
A Eletrobras, agora operando sob o nome Axia Energia (ELET3), reportou lucro líquido ajustado de R$ 1,25 bilhão no 4T25, um salto de 141% em relação aos R$ 518 milhões registrados no mesmo período de 2024. O resultado marca uma virada relevante pra companhia, que vinha de trimestres consecutivos com prejuízo líquido reportado no padrão IFRS ao longo de 2025.
Na linha reportada (IFRS), o lucro chegou a impressionantes R$ 13,7 bilhões no trimestre. Mas calma: esse número foi inflado pelo reconhecimento de R$ 12,3 bilhões em créditos tributários diferidos, que a empresa passou a considerar recuperáveis. Ou seja, o resultado "real" da operação fica mais bem representado pelo ajustado de R$ 1,25 bilhão.
Pra quem acompanha a tese de investimento em Eletrobras, o balanço do quarto trimestre trouxe sinais mistos. De um lado, a eficiência operacional avançou de forma consistente. Do outro, a receita decepcionou.
A receita líquida operacional regulatória ficou em R$ 9,9 bilhões no 4T25, uma queda de 5,5% na comparação anual. O recuo veio principalmente de dois fatores: menor volume de energia vendida no segmento de geração (reflexo da venda de usinas térmicas ao longo de 2025) e receitas de transmissão abaixo do esperado pelo mercado. Houve ainda um impacto negativo de R$ 250 milhões relacionado a ressarcimentos de parques eólicos.
Já o EBITDA regulatório ajustado totalizou R$ 5,75 bilhões, avanço de 13% sobre o 4T24. A margem EBITDA atingiu 57,1% no trimestre, uma expansão de 9,7 pontos percentuais na base anual. No acumulado de 2025, a margem chegou a 57,5%, 7 pontos acima do ano anterior. Traduzindo: a empresa está gerando mais resultado com menos receita.
O que sustentou a expansão de margens mesmo com receita em queda? A resposta está nos custos gerenciáveis (PMSO).
No 4T25, o PMSO regulatório caiu 15,9% na comparação anual, saindo de R$ 2,1 bilhões no 4T24 pra R$ 1,7 bilhão. Pra dar perspectiva, o PMSO total de 2025 ficou em R$ 5,98 bilhões, uma redução estrutural de 28% em relação a 2022, quando a empresa ainda era estatal.
Essa trajetória de eficiência é um dos pilares da tese pós-privatização. A Eletrobras vem cortando gordura de forma consistente desde que deixou de ser controlada pelo governo, e o 4T25 mostra que ainda tem espaço pra apertar mais. Menos gente, menos burocracia, mais resultado por megawatt.
Outro ponto positivo foi o resultado de equivalência patrimonial, que cresceu 28,9% no trimestre, refletindo o bom desempenho das participações da empresa em outras companhias do setor elétrico.
Quem olhou só a manchete do lucro de R$ 13,7 bilhões pode ter se assustado. Mas esse valor precisa de contexto.
A Eletrobras revisou suas projeções de resultados futuros e passou a considerar como recuperáveis créditos tributários acumulados ao longo de anos, entre prejuízos fiscais e diferenças temporárias. Antes, esses créditos não eram registrados no balanço porque a expectativa de compensação era considerada insuficiente.
Na prática, o reconhecimento de R$ 12,3 bilhões em impostos diferidos ativos não representa caixa imediato. É uma sinalização de que a empresa projeta gerar lucro tributável suficiente nos próximos anos pra usar esses créditos. Isso reduz a carga tributária efetiva no futuro e, indiretamente, aumenta a geração de caixa.
Pra quem está avaliando o P/L (Preço/Lucro) da Eletrobras, é importante usar o lucro ajustado (R$ 1,25 bi no trimestre) como referência, não o reportado.
A empresa distribuiu R$ 4 bilhões em dividendos referentes ao exercício de 2025, o que representa um yield de aproximadamente 4,5% sobre o preço atual das ações. Pra uma empresa do setor elétrico em fase de reestruturação, é um patamar competitivo.
O Lucro por Ação (LPA) ajustado também avançou de forma expressiva, acompanhando a alta de 141% no resultado. Com a redução de custos se consolidando e os créditos tributários entrando no radar, o dividend yield tende a se manter atrativo nos próximos exercícios.
Apesar do foco em eficiência, a Eletrobras não deixou de investir. Os investimentos totais em 2025 somaram R$ 9,6 bilhões, alta de 18% sobre o ano anterior. Só no 4T25, foram R$ 3,87 bilhões, um avanço de 27,9% na base anual.
