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BTG vê piora de resultados no 1º tri para quase metade das empresas cobertas

Publicado em
20/4/2026
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BTG vê piora de resultados no 1º tri para quase metade das empresas cobertas. Veja o que muda pro investidor. Análise completa no blog da Traders.
BTG vê piora de resultados no 1º tri para quase metade das empresas cobertas
BTG vê piora de resultados no 1º tri para quase metade das empresas cobertas

O BTG Pactual publicou nesta semana seu earnings preview para o primeiro trimestre de 2026, e o diagnóstico não é animador: quase metade das empresas sob cobertura do banco deve reportar resultados piores na comparação anual. O principal vilão? A Selic a 15% ao ano, que segue comprimindo margens, encarecendo o crédito e freando o consumo.

O relatório chega num momento em que o mercado se prepara pra temporada de balanços do 1T26, e funciona como um mapa de quem deve sofrer e quem pode surpreender positivamente nos próximos meses. Pra quem opera na bolsa, entender essas projeções é essencial pra se posicionar antes dos números oficiais.

O que o BTG Pactual identificou no 1T26

A análise do BTG aponta que a combinação de juros altos, inflação persistente e consumo retraído criou um ambiente hostil pra boa parte das companhias listadas na B3. O impacto aparece de formas diferentes dependendo do setor, mas o denominador comum é o custo do dinheiro.

Empresas com maior alavancagem financeira estão vendo suas despesas financeiras explodirem, o que corrói o lucro líquido mesmo quando a operação roda relativamente bem. Já setores dependentes de crédito ao consumidor enfrentam dupla pressão: clientes comprando menos e inadimplência subindo.

Três métricas aparecem como fundamentais no relatório: crescimento de vendas mesmas lojas (SSS), evolução da margem bruta e comportamento da inadimplência nas carteiras de crédito. Quem entende de como analisar balanços de empresas sabe que esses indicadores contam mais que o lucro final.

Setores que devem sofrer no trimestre

Varejo alimentar: crescimento anêmico

O varejo alimentar aparece como um dos segmentos mais fracos na projeção do BTG. O caso do Assaí (ASAI3) ilustra bem: a expectativa é de apenas 0,5% de crescimento em vendas mesmas lojas, com margens praticamente estagnadas. Num cenário de inflação de alimentos ainda elevada, isso significa perda real de eficiência.

O problema vai além do Assaí. Todo o setor de atacarejo e supermercados enfrenta um consumidor que trocou marcas, reduziu o ticket médio e concentrou compras no essencial. A Selic alta tira poder de compra das famílias e inibe qualquer expansão mais agressiva.

Varejo de bens duráveis: crédito caro mata parcelamento

Moda, eletrônicos e móveis formam outro grupo pressionado. O mecanismo é direto: com juros a 15%, o custo do parcelamento sobe, e compras de maior valor são postergadas. Empresas que dependem de crédito ao consumidor pra girar estoque estão sentindo o aperto tanto no volume quanto na margem.

Bancos públicos: provisões em alta

O Banco do Brasil (BBAS3) deve reportar lucro entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões no 1T26, segundo as projeções do BTG. A queda em relação ao 4T25 reflete menor receita líquida de juros (NII), provisões elevadas e, particularmente, a deterioração da carteira de agronegócio.

O Santander Brasil (SANB11) também entra na lista de resultados "mais fracos", com lucro projetado em cerca de R$ 4 bilhões, aproximadamente 2% abaixo do consenso de R$ 4,1 bilhões. O ROE estimado de 16,6% mostra compressão de margem com clientes e provisões sazonais mais altas.

Quem pode surpreender positivamente

Nem tudo é pessimismo. O relatório do BTG destaca setores que seguem crescendo apesar do cenário macro adverso, principalmente os ligados a saúde, bem-estar e consumo não cíclico.

A RD Saúde (RADL3) lidera as apostas positivas, com expectativa de crescimento de receita de 19%, impulsionada pela demanda crescente por medicamentos como os GLP-1 (usados no tratamento de obesidade e diabetes). É um caso clássico de setor defensivo que ganha tração independente do ciclo econômico.

Smart Fit (SMFT3) e Petz (AUAU3) também aparecem bem posicionadas. Ambas operam em mercados com demanda resiliente e conseguiram expandir sem comprometer rentabilidade.

No varejo farmacêutico, a Panvel (PNVL3) se destaca com projeção de 12,5% de crescimento em vendas mesmas lojas e ganhos de rentabilidade. É o tipo de empresa que se beneficia de ticket baixo e frequência alta de compra.

Entre os bancos, o Bradesco aparece como possível surpresa positiva. O BTG enxerga espaço pra melhora operacional, em contraste com a expectativa mais cautelosa pro BB e Santander.

BPAC11: o próprio BTG segue entregando

Enquanto projeta piora pra quase metade do mercado, o próprio BTG Pactual (BPAC11) vem numa sequência impressionante de resultados. Em 2025, o banco registrou lucro líquido recorde de R$ 16,68 bilhões, alta de 35% sobre 2024, com ROAE de 26,9%.

