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Tribunal derruba taxa sobre gigantes do petróleo no Brasil

Publicado em
9/4/2026
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Tribunal derruba taxa sobre gigantes do petróleo no Brasil
Tribunal derruba taxa sobre gigantes do petróleo no Brasil
Tribunal derruba taxa sobre gigantes do petróleo no Brasil

Uma liminar da Justiça Federal do Rio de Janeiro derrubou, na noite de quarta-feira (8), a cobrança do imposto de exportação de 12% sobre petróleo bruto criado pela Medida Provisória 1.340/2026. A decisão atende a um pedido de cinco petroleiras internacionais e coloca em xeque a principal fonte de financiamento do subsídio ao diesel do governo federal, estimada em R$ 30 bilhões.

O juiz federal Humberto de Vasconcelos Sampaio, da 1a Vara Federal do RJ, entendeu que a cobrança é irregular porque o governo transformou um tributo de natureza regulatória em instrumento "meramente arrecadatório". A liminar vale desde 12 de março, quando a MP entrou em vigor, e protege as empresas de qualquer penalidade retroativa.

Quais petroleiras foram beneficiadas pela liminar?

A decisão favorece cinco grandes operadoras estrangeiras com presença relevante na produção offshore brasileira: Shell, Equinor, TotalEnergies, Repsol Sinopec e Petrogal. Juntas, essas empresas respondem por uma fatia expressiva da produção no pré-sal e são grandes exportadoras de óleo cru a partir do Brasil.

A Petrobras, que é a maior exportadora de petróleo do país, não faz parte dessa ação específica. Mas a decisão abre precedente pra que a estatal e outras empresas do setor busquem o mesmo benefício na Justiça. E se isso acontecer, o rombo fiscal pode ser ainda maior do que o projetado.

O que é a MP 1.340 e por que ela foi criada?

Em março, com o barril de Brent acima de US$ 100 por conta da escalada militar entre EUA e Irã, o governo editou a MP 1.340/2026 pra segurar o preço do diesel no Brasil. O pacote tinha duas frentes: zerar os impostos federais sobre o combustível e criar um subsídio de até R$ 1,20 por litro de diesel importado.

Pra bancar tudo isso, o Ministério da Fazenda precisava de dinheiro novo. A saída foi instituir o imposto de exportação de 12% sobre petróleo bruto e 50% sobre diesel exportado. A conta fechava em R$ 30 bilhões: R$ 20 bilhões pra compensar a renúncia fiscal dos impostos zerados e R$ 10 bilhões pro subsídio direto.

A ideia era que o tributo também funcionasse como incentivo pra que as petroleiras mantivessem mais petróleo no mercado interno, em vez de exportar tudo. Mas as empresas não enxergaram dessa forma.

O argumento jurídico: regulação ou arrecadação?

O cerne da disputa jurídica é simples: o Imposto de Exportação existe na legislação brasileira como ferramenta de política comercial. Ele serve pra regular o fluxo de mercadorias, não pra encher o caixa do governo. Essa é a tese das petroleiras, e o juiz concordou.

Na decisão, o magistrado apontou que a alíquota de 12% e a forma como a MP foi estruturada transformaram o tributo em algo com "finalidade essencialmente fiscal", o que fere a Constituição. Ele também destacou que a cobrança imediata poderia causar "dano irreversível" às empresas, afetando a competitividade internacional e a capacidade financeira das companhias.

Esse argumento não é novo. Em 2023, o governo Lula já havia tentado algo parecido: um imposto de exportação de 9,2% sobre petróleo bruto. Na época, a Justiça Federal também barrou a cobrança, e o Tribunal Regional Federal confirmou a decisão em segunda instância. Ou seja, o precedente joga contra o governo.

Qual o impacto fiscal pro governo?

Se a liminar for mantida e outros players entrarem com ações semelhantes, o governo perde a principal fonte de financiamento do pacote do diesel. Estamos falando de R$ 30 bilhões que o Ministério da Fazenda já contava como receita certa.

