
A Vale (VALE3) reportou lucro líquido atribuível de US$ 1,893 bilhão no primeiro trimestre de 2026, alta anual de 36% frente aos US$ 1,394 bilhão registrados no 1T25. O balanço, divulgado na noite de 28 de abril, marca uma virada brusca em relação ao prejuízo de US$ 3,844 bilhões reportado no 4T25, quando a mineradora foi pesada por impairments e ajustes contábeis.
A receita líquida de vendas somou US$ 9,258 bilhões, avanço de 14% na comparação anual. Já o EBITDA ajustado totalizou US$ 3,830 bilhões, 23% acima do 1T25. O fluxo de caixa livre praticamente dobrou, saindo de US$ 504 milhões um ano antes para US$ 813 milhões agora.
O ponto que chamou atenção do mercado, porém, não foi o minério de ferro, e sim o que ficou conhecido por anos como o "patinho feio" do portfólio: os metais básicos. Cobre e níquel passaram de coadjuvantes a protagonistas do trimestre.
O EBITDA da divisão de metais básicos saltou 116% no ano, atingindo US$ 1,2 bilhão. Dentro desse segmento, o desempenho do níquel foi quase irreal: o EBITDA do metal cresceu 576% em base anual, refletindo forte redução de custos e maior receita com subprodutos.
O cobre também surpreendeu. O preço realizado pela Vale subiu 19,4% na comparação trimestral, para US$ 13.143 por tonelada. A produção do metal somou 102,3 mil toneladas, alta de 13% no ano, impulsionada por volumes recordes nas operações de Salobo (Pará) e Sossego.
Com cobre rodando perto dos níveis mais altos da história e demanda firme vinda de eletrificação, redes de transmissão e veículos elétricos, a Vale começa a colher uma tese que vinha falando há tempos: deixar de ser apenas a mineradora de minério de ferro e virar uma empresa diversificada em metais críticos para a transição energética.
A produção de minério de ferro totalizou 69,7 milhões de toneladas no trimestre, alta de 3% no ano. O número ficou em linha com a expectativa do mercado, mas o cenário de preço continua mais apertado do que em 2024 e 2025, com o aço chinês em desaceleração e estoques em portos chineses ainda confortáveis.
Mesmo assim, o segmento de soluções de minério de ferro segue como principal fonte de caixa da companhia. A combinação de volumes resilientes com custos C1 controlados ajudou a sustentar a margem do trimestre.
Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, a leitura é ainda mais positiva. No 4T25, a Vale havia divulgado prejuízo líquido de US$ 3,844 bilhões, pesado por baixas contábeis e impactos não recorrentes. Sair de prejuízo bilionário para lucro próximo de US$ 1,9 bi em 90 dias é o tipo de movimento que costuma sustentar uma reprecificação positiva da ação.
A dívida líquida expandida, no entanto, segue como ponto de atenção. Ela aumentou US$ 2,2 bilhões no trimestre, encerrando março em US$ 17,8 bilhões. Esse avanço reflete pagamentos de dividendos, juros sobre capital próprio e o programa de recompra de ações, que continuou rodando nos primeiros meses do ano.
O resultado veio acima do consenso de analistas, especialmente na linha de EBITDA, puxado pelos metais básicos. Casas de análise como Safra destacaram que o "EBITDA foi mantido apesar de volumes mais fracos no minério de ferro, graças ao desempenho do cobre". A leitura geral é de que o balanço entrega uma narrativa que o mercado vinha cobrando há trimestres: diversificação real do mix de receita.
Com o resultado, voltam à mesa duas discussões clássicas para quem acompanha Vale (VALE3): o tamanho do próximo provento e a velocidade de execução do plano de cobre. A administração sinaliza que a empresa segue comprometida com a política de remuneração ao acionista, mas não há, até o momento, anúncio de dividendo extraordinário.
Para o restante de 2026, três pontos vão ditar o humor do papel:
1) Preço do minério de ferro: a referência 62% Fe segue oscilando perto dos US$ 100 por tonelada. Cada US$ 10 de variação no preço médio do ano mexe alguns bilhões na receita anual da companhia. O ritmo de estímulo na China e o comportamento da construção civil chinesa são as variáveis-chave.
2) Execução em cobre: a Vale projeta crescimento contínuo da produção de cobre nos próximos anos, com Salobo III rodando a plena capacidade e novos projetos em estudo. Se o preço do metal seguir entre US$ 9.000 e US$ 11.000 por tonelada, o segmento pode contribuir com fatia cada vez maior do EBITDA.
3) Estrutura de capital e proventos: com dívida líquida expandida em US$ 17,8 bilhões e meta de mantê-la em patamar razoável, a régua para dividendos extraordinários ficou um pouco mais alta. Ainda assim, o yield projetado de VALE3 segue entre os mais altos do Ibovespa e entre as principais mineradoras globais.
A Vale entrega esse 1T26 num momento curioso do ciclo. O minério de ferro está num platô de preço relativamente confortável, mas sem o brilho dos picos de 2021. Em paralelo, cobre, níquel e outros metais ligados à transição energética ganham espaço estrutural na demanda global, puxados por carros elétricos, redes elétricas, data centers e novas fábricas de chips.
Para o investidor brasileiro, isso muda a tese. Por décadas VALE3 foi quase sinônimo de "como vai a China?". Hoje, ela começa a se parecer mais com uma empresa híbrida: parte mineradora de minério de ferro com exposição a aço asiático, parte produtora de metais críticos com exposição a Estados Unidos, Europa e cadeia de baterias.
Quem monta carteira de longo prazo costuma analisar VALE3 dentro de uma cesta de ativos de risco. Faz sentido olhar a alocação total em renda variável e comparar com alternativas como fundos imobiliários e renda fixa atrelada à Selic, que continuam atrativos enquanto a taxa básica seguir em patamar elevado.
Tirando os números, três observações qualitativas merecem destaque. Primeiro, o controle de custos: o C1 do minério de ferro segue na faixa baixa do setor entre as grandes mineradoras, o que protege a margem em momentos de preço pior. Segundo, a geração de caixa: com US$ 813 milhões de fluxo de caixa livre num trimestre tradicionalmente sazonal mais fraco, a Vale entra forte para os trimestres melhores do ano. Terceiro, a narrativa de diversificação finalmente começou a aparecer no número, e não só na apresentação.
O 1T26 não resolve todas as dores da tese de VALE3. Risco regulatório, exposição cambial, ciclos chineses e cobranças ambientais seguem na conta. Mas, depois de um 4T25 marcado por prejuízo bilionário, o trimestre encerra com um recado claro: a empresa entregou margem, reverteu resultado e mostrou que tem alavancas além do minério de ferro. Para os próximos trimestres, o jogo vai depender bem menos de Pequim e bem mais de cobre, níquel e disciplina de capital.
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