
A Cemig (CMIG4) reportou lucro líquido de R$ 1,88 bilhão no quarto trimestre de 2025, um salto de 88% na comparação com o mesmo período de 2024. O número, porém, veio inflado por um efeito não recorrente de R$ 788 milhões no resultado, fruto de um acordo de benefícios pós-emprego homologado pelo Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG). Sem esse impulso, o lucro ajustado ficou em torno de R$ 1 bilhão, uma queda de 12% na base anual.
A companhia também aprovou a distribuição de R$ 658 milhões em Juros Sobre Capital Próprio (JCP), equivalentes a R$ 0,23 por ação. A data de corte foi 24 de março de 2026, e as ações passaram a ser negociadas ex-direitos a partir de hoje, 25 de março. O pagamento será feito em duas parcelas: a primeira até 30 de junho de 2027 e a segunda até 30 de dezembro de 2027.
O grande destaque do balanço foi o impacto positivo do acordo histórico de R$ 1,25 bilhão homologado pelo TRT-MG entre a Cemig e sindicatos de empregados. Pelo desenho aprovado, empregados da ativa passam ao Plano Premium, com mensalidades custeadas integralmente pela estatal, enquanto aposentados, ex-empregados e pensionistas serão migrados para um plano operado pela Cemig Saúde.
Esse acordo gerou uma reversão de provisões de R$ 1,19 bilhão no EBITDA e contribuiu com R$ 788,1 milhões diretamente no lucro do trimestre. Em outras palavras, quase metade do lucro reportado veio dessa linha não recorrente. É o tipo de evento que melhora o balanço no papel, mas não se repete nos próximos trimestres.
Pra entender o resultado operacional real da Cemig, o caminho é olhar os números ajustados, que excluem esse efeito extraordinário.
O EBITDA consolidado atingiu R$ 2,95 bilhões no 4T25, alta de 53,9% frente ao 4T24. Impressionante à primeira vista. Mas o EBITDA ajustado, que desconta o efeito do acordo trabalhista, ficou em R$ 1,77 bilhão, uma queda de 8% na comparação anual (contra R$ 1,94 bilhão no 4T24).
Mesmo assim, o número veio 6% acima das estimativas do mercado, segundo análise do Safra. Ou seja: o operacional da Cemig não foi brilhante, mas também não decepcionou. Ficou num meio-termo que o mercado considerou aceitável.
A receita líquida totalizou R$ 11,5 bilhões no trimestre, avanço de 2,9% sobre o 4T24. Um crescimento modesto, mas positivo num cenário de custos crescentes e pressão regulatória no setor elétrico.
Três fatores pressionaram a rentabilidade ajustada da Cemig no trimestre. Primeiro, o GSF (Generation Scaling Factor) desfavorável, que afeta a geração hidrelétrica quando a hidrologia não colabora. Segundo, os custos elevados com gás, que impactam a Gasmig, braço de distribuição de gás da companhia. Terceiro, uma performance mais fraca nas operações de geração e comercialização de energia, segmentos que vinham entregando bons resultados nos trimestres anteriores.
A combinação desses três vetores negativos explica por que, tirando o efeito extraordinário, o EBITDA recuou mesmo com receita levemente maior.
No acumulado do ano, a Cemig registrou lucro líquido de R$ 4,9 bilhões e EBITDA consolidado de R$ 8,28 bilhões. O EBITDA ajustado anual ficou em R$ 7,3 bilhões, e o lucro ajustado em R$ 4,15 bilhões.
A empresa também reportou investimentos recordes no ano. O plano estratégico prevê R$ 43,7 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030, com R$ 6,7 bilhões já programados pra 2026, concentrados principalmente em distribuição de energia, que segue sendo o carro-chefe da companhia.
Um ponto de atenção no balanço é a evolução da dívida. A Cemig encerrou o 4T25 com dívida bruta de R$ 19,5 bilhões e caixa de R$ 2,7 bilhões, resultando em dívida líquida de R$ 16,8 bilhões.
A relação dívida líquida sobre EBITDA subiu de 1,8x no trimestre anterior para 2,3x no 4T25. Esse aumento reflete tanto os investimentos elevados quanto o impacto da Selic alta sobre o custo da dívida. Ainda está dentro de patamares considerados saudáveis pra uma empresa do setor elétrico, mas a trajetória de alta merece acompanhamento. Se a alavancagem continuar subindo, pode limitar a capacidade de distribuição de proventos nos próximos trimestres.
O Conselho de Administração aprovou a distribuição de R$ 658 milhões em JCP, o que equivale a R$ 0,23 por ação (tanto CMIG3 quanto CMIG4). A data de corte foi 24 de março de 2026.
Diferente do que muitos investidores esperavam, o pagamento não será imediato. O JCP será pago em duas parcelas iguais: a primeira até 30 de junho de 2027 e a segunda até 30 de dezembro de 2027. Ou seja, quem está de olho no fluxo de caixa de curto prazo vai precisar esperar mais de um ano pra ver o dinheiro na conta.
Considerando os proventos dos últimos 12 meses, o dividend yield da CMIG4 está em torno de 13,5%, um dos mais altos do setor elétrico no Ibovespa.
O mercado reagiu bem ao balanço. No pregão do dia 19 de março, quando os números foram divulgados, a CMIG4 fechou cotada a R$ 12,24, alta de 3,64% no dia, liderando os ganhos do Ibovespa na sessão. A valorização aconteceu mesmo num dia negativo pro índice geral.
A leitura dos investidores foi pragmática: apesar do lucro inflado pelo acordo trabalhista, o EBITDA ajustado veio acima do consenso, a receita cresceu, e o JCP anunciado reforça o compromisso da companhia com remuneração aos acionistas. A XP Investimentos, por exemplo, mantém preço-alvo de R$ 13,80 pra o papel, o que representaria um potencial de alta de cerca de 13% em relação ao fechamento pós-balanço.
O setor elétrico brasileiro opera num cenário misto em 2026. De um lado, a previsibilidade regulatória e a natureza defensiva das utilities continuam atraindo investidores que buscam renda passiva com dividendos. De outro, a Selic em patamar elevado encarece a dívida das companhias com alavancagem relevante e compete diretamente com o yield das ações de dividendos, já que a renda fixa oferece retornos atrativos sem risco de mercado.
Pra Cemig especificamente, a discussão sobre a privatização segue no radar. O governo de Minas Gerais é o controlador da estatal, e qualquer sinalização sobre mudança de controle pode movimentar significativamente o papel. Esse tema permanece como catalisador potencial, embora sem prazo definido.
Outro ponto relevante é o plano de investimentos robusto de R$ 6,7 bilhões em 2026, focado na modernização e expansão da rede de distribuição. Se executado com disciplina, tende a fortalecer a base de ativos regulatórios da empresa (a chamada RAP, Receita Anual Permitida), o que sustenta receitas futuras.
Sem o efeito extraordinário do acordo do TRT, o 1T26 deve mostrar números mais "limpos" e dar uma fotografia mais fiel do ritmo operacional da Cemig. O mercado vai ficar de olho em três pontos: se a alavancagem se estabiliza, como a empresa executa o plano de investimentos sem comprometer a geração de caixa, e se a política de dividendos se mantém generosa.
A temporada de resultados do setor elétrico tende a reforçar a visão de que empresas de distribuição seguem sendo as mais previsíveis da bolsa. A Cemig, com seu yield de dois dígitos e papel de liderança em Minas Gerais, continua entre as preferidas dos investidores que buscam renda recorrente. Mas é fundamental separar o resultado extraordinário do operacional recorrente pra não criar expectativas que o negócio, por si só, não sustenta.
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