O 4T25 foi particularmente forte: lucro de R$ 4,59 bilhões (+40,3% ano a ano) e receita total de R$ 9,09 bilhões (+35,3% YoY). No 1T25, que serve como base de comparação, o lucro foi de R$ 3,37 bilhões (+16,5% YoY) com ROAE de 23,2%.

Os motores do crescimento são diversificados. Corporate Lending avançou 35% no ano, Asset Management cresceu 28% e Wealth Management subiu 19%. A captação líquida em 2025 ultrapassou R$ 354 bilhões, e os ativos sob gestão e custódia romperam a marca de R$ 2 trilhões.

O guidance pra 2026 é ambicioso: o banco projeta manter ROAE acima de 25%, o que o coloca em patamar superior a praticamente todos os concorrentes no Brasil.

O que o mercado pensa de BPAC11

A ação BPAC11 acumula valorização de cerca de 21% em 2026, sendo negociada na faixa de R$ 63,45. Nos últimos 12 meses, a alta é ainda mais expressiva: +87%.

O consenso de analistas é fortemente comprador: 10 recomendações de compra, 2 neutras e nenhuma venda, com preço-alvo médio de R$ 65,05. A XP mantém alvo de R$ 63 com projeção de crescimento de lucro de 18% pra 2026, enquanto o Itaú BBA revisou seu alvo de R$ 58 pra R$ 63 com recomendação outperform. O BB Investimentos é o mais otimista, com alvo de R$ 68,60.

A tese central é que o BTG construiu um modelo de negócios que se beneficia dos juros altos (via tesouraria e crédito corporativo) enquanto cresce as verticais de wealth e asset management, que geram receita recorrente com menor volatilidade.

Temporada de resultados do 1T26: como se preparar

O earnings preview do BTG é só o começo. Nas próximas semanas, os balanços começam a sair, e o mercado vai reagir empresa por empresa. Quem acompanha a temporada de resultados sabe que as primeiras semanas são as mais voláteis.

Pra montar sua tese, vale cruzar as projeções do BTG com os números reais à medida que forem publicados. O calendário de resultados é ferramenta essencial nesse processo.

Alguns pontos de atenção pra esta temporada:

Despesas financeiras. Compare o custo da dívida trimestre a trimestre. Com a Selic estável em 15%, empresas que rolaram dívida no 1T26 podem ter pago mais caro que no 1T25, quando a taxa estava em 13,25%.

Margem EBITDA. O EBITDA isola o efeito financeiro e mostra a saúde operacional. Se a margem EBITDA está caindo junto com o lucro, o problema é mais profundo que só juros.

Guidance revisado. Preste atenção se as empresas estão revisando suas projeções pra baixo. Revisões negativas de guidance no 1T costumam antecipar um ano difícil.

Inadimplência. Nos bancos, observe o índice de inadimplência acima de 90 dias. Qualquer deterioração acima do esperado pode gerar revisões de provisão e pressionar os próximos trimestres.

O contexto macro por trás da piora

O diagnóstico do BTG não existe no vácuo. A Selic a 15% é o patamar mais alto desde o ciclo de 2016, e o Banco Central sinalizou que os cortes, se vierem, serão graduais. Isso significa que o 2T26 e até o 3T26 ainda devem sentir o peso dos juros nos balanços.

O câmbio adicionou outra camada de complexidade. Com o dólar oscilando na faixa de R$ 5,80, empresas importadoras viram seus custos subirem, enquanto exportadoras se beneficiaram parcialmente. Quem investe em BDRs de empresas globais sabe que o efeito cambial joga a favor quando o real se desvaloriza.

A inflação segue pressionada, com o IPCA rodando acima da meta. Isso mantém o Copom cauteloso e adia qualquer alívio monetário significativo. Pra empresas de consumo, é a pior combinação: juros altos + inflação + renda comprimida.

O que esperar daqui pra frente

O relatório do BTG funciona como um termômetro antecipado. Se as projeções se confirmarem, a temporada do 1T26 deve ser a mais fraca dos últimos três anos pra boa parte das empresas da B3.

Mas há nuances. Setores defensivos como saúde, utilities e empresas de tecnologia com operação internacional podem navegar melhor o cenário. E dentro de cada setor, a diferença entre gestores eficientes e empresas mais frágeis tende a ficar mais evidente.

Pra o segundo semestre, o mercado precifica início de cortes na Selic, o que traria alívio gradual. Mas até lá, os balanços do 1T26 e do 2T26 devem continuar refletindo o custo dos juros na economia real.

O BTG, de sua parte, parece bem posicionado pra continuar entregando. Com ROE consistentemente acima de 25%, diversificação de receitas e posição dominante em investment banking e wealth management, BPAC11 se consolidou como uma das teses mais resilientes do setor financeiro brasileiro. Os resultados do 1T26 do próprio banco, esperados nas próximas semanas, devem confirmar essa tendência.


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