
O Banco do Brasil (BBAS3) entrou em 2026 admitindo o óbvio. A CEO Tarciana Medeiros confirmou que os resultados do primeiro semestre vão vir mais apertados, com o primeiro trimestre (1T26) ainda sob o peso das provisões do agronegócio. A expectativa é que o ponto de inflexão só apareça no segundo semestre, quando a nova safra começa a destravar o balanço do banco.
A mensagem foi direta. "Não vai ser fácil, especialmente no primeiro semestre", disse a executiva em comunicação com o mercado. Não é surpresa. Desde a divulgação do balanço anual no início do ano, o banco vinha sinalizando que 2026 seria um ano de ajuste, não de colheita. Mas ver a confirmação em um guidance formal pesou no humor dos investidores.
O banco projeta lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões em 2026. No ponto médio, representa alta em relação aos R$ 20,7 bilhões reportados em 2025, ano marcado pelo tombo da rentabilidade por causa da crise no agro.
O ROE (retorno sobre patrimônio líquido) projetado fica entre 10% e 13%. É um patamar ainda distante dos 20%+ que o banco costumava entregar em ciclos benignos, mas acima do piso de 8% visto no 3T25, quando o lucro caiu 60% e acendeu o alerta amarelo na base acionária. Quem quiser entender os fundamentos por trás desses números pode consultar o guia sobre Como investir em Banco do Brasil (BBAS3).
A carteira de crédito total deve crescer entre 0,5% e 4,5%. O destaque fica com pessoa física, projetada entre 6% e 10%, enquanto pessoa jurídica fica entre queda de 3% e alta de 1%. O agro, que foi o vilão do ciclo, deve ficar no zero a zero, com intervalo de -2% a +2%. O banco está literalmente pisando no freio na concessão rural pra evitar novos calotes.
A taxa de inadimplência no agronegócio está em 6,09%, a maior já registrada pelo banco na série histórica. Tarciana foi transparente sobre o tamanho do problema. Segundo a CEO, os números atuais refletem operações da safra anterior, feitas sob a metodologia antiga, que estão vencendo agora e ainda vão impactar o balanço por mais um ou dois trimestres.
As provisões para devedores duvidosos (PDD) projetadas para 2026 ficam entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões. É um número menor que o visto em 2025, mas ainda acima do que o mercado gostaria de ver. Analistas do BTG Pactual, por exemplo, estão mais pessimistas e trabalham com cenários em que o lucro do 1T26 pode vir entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões, de 15% a 30% abaixo do consenso.
Pra entender o estado atual, vale olhar o retrovisor. No 4T25, o banco reportou lucro de R$ 5,7 bilhões e ROE de 12,4%, o que foi recebido como uma melhora em relação ao desastre do 3T25 (queda de 60% no lucro, ROE de 8%). O 1T25, pra efeito de comparação base anual (YoY), tinha entregado R$ 7,37 bilhões, o que significa que qualquer número abaixo disso no 1T26 representa contração anual.
Se o lucro vier em torno de R$ 4,9 bilhões, como sugerem as projeções mais otimistas, a queda YoY fica em 34%, mas o QoQ (em relação ao 4T25) é negativo em cerca de 14%. Já no cenário do BTG, de R$ 3,5 bilhões, a queda YoY passaria de 50%.
Para bancos, EBITDA não é a métrica relevante. O investidor deve acompanhar a margem financeira bruta, a receita de serviços (tarifas e seguridade), a despesa com PDD, o índice de eficiência e o ROE.
No guidance de 2026, o banco projetou:
Margem financeira bruta crescendo entre 4,5% e 8,5%, recuperando parte da compressão vista em 2025. Receitas de prestação de serviços com alta entre 4% e 8%. Despesas administrativas crescendo entre 5% e 9%, em linha com inflação. O índice de eficiência deve girar em torno de 27% a 30%, ainda competitivo frente aos pares privados.
Seguridade, que é a joia da coroa via BB Seguridade (BBSE3), continua sendo o pilar que segura o resultado consolidado. Sem ela, o estrago do agro teria sido muito pior.
Os papéis do Banco do Brasil vinham de uma sequência negativa forte antes do anúncio do guidance, com quedas acumuladas de quase 18% em alguns períodos recentes. A tese de valor (ação "barata") dividiu analistas. De um lado, quem vê no múltiplo P/L deprimido uma oportunidade de entrada. De outro, quem argumenta que o mercado ainda não precificou totalmente o risco agro e que o papel pode andar de lado até o 3T26.
O dividend yield projetado para 2026 ficou entre 7% e 8%, abaixo do histórico recente do banco (que chegou a pagar 11%-12% em 2024). O payout mirado fica entre 40% e 45% do lucro, coerente com um cenário de reconstrução de capital. Pra quem está começando e quer entender como esses dividendos entram na conta, vale olhar o guia de melhor investimento para iniciantes em 2026.
O calendário de BBAS3 para os próximos meses tem três marcos importantes. O primeiro é a divulgação oficial do resultado do 1T26, prevista para a primeira quinzena de maio. O segundo é a teleconferência com analistas, onde a CEO tende a detalhar a trajetória de normalização do agro. O terceiro, e talvez mais importante, é o resultado do 2T26, que o próprio banco aponta como o trimestre de transição.
No macro, o ciclo de juros do COPOM e o comportamento do IPCA vão pesar na equação. Juros mais altos por mais tempo são bons para margem financeira, mas ruins para inadimplência. O equilíbrio entre os dois lados define o resultado final do ano.
O setor bancário brasileiro entrou em um ciclo de reprecificação do risco agro. Itaú, Bradesco e Santander também elevaram provisões para crédito rural, mas em escala menor que o BB, que tem o maior portfólio agrícola do sistema. A boa notícia é que, com a safra 2025/2026 sendo renegociada sob a nova metodologia (mais conservadora), o pico do stress já passou. O mercado espera que a inadimplência comece a cair a partir do 3T26.
A Traders Corretora mantém cobertura completa sobre resultados trimestrais dos bancões, com análises que separam ruído de sinal. Pra quem quer montar uma carteira de bancos brasileiros, o artigo sobre melhores ações do Ibovespa em 2026 traz o ranking atualizado do setor. E quem preferir uma abordagem via fundos pode consultar o comparativo de melhores plataformas de trading no Brasil em 2026.
O recado do Banco do Brasil para 2026 foi honesto. O primeiro semestre vai ser duro, as provisões ainda vão pesar e o ROE fica longe do patamar histórico. Mas o guidance sinaliza um caminho de recuperação gradual, com ponto de inflexão no segundo semestre e lucro anual voltando ao crescimento. Para o investidor, a equação é simples de enunciar e difícil de executar. O papel está descontado, mas o descontoexiste por motivos concretos. Quem comprar agora está levando junto o risco do 1T26 vir pior que o esperado. Quem esperar a poeira baixar pode perder o desconto. A tributação de investimentos no Brasil: guia completo 2026 também é ponto de atenção, já que o IR sobre dividendos volta ao debate e pode mexer com a tese de bancões como BBAS3.
A próxima semana de divulgação do balanço vai trazer as respostas que o mercado precisa. Até lá, a recomendação da CEO Tarciana Medeiros é de paciência. Um ano de ajuste, não de colheita.
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