
A B3 (B3SA3), operadora da bolsa de valores brasileira, divulgou os números do primeiro trimestre de 2026 e mostrou que o ano começou forte. O lucro líquido recorrente ficou em R$ 1,5 bilhão, alta de 33% na comparação com o mesmo período de 2025. É um dos maiores saltos anuais entregues pela companhia nos últimos trimestres e reforça a leitura de que o ciclo de afrouxamento monetário começa, finalmente, a chegar de verdade no mercado de capitais.
O resultado veio acima do que a maior parte das casas de análise projetava. Volume diário maior na bolsa, retomada de novas listagens de fundos imobiliários e tração no segmento de balcão (OTC) puxaram o desempenho. A B3 também colheu o efeito das iniciativas de eficiência operacional iniciadas em 2025, que continuam segurando o crescimento das despesas em ritmo abaixo da inflação acumulada.
O lucro recorrente, que exclui itens não recorrentes como ajustes tributários e baixas contábeis pontuais, é a métrica que o mercado mais olha pra B3. No trimestre, ele veio em R$ 1,5 bilhão, contra cerca de R$ 1,1 bilhão um ano antes. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior (4T25), o avanço também foi relevante, refletindo a sazonalidade tradicionalmente mais forte do começo de ano e a entrada renovada de fluxo estrangeiro.
A receita líquida total seguiu o mesmo caminho, com avanço de dois dígitos no comparativo anual. A receita do segmento listado à vista, que é a vitrine da B3, foi a grande estrela. O volume financeiro médio diário (ADTV) ficou bastante acima do registrado um ano antes. Já o segmento de derivativos manteve relevância, especialmente puxado por mini contratos, que continuam ganhando tração entre o público de varejo.
O EBITDA ajustado avançou em ritmo forte e a margem EBITDA permaneceu na faixa dos 70%. Pra quem acompanha o setor, isso é o que torna a B3 um caso peculiar dentro do Ibovespa. Poucas empresas listadas na bolsa brasileira conseguem operar com margem acima de 70% trimestre após trimestre. A explicação está na natureza do negócio. Bolsa é uma infraestrutura crítica de mercado, com alta escala e custo marginal baixo. Cada novo trade que entra no sistema custa quase nada pra processar, mas gera receita.
O lado das despesas seguiu controlado. As iniciativas de redução de custo em tecnologia e a renegociação de contratos com fornecedores começaram a aparecer no resultado, segurando o crescimento das despesas operacionais abaixo do IPCA do período.
Três fatores explicam, no fundo, o salto do lucro do 1T26.
Volume maior na bolsa. Com a expectativa de novos cortes na Selic ao longo de 2026, parte do dinheiro que estava parado em renda fixa começou a voltar pra bolsa. Pequenos investidores retomaram o ritmo de operações, e estrangeiros aumentaram alocação no Brasil depois de um 2025 mais retraído. O ADTV no segmento à vista subiu na faixa dos 20% na base anual.
Mais listagens e captações. O segmento de listado (registro de novos produtos, IPOs, follow-ons e emissões de FIIs) teve um trimestre cheio. Após uma janela de IPOs praticamente fechada em 2024, o mercado primário começou a abrir novamente. Ofertas subsequentes e emissões de fundos imobiliários ajudaram a preencher o pipeline.
Receita do OTC. O segmento de balcão, que registra operações de derivativos e renda fixa fora da bolsa, mostrou novamente sua importância como linha defensiva. Mesmo em períodos de menor volume na bolsa à vista, o OTC mantém receita estável com taxas de registro e custódia. No trimestre, ele continuou crescendo, especialmente puxado pela emissão de debêntures incentivadas e CRIs/CRAs.
O papel reagiu bem ao balanço. B3SA3 abriu o pregão em alta, refletindo o tom positivo do release e a leitura de analistas de que o trimestre superou o consenso. A ação acumula desempenho positivo no ano, em linha com a recuperação do Ibovespa.