Sem essa arrecadação, o governo fica num dilema complicado. Ou encontra outra fonte de receita pra bancar o subsídio, ou precisa rever a política de preços do diesel, o que tem custo político enorme. A equipe econômica do ministro Fernando Haddad deve recorrer da decisão, mas o histórico judicial não é animador pra União.

Vale lembrar que o pacote de combustíveis já somava R$ 30 bilhões em renúncia fiscal, segundo a CNN Brasil. Adicione a perda potencial do imposto de exportação e o buraco fiscal fica difícil de cobrir sem mexer em outras peças do orçamento.

O que muda pra quem investe no setor de petróleo?

Na quarta-feira (8), antes mesmo da liminar sair, o setor de petróleo na B3 já estava sob pressão. A Petrobras perdeu R$ 27,9 bilhões em valor de mercado num único pregão, com o Brent desabando mais de 15% em direção a US$ 90 o barril, depois que Trump adiou por duas semanas a ameaça de ataque à infraestrutura iraniana.

A liminar, por outro lado, é positiva pro setor. Se confirmada, elimina um custo pesado pras exportadoras e pode ser estendida a outras empresas. Pra quem acompanha PETR4 e as chamadas "junior oils" listadas na B3, o cenário ficou mais complexo: o preço do barril caiu forte, mas a carga tributária sobre exportação pode cair junto.

Na comunidade da Traders, os traders já estavam debatendo o impacto cruzado desses dois eventos desde ontem à noite. A combinação de petróleo em queda com alívio tributário cria um ambiente de incerteza que exige atenção redobrada na gestão de risco.

O que observar no pregão de hoje

Pro investidor que opera o setor de energia, alguns pontos merecem atenção nesta quinta-feira (9):

Primeiro, o Brent. O barril chegou a operar perto de US$ 90 ontem, uma queda brutal em relação aos US$ 105 da semana passada. Se o petróleo estabilizar nesse patamar ou recuar ainda mais, a receita das petroleiras cai, mesmo sem o imposto de exportação.

Segundo, a reação do governo. É quase certo que a Advocacia-Geral da União (AGU) vai recorrer. Se o tribunal suspender a liminar rapidamente, o alívio tributário dura pouco.

Terceiro, o efeito dominó jurídico. Se a Petrobras e outras operadoras nacionais entrarem com ações similares (e provavelmente vão), o imposto de exportação pode ser inviabilizado na prática, mesmo sem uma decisão definitiva do mérito.

O contexto geopolítico por trás de tudo

Essa história toda só existe por causa da guerra. O conflito entre EUA e Irã empurrou o petróleo pra cima de US$ 100 e forçou o governo brasileiro a agir rápido pra evitar que o diesel disparasse no posto. A carga tributária sobre exportação foi a solução encontrada, mas a Justiça está dizendo que não é assim que funciona.

A volatilidade do Brent nas últimas semanas mostra bem o tamanho do problema. De US$ 80 em fevereiro, o barril foi a US$ 105 em março e agora recua pra perto de US$ 90. Cada variação de US$ 10 no barril muda completamente a equação fiscal do governo e o resultado das petroleiras. É um cenário em que planejamento tributário e operação de mercado se misturam de forma perigosa.

Próximos passos

A liminar é provisória. O mérito da ação ainda precisa ser julgado, e o governo deve recorrer nos próximos dias. Mas o precedente de 2023, quando uma medida quase idêntica foi derrubada em segunda instância, sugere que a tese das petroleiras é juridicamente forte.

Pro investidor, o recado é claro: o setor de petróleo brasileiro está preso entre forças opostas. De um lado, a volatilidade geopolítica do barril. De outro, uma disputa tributária que pode durar meses. Acompanhar a evolução jurídica dessa liminar é tão importante quanto monitorar o preço do Brent.


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