
A Vale (VALE3) abriu a temporada de balanços das grandes mineradoras brasileiras com um resultado forte e, principalmente, com uma virada de chave em relação ao trimestre anterior. A companhia divulgou nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, um lucro líquido atribuível aos acionistas de US$ 1,893 bilhão no primeiro trimestre de 2026, alta de 36% na comparação anual e reversão direta do prejuízo bilionário registrado nos últimos três meses de 2025.
O número veio acima do consenso de mercado e foi sustentado por uma combinação rara nos últimos anos para a Vale: produção crescendo, preços de commodities resistentes e os metais básicos finalmente puxando o resultado para cima. Cobre e níquel, que por muito tempo ficaram à sombra do minério de ferro, entraram no balanço como protagonistas.
A receita líquida de vendas somou US$ 9,25 bilhões no trimestre, alta de 14% em relação aos US$ 8,12 bilhões do mesmo período de 2025. O EBITDA ajustado proforma chegou a US$ 3,89 bilhões, alta anual de 23%, com a margem EBITDA proforma avançando 2 pontos percentuais. O EBITDA contábil ficou em US$ 3,83 bilhões.
O fluxo de caixa livre recorrente atingiu US$ 813 milhões, US$ 309 milhões a mais do que no 1T25. É um número relevante porque mostra geração de caixa real, depois de capex e capital de giro, num trimestre em que a Vale historicamente sofre pelo efeito da estação chuvosa em Carajás e na sistema sul.
A virada em relação ao 4T25 foi ainda mais marcante. No último trimestre de 2025, a Vale tinha reportado prejuízo de US$ 3,8 bilhões, contaminado por provisões da Samarco e ajustes contábeis ligados a Mariana e Brumadinho. O 1T26 limpou esse efeito não recorrente e devolveu o foco para a operação.
O grande destaque operacional do trimestre veio dos metais básicos. A produção de cobre da Vale somou 102,3 mil toneladas, alta de 13% na comparação anual. É o melhor primeiro trimestre da companhia para o metal desde 2017. O preço realizado do cobre subiu 19,4% na comparação trimestral, para US$ 13.143 por tonelada, ajudado pela cotação na London Metal Exchange e por ajustes finais positivos de preços de embarques anteriores.
O níquel também surpreendeu. Foram 49,3 mil toneladas produzidas, 12% acima do 1T25, no melhor patamar para um primeiro trimestre desde 2020. O preço realizado avançou 13,3% no trimestre, para US$ 17.015 a tonelada, refletindo o aperto do mercado global do metal e a recuperação dos prêmios de classe 1, usados em baterias e aços inoxidáveis especiais.
Esse mix faz diferença na conta final. Com minério de ferro mais lateralizado em preço, é o cobre e o níquel que estão fazendo a margem da Vale crescer. Para quem quer entender melhor a operação, vale a pena conferir o guia completo de como investir em Vale (VALE3) com a divisão de receitas por segmento.
O carro-chefe da Vale, o minério de ferro fino, teve produção de 69,6 milhões de toneladas no 1T26, alta de 3% em relação ao mesmo trimestre de 2025. O preço realizado ficou em US$ 95,8 por tonelada, praticamente estável na comparação trimestral. É um patamar saudável, considerando que o mercado vinha precificando uma queda mais forte do minério no início do ano.
A demanda chinesa segue sendo o fator dominante. O setor siderúrgico da China continua absorvendo o produto da Vale com qualidade premium, especialmente o pellet feed e o IOCJ, que pagam mais. Os embarques de pelotas tiveram avanço de margem com a recuperação dos prêmios de qualidade no mercado spot.
O custo caixa C1 do minério de ferro, principal métrica de competitividade da mineração, ficou na faixa estimada pela companhia para o ano. A Vale reforçou o compromisso com o piso de US$ 21,5 bilhões em capex anual e indicou que o programa de revitalização de Carajás Sul segue dentro do cronograma.