O cenário de queda de juros costuma ser favorável pra ação da B3 por dois motivos. Primeiro, melhora o apetite de risco e aumenta o volume na bolsa, o que alimenta direto a receita. Segundo, comprime o custo de capital usado pelo mercado pra precificar a empresa, geralmente expandindo o múltiplo. Pra entender melhor o comportamento dos preços nesse tipo de contexto, vale revisar o conceito de Bull Market (Mercado de Alta): o que é e como funciona.
O guidance de despesas e capex foi mantido, segundo o release. A administração reforçou que o foco do ano segue em diversificação de receita, expansão de produtos no balcão e crescimento internacional via parcerias. A operação com a Nasdaq Index Services e os projetos envolvendo criptoativos seguem sendo apostas de médio prazo pra reduzir a dependência do volume diário da bolsa à vista.
A política de proventos também é um capítulo à parte. A B3 distribui mais de 100% do lucro do exercício via dividendos, juros sobre capital próprio (JCP) e recompra de ações. Pra investidor que olha o papel pelo prisma da renda passiva, esse é um diferencial importante. Vale lembrar que o yield realizado depende de quanto o mercado paga pela ação. Quando o múltiplo expande, o yield comprime, e vice-versa. Pra entender melhor a lógica por trás disso, dá uma olhada em P/L (Preço/Lucro): o que é e como funciona.
O calendário do papel pelo resto do ano tem três marcos relevantes. A próxima reunião do Copom, que vai ditar o ritmo do afrouxamento monetário e mexer direto no apetite por bolsa. O segundo trimestre, com dados sazonalmente mais fracos, mas que vai mostrar se a tração do 1T26 era pontual ou estrutural. E, por fim, o próximo Investor Day da B3, evento em que a companhia costuma atualizar metas estratégicas e dar mais cor sobre o pipeline de novos produtos.
A B3 é, hoje, uma das maiores operadoras de bolsa do mundo em receita por trade. Ela compete por capital com Cboe, ICE (NYSE), Nasdaq, Deutsche Börse e Hong Kong Exchanges. No comparativo de margem operacional, fica entre as três mais rentáveis. No comparativo de crescimento, depende muito do ciclo de juros do Brasil, o que torna o papel mais cíclico que os pares de mercados desenvolvidos.
Essa característica cíclica explica por que o papel costuma performar bem em momentos de transição de ciclo monetário. Quando o Banco Central começa a cortar juros, a B3 tende a antecipar o movimento da bolsa como um todo, refletindo a expectativa de mais volume nos meses seguintes. Pra entender o impacto da Selic em outras classes de ativo, vale a leitura sobre Renda fixa vale a pena com Selic alta?.
Lucro recorrente de R$ 1,5 bilhão num único trimestre é um número bonito, mas só faz sentido analisado em contexto. A B3 está rodando, hoje, num ritmo anualizado próximo de R$ 6 bilhões em lucro recorrente, considerando os trimestres recentes. Isso coloca a empresa entre as 20 maiores em lucratividade do Ibovespa.
O Lucro por Ação (LPA) da B3 também subiu de forma consistente. Vale lembrar que a empresa vem fazendo recompras agressivas, o que reduz a base de ações em circulação e amplifica o efeito do crescimento de lucro sobre o LPA. Pra quem quer entender melhor essa métrica e como ela afeta o valuation, dá uma olhada em Lucro por Ação (LPA): o que é e como funciona.
O resultado do 1T26 confirma uma tese que já vinha aparecendo em casa de análise desde o final do ano passado. A B3 entrou num novo ciclo de crescimento, alimentado pela combinação de retomada de volume, novos produtos e disciplina de custos. Se a Selic ajudar nos próximos trimestres, a tendência é que esse momento se prolongue. O risco fica por conta de uma eventual reversão no cenário macro, que pode esfriar o apetite de risco e devolver dinheiro pra renda fixa.
Pra quem investe pensando em ciclos longos, o trimestre traz um sinal claro de que a infraestrutura do mercado de capitais brasileiro segue em recuperação. Pra quem opera no curto prazo, o que vale agora é acompanhar de perto o ADTV diário e os dados de fluxo estrangeiro, que costumam dar pista do que vem pelo próximo balanço da companhia.
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