brasil, o quadro é agravado por uma economia que continua exigindo disciplina fiscal das empresas. Com juros ainda elevados, o custo de capital é alto, e margens apertadas pressionam cortes. A maneira como a Selic afeta os investimentos e o custo de captação das empresas explica parte do cenário: em ambiente de juro alto, setor em declínio estrutural não encontra apetite de investidor.

Streaming e podcast canibalizaram o rádio

Se você olhar pros últimos anos, o crescimento dos podcasts brasileiros foi explosivo. Programas independentes, operações de influenciadores, canais do YouTube com formato de rádio, tudo isso drenou audiência que antes era cativa das emissoras tradicionais. Enquanto o rádio seguia preso a formatos lineares e grade fixa, o podcast oferecia liberdade total de horário e tema.

Pra um grupo jornalístico, insistir em manter uma operação de rádio FM quando o ouvinte migrou pra podcast e o anunciante migrou pro digital virou um luxo insustentável.

O que isso significa pros investidores?

A primeira leitura é setorial. Mídia tradicional segue sendo um setor em declínio estrutural no Brasil e no mundo. Quem pensa em exposição a esse segmento via ações precisa olhar com muita atenção pras teses que sobreviveram: grupos que conseguiram transição digital real, com receita recorrente de assinatura, plataformas próprias e diversificação.

No cenário internacional, as grandes plataformas de streaming e redes sociais seguem sendo as vencedoras dessa migração de verbas. Empresas como Meta, Alphabet (Google), Spotify e Netflix capturaram boa parte da atenção e do orçamento publicitário que antes ia pro rádio e pro jornal. Quem quer exposição a essa tendência pode olhar o mercado americano pela bolsa brasileira via BDRs, sem precisar abrir conta no exterior.

A segunda leitura é macro. Fechamentos como o da Eldorado afetam a empregabilidade em São Paulo, pressionam os dados de emprego formal e reforçam a tese de que setores inteiros estão em reorganização. Pra quem opera Ibovespa e acompanha indicadores, esse tipo de movimento aparece no radar dos analistas de mercado como parte do quadro maior de transformação da economia.

Impacto no Grupo Estado

O Grupo Estado, controlador do Estadão, não é uma empresa de capital aberto, então não há ação específica pra acompanhar. Mas a movimentação sinaliza que o grupo quer concentrar recursos no digital, onde já vem construindo uma base relevante de assinantes pagantes.

Essa estratégia está alinhada com o que grupos internacionais de referência vêm fazendo. O New York Times, por exemplo, transformou sua operação em uma máquina de assinaturas digitais, com milhões de assinantes pagantes e receita recorrente. O caminho é claro: conteúdo relevante, paywall, fidelização.

Cenário pra 2026: mais fechamentos pela frente?

A tendência, infelizmente pra quem trabalha no setor, é que o movimento continue. Pequenas e médias emissoras devem seguir enfrentando dificuldades, enquanto os grandes grupos devem continuar reorganizando operações e migrando equipes pra digital.

Na comunidade da Traders, os traders vêm discutindo há tempos como o setor de mídia brasileiro ficou inviável como tese de investimento no modelo tradicional, e como a consolidação do digital abriu espaço pra teses vencedoras como Meta, Google e Spotify. É o tipo de conversa que separa quem enxerga só o fato do dia de quem lê o movimento estrutural.

Pro leitor e ouvinte, o recado é de nostalgia e realidade. A Rádio Eldorado fez parte da história do jornalismo paulistano. Mas em um mercado onde atenção virou o ativo mais escasso, não basta ter tradição. Tem que entregar o que o consumidor quer, na plataforma onde ele está, no momento que ele escolher. Quem não se encaixa nessa equação, infelizmente, sai do ar.

O fechamento da Eldorado fica como mais um capítulo dessa transição. Não é o primeiro, nem será o último.


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