O endividamento líquido expandido encerrou o trimestre próximo de US$ 17 bilhões, em linha com a meta de manter a alavancagem (dívida líquida sobre EBITDA) abaixo de 1,5x. Isso é importante porque preserva o grau de investimento e mantém a porta aberta para distribuição de proventos.
A pergunta que o investidor faz agora é o que vem nos próximos trimestres. A Vale reiterou o guidance de produção de minério de ferro para 2026 entre 325 e 335 milhões de toneladas. Para cobre, a meta foi mantida na faixa de 420 a 460 mil toneladas, e para níquel, entre 175 e 210 mil toneladas. Se a companhia entregar a parte alta dos guidances, o ano de 2026 pode se consolidar como o melhor desde 2021 em termos de geração de caixa.
Os próximos catalisadores que vão pesar na ação:
O primeiro é a política de dividendos. A Vale costuma fazer o anúncio principal do ano no segundo semestre, e o nível de fluxo de caixa do 1T26 abre espaço para um payout mais generoso. O segundo é a negociação com o governo federal sobre Mariana, que ainda tem efeitos residuais a serem resolvidos. O terceiro é o ritmo da economia chinesa e das medidas de estímulo ao setor imobiliário, que historicamente movem o preço do minério.
Outro ponto que entra no radar é a possível separação dos metais básicos em uma estrutura mais autônoma, com IPO no exterior. A diretoria reforçou no release que a operação está madura, mas que qualquer movimento depende de janela de mercado.
As ações de VALE3 vinham operando em lateralização nas semanas anteriores ao balanço, com o mercado pesando entre o cenário benigno para metais básicos e a incerteza sobre a demanda chinesa por minério. Analistas das principais casas, como BTG Pactual, XP, Itaú BBA e Safra, já tinham sinalizado que o resultado seria positivo, com revisão para cima de estimativas no caso do cobre.
No setor, a Vale segue como referência global em mineração de ferro. As concorrentes Rio Tinto, BHP e Fortescue divulgam seus números em cronograma similar, e a comparação direta de margens deve favorecer a brasileira nesta temporada, dada a vantagem de qualidade do minério de Carajás.
Para os BDRs dessas mineradoras estrangeiras, o investidor brasileiro consegue exposição direta na B3, sem precisar abrir conta no exterior, o que ajuda a montar uma carteira diversificada de mineração global. A diversificação setorial inclusive entra como tema relevante quando se compara renda variável a outras classes de ativos: vale revisitar a discussão de renda fixa vale a pena com Selic alta antes de definir alocação.
Para quem já tem VALE3 na carteira, o balanço do 1T26 é um sinal positivo, mas não eufórico. A tese de longo prazo continua a mesma: exposição a minério de ferro com hedge crescente em cobre e níquel, num cenário de transição energética que demanda esses metais para baterias, redes elétricas e veículos elétricos.
O risco também segue conhecido: dependência da China, ciclos de commodities, passivos ambientais ainda em curso e exposição cambial, já que a receita é em dólar e parte relevante dos custos é em real. O dólar valorizado historicamente joga a favor da margem da Vale, mas esse efeito tem limite quando comprime o consumo dos países importadores.
Para investidores com horizonte mais curto, vale acompanhar com atenção a evolução dos preços do minério na curva da DCE (Dalian Commodity Exchange) e os indicadores de aço chinês. Esses dados antecipam em até 60 dias o que aparece no balanço da Vale. Quem opera com horizonte ainda mais curto pode olhar estratégias específicas como scalping, mas em ações de mineração isso exige disciplina dobrada por causa da volatilidade intraday.
O 1T26 mostra uma Vale ajustada, com operação rodando, metais básicos finalmente entregando e disciplina de capital preservada. Não é o trimestre que muda a tese, mas é o trimestre que mostra que a tese segue de pé. O próximo recado vai vir nas teleconferências dos pares globais e, principalmente, no anúncio de proventos do meio do ano.
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