O destaque vai pra transmissão, que absorveu R$ 2,44 bilhões no trimestre, dos quais R$ 1,99 bilhão em reforços e melhorias da rede. A empresa tem apostado forte nesse segmento, que oferece receita mais previsível e regulada, com contratos de longo prazo.
A geração renovável também recebeu aportes relevantes, consolidando a estratégia de transição energética da companhia.
Apesar do lucro ajustado ter mais que dobrado, as ações da Eletrobras (ELET3) lideraram as quedas no Ibovespa no pregão seguinte à divulgação dos resultados. A pergunta óbvia é: por quê?
Dois fatores explicam a reação negativa. Primeiro, a receita de transmissão veio abaixo das expectativas do mercado, o que levantou dúvidas sobre o ritmo de crescimento orgânico da empresa. Segundo, o lucro reportado de R$ 13,7 bilhões, embora chamativo, foi visto como "artificial" por boa parte dos analistas, já que dependeu do reconhecimento contábil de créditos tributários.
Em outras palavras: o mercado queria ver mais top line (receita) e menos maquiagem contábil. A eficiência operacional é positiva, mas chega um ponto em que cortar custo não compensa a falta de crescimento da receita.
Ainda assim, casas como a Genial Investimentos mantiveram recomendação de compra, com a tese de que a ação segue barata considerando o potencial de geração de caixa futuro. O BB Investimentos também avaliou o resultado como positivo, destacando que "custos caem mais que receita e impulsionam EBITDA".
Vale olhar a trajetória completa de 2025 pra entender o contexto do 4T25:
1T25: prejuízo líquido de R$ 354 milhões. Trimestre fraco, marcado por provisões e ajustes contábeis.
2T25: prejuízo líquido reportado de R$ 1,33 bilhão, mas lucro ajustado de R$ 1,47 bilhão (+43% YoY). A empresa anunciou R$ 4 bilhões em dividendos e as ações subiram mesmo com o prejuízo reportado.
3T25: lucro ajustado de R$ 2,2 bilhões, mas prejuízo IFRS de R$ 5,4 bilhões por efeitos não recorrentes. Dividendos de R$ 4,3 bilhões anunciados.
4T25: lucro ajustado de R$ 1,25 bilhão (+141% YoY). Reconhecimento massivo de créditos tributários infla resultado reportado pra R$ 13,7 bilhões.
A mensagem que fica: o resultado operacional da Eletrobras melhorou de forma consistente ao longo do ano. A diferença entre o lucro reportado e o ajustado continua grande, mas a tendência de geração de valor é clara.
O setor elétrico brasileiro vive um momento de transição. Com os reservatórios em níveis confortáveis e a bandeira tarifária verde predominando, o preço da energia no mercado livre tem se mantido em patamares baixos. Isso pressiona a receita de geradoras como a Eletrobras.
Por outro lado, a demanda por transmissão cresce à medida que o Brasil expande sua capacidade de geração eólica e solar em regiões distantes dos centros de consumo. A Eletrobras, como maior transmissora do país, está bem posicionada pra capturar esse crescimento.
A privatização, concluída em 2022, continua sendo o catalisador central da tese. A redução de custos já entregou resultados concretos, mas o próximo capítulo depende de a empresa conseguir crescer receita sem depender exclusivamente de cortes.
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Pra quem investe ou pensa em investir em Eletrobras (ELET3), alguns pontos merecem atenção nos próximos trimestres:
Resolução do contencioso com a União: a disputa sobre o direito de voto do governo na empresa segue como um risco jurídico. Qualquer desfecho, positivo ou negativo, pode gerar volatilidade significativa nas ações.
Crescimento em transmissão: os investimentos de R$ 9,6 bilhões em 2025 devem começar a gerar receita incremental nos próximos anos. O pipeline de projetos é robusto.
Utilização dos créditos tributários: os R$ 12,3 bilhões reconhecidos no 4T25 representam uma "reserva" de valor que vai se materializar gradualmente. Se a empresa entregar os lucros projetados, a economia fiscal é real.
Dividend yield: com a política de distribuição atual e a melhora operacional, a Eletrobras pode se consolidar como uma das principais pagadoras de dividendos do setor elétrico nos próximos anos.
O balanço do 4T25 não foi perfeito. A receita decepcionou e o mercado não comprou o lucro inflado por créditos tributários. Mas a história de eficiência pós-privatização continua intacta, e os fundamentos de longo prazo seguem sólidos pra quem tem paciência.
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