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Tensão geopolítica arrasta Wall Street para o vermelho

Publicado em
23/3/2026
Tensão geopolítica arrasta Wall Street para o vermelho
Tensão geopolítica arrasta Wall Street para o vermelho
Tensão geopolítica arrasta Wall Street para o vermelho

O pregão desta segunda-feira (23) começou com pânico e terminou com alívio. O petróleo Brent, que chegou a bater US$ 109,68 no início do dia, despencou quase 9% e fechou na casa dos US$ 101,44 depois que Donald Trump anunciou uma pausa de cinco dias nos ataques à infraestrutura energética do Irã. Na mesma onda, os futuros de Wall Street, que operavam em forte queda de madrugada, viraram e subiram mais de 2%. O Dow Jones saltou 1.246 pontos no pré-mercado.

Pra quem acompanhou a abertura dos mercados asiáticos mais cedo, o cenário era de terra arrasada. O Nikkei 225 caiu 3,5%, o KOSPI da Coreia do Sul despencou 6,5% e o Hang Seng recuou 4%. O won sul-coreano bateu 1.510 por dólar, menor nível desde 2009. A Europa abriu no vermelho pesado, com o Stoxx 600 caindo 2% e o DAX acompanhando.

Aí veio a reviravolta.

O que Trump disse e por que os mercados viraram

Por volta das 9h (horário de Brasília), Trump publicou no Truth Social que teve "conversas muito boas e produtivas" com o Irã e ordenou a suspensão dos ataques contra usinas de energia iranianas por cinco dias. A mensagem mudou completamente o humor do mercado.

Os futuros do S&P 500 saltaram 2,7%. Os do Nasdaq 100 subiram 2,03%. Na Europa, o Stoxx 600 saiu de -2% pra +1,4% em questão de horas. O petróleo, que era a grande aposta de alta dos últimos dias, levou um tombo brutal.

Só que o cenário tá longe de ser claro. A mídia iraniana deu sinais contraditórios sobre a existência real dessas negociações. Parte da imprensa estatal confirmou contatos diplomáticos; outra parte negou qualquer conversa formal. O ultimato de 48 horas que Trump deu na sexta-feira (21) expira hoje à noite, às 20h44 (Brasília), e ninguém sabe o que acontece depois.

Como chegamos até aqui: 3 semanas de escalada

Pra entender a volatilidade absurda de hoje, é preciso voltar ao dia 28 de fevereiro. Foi quando EUA e Israel lançaram a Operação Epic Fury, com ataques coordenados a instalações militares e nucleares do Irã. O líder supremo Ali Khamenei foi morto no ataque.

A retaliação iraniana veio rápido. Entre 1 e 2 de março, mísseis e drones atingiram bases americanas, território israelense e estados do Golfo. O movimento mais impactante pro mercado financeiro veio em seguida: o Irã fechou o Estreito de Hormuz à navegação.

Por ali passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Com o bloqueio, o tráfego de navios-tanque caiu 70%. Mais de 150 navios ficaram ancorados na entrada do estreito sem conseguir passar. O Brent, que estava em US$ 72 no fim de fevereiro, disparou 48% em três semanas.

No dia 19 de março, um ataque iraniano atingiu uma instalação de GNL no Catar, elevando a crise a outro patamar. A Agência Internacional de Energia (IEA) classificou a situação como "o maior desafio de segurança energética global da história".

Linha do tempo dos últimos dias

Na sexta-feira (21), Trump deu um ultimato de 48 horas ao Irã: "reabra totalmente o Estreito de Hormuz ou eu destruo suas usinas de energia". No sábado (22), o Irã respondeu atacando duas cidades no sul de Israel, ferindo cerca de 180 pessoas, e ameaçou fechar completamente o Hormuz e atingir usinas de dessalinização no Golfo.

A expectativa pro domingo e segunda era de escalada total. O Pentágono preparava tropas terrestres. Os mercados asiáticos refletiram esse medo na abertura. Até que veio o post de Trump sinalizando diálogo.

O que aconteceu com o Ibovespa e o dólar

O Ibovespa vinha de quatro semanas consecutivas de queda. Na quinta-feira (20), o índice recuou 2,25% e fechou aos 176.219 pontos, menor patamar em dois meses. O dólar operava a R$ 5,256 na manhã de hoje, com alta de 0,23%.

