
A Vale (VALE3) divulgou nesta terça-feira (28) o balanço do primeiro trimestre de 2026, e mesmo com lucro 36% maior na comparação anual, a ação despencou na sessão seguinte. O papel chegou a cair quase 6% durante o pregão de quarta-feira (29) e fechou abaixo dos R$ 80, depois de o mercado digerir uma combinação ruim: custos operacionais bem acima do guidance e dívida líquida em alta.
O lucro líquido atribuível aos acionistas ficou em US$ 1,89 bilhão, comparado a US$ 1,39 bilhão no mesmo período de 2025. O número também marca uma reversão importante frente ao quarto trimestre de 2025, quando a mineradora amargou prejuízo de US$ 3,8 bilhões por conta de provisões extraordinárias. A receita líquida somou US$ 9,25 bilhões, alta de 14% na comparação anual, puxada principalmente pela divisão de metais básicos.
O EBITDA ajustado proforma da Vale ficou em US$ 3,89 bilhões no 1T26, alta de 21% frente ao mesmo trimestre do ano passado. A margem EBITDA proforma chegou a 42%, ganho de 2 pontos percentuais na comparação anual. Em termos absolutos, o resultado parece sólido. O problema é que o número ficou cerca de 3% abaixo do consenso de mercado, e foi aí que a tese começou a azedar.
O ponto que mais incomodou os analistas, porém, foi o custo de produção. O custo caixa C1 do minério de ferro fino, excluindo compras de terceiros, atingiu US$ 23,6 por tonelada no trimestre, alta de 12% na comparação anual e de 11% frente ao 4T25. Esse patamar fica claramente acima do guidance da própria companhia para 2026, que projeta um intervalo entre US$ 20 e US$ 21,5 por tonelada.
Em conferência com analistas, a Vale reconheceu que o custo deve se aproximar do teto da faixa indicada ao longo do ano, considerando o consenso de câmbio em R$ 5,25 e Brent em US$ 90 o barril. O all-in cost também tende a ficar perto do limite superior do guidance (US$ 52 a US$ 56 por tonelada). Pra um produtor que vinha sendo elogiado por disciplina de custos, é um sinal amarelo.
O outro ponto sensível do balanço foi o endividamento. A dívida líquida da Vale fechou o trimestre em US$ 13,56 bilhões, alta de 11% na comparação anual. Já a dívida líquida expandida, que inclui as provisões relacionadas a Brumadinho e à Fundação Renova (no caso de Samarco), totalizou US$ 17,79 bilhões.
O empréstimos e financiamentos somavam US$ 18,2 bilhões em 31 de março de 2026. Embora os números absolutos estejam dentro de uma faixa administrável pra uma empresa do porte da Vale, a curva de subida preocupa em um cenário onde o mercado torcia por dividendos extraordinários ainda em 2026.
O Banco Safra, em relatório, classificou a geração de caixa do trimestre como decepcionante e destacou que o pagamento de dividendos extras no curto prazo fica menos provável diante da combinação custos altos + dívida em expansão. Em compensação, o caixa gerado pelas atividades operacionais saltou para US$ 4,3 bilhões, alta de 160% frente ao 1T25, o que dá fôlego pra companhia administrar o passivo.
O grande destaque positivo do balanço veio da divisão Vale Base Metals (VBM), que reúne as operações de cobre e níquel. O EBITDA do segmento subiu 116% no comparativo anual e atingiu cerca de US$ 1,2 bilhão. Sozinho, o cobre contribuiu com US$ 949 milhões e o níquel adicionou US$ 277 milhões.
O movimento confirma a estratégia da Vale de reduzir a dependência do minério de ferro e capturar a tese global de transição energética, com cobre e níquel sendo insumos centrais pra eletrificação, baterias e redes inteligentes. Pra investidores que veem a Vale como aposta de longo prazo, esse é o número que justifica olhar pra empresa pra além do ciclo de minério.
Mesmo com os custos pressionados, o lado operacional do minério de ferro mostrou avanço. A produção subiu 3% na comparação anual no trimestre, com o sistema Norte mantendo o ritmo. O problema, portanto, não foi volume, foi a inflação dos custos: combustíveis, manutenção, royalties e impacto cambial em insumos importados.
Pra investidores que querem entender o setor antes de tomar decisão, vale a leitura do guia Como investir em Vale (VALE3): guia completo, que detalha os fundamentos da mineradora, a sazonalidade do negócio e os ciclos de preço do minério de ferro.
Na quarta-feira (29), primeiro pregão após o resultado, a VALE3 abriu em queda forte. Por volta das 10h45, o papel caía 4,9%, cotado a R$ 80,32, e ao longo do dia chegou a recuar quase 6%, fechando abaixo do patamar psicológico de R$ 80. O movimento empurrou o Ibovespa pra sexta queda seguida no acumulado da semana.
O cenário externo também não ajudou. As tensões geopolíticas envolvendo o conflito entre Estados Unidos e Irã pressionaram os preços de combustíveis e elevaram a aversão a risco, batendo justamente em commodities. A Vale, que já vinha sob suspeita de execução com a alta do C1, virou pivô de venda no índice.
O Itaú BBA divulgou relatório no mesmo dia classificando o tombo como exagerado. Segundo o banco, a queda abriu janela de entrada e a recomendação para o papel segue como outperform, com potencial de valorização superior a 20% nos próximos meses, ainda com possibilidade (mais distante) de dividendos extraordinários se o cenário de preços do minério se mantiver favorável no segundo semestre.
O 1T26 da Vale precisa ser lido dentro do contexto mais amplo das mineradoras globais. Concorrentes como BHP e Rio Tinto também enfrentam pressão de custos no ciclo atual, com inflação salarial nas operações australianas e sul-americanas, além de gastos crescentes com descomissionamento de barragens e licenciamento ambiental mais rigoroso.
Do lado da demanda, o minério de ferro segue dependente do humor da economia chinesa. As tarifas americanas anunciadas em 2025 e a desaceleração do setor imobiliário na China continuam sendo variáveis-chave pra projetar receita das mineradoras nos próximos trimestres. A Vale tem se posicionado pra capturar parte da demanda crescente da Índia e do Sudeste Asiático, mas o caminho ainda é longo.
Pra o investidor que acompanha o índice e quer entender como a Vale se posiciona dentro do universo das blue chips brasileiras, vale conferir as melhores ações do Ibovespa em 2026 e a análise das melhores ações para dividendos em 2026, listas que ajudam a contextualizar o papel dentro do bolso de quem busca exposição setorial.
Pros próximos meses, o mercado vai monitorar quatro pontos principais. Primeiro, a evolução do C1 nos próximos trimestres, especialmente se o câmbio e o Brent se moverem em direção contrária ao consenso. Segundo, a política de dividendos a ser anunciada nas próximas calls. Terceiro, eventuais sinalizações sobre desinvestimentos no portfólio de metais básicos, que vinham sendo discutidos com investidores estratégicos. E quarto, a evolução da dívida expandida e do cronograma das obrigações de Brumadinho e Samarco.
O balanço do 1T26 não foi um desastre, longe disso. Lucro 36% maior, EBITDA em alta de 21% e geração operacional de caixa três vezes maior que no ano passado são números que qualquer empresa gostaria de mostrar. O ponto é que o mercado já tinha esses ganhos precificados e queria mais: queria custos sob controle e queria sinal verde pra dividendos extraordinários. Sem isso, a tese ficou mais cinza, e a ação pagou o preço da expectativa frustrada.
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