A Petrobras é a grande protagonista nesse cenário. Com o petróleo acima de US$ 100 há mais de uma semana, os ADRs da estatal vinham subindo em Nova York. Mas o tombo do Brent hoje coloca pressão sobre o papel. É um dilema: petróleo alto beneficia a receita da empresa, mas prejudica o resto da economia e alimenta inflação.

Na comunidade da Traders, os traders estavam divididos. De manhã cedo, a maioria apostava em mais um dia de sangria. Depois do anúncio de Trump, o tom mudou pra cautela: alívio de curto prazo, mas ninguém confiando que a trégua vai durar.

Ouro cai junto: o paradoxo do porto seguro

Um dado que surpreendeu muita gente: o ouro não funcionou como proteção nessa crise. O metal precioso caiu 13% desde as máximas de fevereiro, quando bateu US$ 5.300, e na sexta operava perto de US$ 4.447.

Por que o ativo que deveria ser refúgio em tempos de guerra está caindo? Três motivos principais. Primeiro, o Fed adotou postura mais dura, sinalizando apenas um corte de juros pra todo 2026. Juros altos tiram atratividade de ativos que não pagam rendimento, como ouro. Segundo, o dólar se fortaleceu globalmente, com o DXY batendo 100,50. E terceiro, instituições estão vendendo ouro pra cobrir chamadas de margem em outras posições. É uma liquidação forçada, não uma mudança de tese.

Pra quem quer entender como esse cenário de juros afeta diferentes classes de ativos, vale conferir como a Selic afeta seus investimentos.

Quem ganhou e quem perdeu com a crise

Desde o início do conflito, alguns setores se destacaram. Ações de defesa como Northrop Grumman (+6% só hoje), RTX (Raytheon, +5%), L3Harris e General Dynamics acumulam altas expressivas. Produtoras de GNL como Cheniere Energy e Venture Global também dispararam, especialmente após o ataque à instalação do Catar.

Do outro lado, companhias aéreas foram as mais prejudicadas. Fechamento de espaço aéreo, rerouting de voos e combustível a preços recordes derrubaram o setor mais de 10%. Ações de tecnologia e growth também sofreram com a combinação de aversão a risco e expectativa de juros altos por mais tempo.

Quem opera nas bolsas americanas via BDRs sentiu o impacto nas duas direções. BDRs de petroleiras subiram; BDRs de techs caíram. O S&P 500 e o Nasdaq tinham fechado na quinta nos menores níveis desde setembro, apagando seis meses de ganhos.

O que esperar agora

Tudo depende das próximas horas. O ultimato de Trump expira esta noite. Se o Irã realmente estiver negociando, pode haver uma distensão gradual. Mas a história recente sugere cautela: cada sinal de trégua nas últimas três semanas foi seguido por nova escalada.

Os analistas estão de olho em três indicadores. Primeiro, o fluxo de navios no Estreito de Hormuz. Se começar a normalizar, o petróleo pode recuar pra faixa de US$ 85-90. Se não, o patamar de US$ 100+ vira o novo normal e a pressão inflacionária global aumenta. Segundo, a postura do Fed na ata da próxima reunião. Uma guerra prolongada com petróleo alto pode forçar o banco central americano a adiar cortes de juros indefinidamente. E terceiro, os fluxos de capital pra emergentes. Com o dólar forte e juros americanos altos, a tendência é de saída de recursos do Brasil.

O Morgan Stanley publicou hoje uma análise estimando que, se o conflito se prolongar por mais de 60 dias com o Hormuz parcialmente fechado, o crescimento global pode ser reduzido em 1,5 ponto percentual em 2026. A Schwab alertou que as ações globais já perderam 5,5% desde o início dos ataques, a pior performance mensal desde 2022.

Pra o investidor brasileiro, o cenário exige sangue frio. A volatilidade vai continuar alta enquanto o conflito não tiver desfecho claro. Posições em ativos ligados a petróleo e commodities oferecem proteção parcial, mas carregam risco de reversão brusca, como a que vimos hoje. Diversificação geográfica e setorial continua sendo a melhor defesa num ambiente onde até o ouro está falhando como porto seguro.


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