
A Suzano (SUZB3) publicou na noite desta quarta-feira (29) os números do primeiro trimestre de 2026 e o mercado não gostou do que viu. A maior produtora de celulose de eucalipto do mundo reportou lucro líquido de R$ 4,312 bilhões, uma queda de 32% na comparação com o mesmo período do ano passado. A receita líquida ficou em R$ 10,97 bilhões, recuo de 5% na base anual. E o número que mais incomodou os analistas: o EBITDA ajustado de R$ 4,58 bilhões, abaixo dos R$ 4,8 bilhões esperados pelo consenso.
O resultado operacional abaixo do esperado é a principal manchete do balanço. Mesmo com volume de vendas de celulose subindo 7% no ano (2,835 milhões de toneladas no trimestre), a combinação de dólar mais fraco e preço internacional da celulose pressionado segurou a geração de caixa. A margem EBITDA ficou em 42%, basicamente estável, mas o número absoluto não bateu a barra que o mercado tinha colocado.
Tem dois vetores principais por trás dessa decepção. O primeiro é o câmbio. O dólar médio do trimestre veio mais fraco que no 1T25, e como boa parte da receita da Suzano é dolarizada (a empresa exporta a maior parte da celulose que produz), a tradução pra reais machucou o topo da DRE. Quando o dólar cai, a Suzano vende a mesma quantidade de celulose, recebe os mesmos dólares, mas converte por menos reais. Simples assim.
O segundo vetor é o preço da celulose no mercado internacional. A fibra curta (BHKP), que é o produto carro-chefe da Suzano, segue sob pressão. O mercado global continua com excesso de oferta estrutural, principalmente por novas capacidades que entraram em operação na América Latina e na Ásia nos últimos dois anos. Sem demanda recuperando no mesmo ritmo, o preço fica preso num patamar mais baixo do que os últimos picos do ciclo.
Pra entender o impacto disso na demonstração de resultados da empresa, vale revisitar o conceito de DRE (Demonstração de Resultado): o que é e como funciona. É na DRE que aparece a sequência receita líquida, custos, despesas, EBITDA e, lá no fundo, lucro líquido. Cada linha conta uma história diferente, e no caso da Suzano fica claro que o problema do trimestre foi mais operacional do que financeiro.
Apesar do tom geral negativo, tem destaques operacionais positivos no balanço. As vendas de celulose somaram 2,835 milhões de toneladas, alta de 7% sobre o 1T25. A Suzano segue rodando com utilização alta de capacidade, e os primeiros volumes da nova fábrica de Ribas do Rio Pardo (MS) já começam a aparecer com mais força no mix. Em papel, a empresa também manteve volumes saudáveis no mercado interno.
O problema é que volume sem preço não vira lucro. O preço médio realizado da celulose caiu na comparação anual, e mesmo com a Suzano sendo uma das produtoras mais eficientes do mundo (custo caixa entre os menores do setor), a margem de manobra fica mais apertada quando o produto-base está em ciclo de baixa.
A alavancagem medida pelo dívida líquida sobre EBITDA dos últimos 12 meses ficou em torno de 3,3x, ainda dentro do conforto do management mas num patamar mais alto do que a empresa gostaria. A dívida líquida em dólares ficou estável, e a maior parte do passivo está em moeda forte, o que tem dois lados: protege quando o real desvaloriza (já que receita é dolarizada), mas pressiona quando o dólar derrete e a empresa ainda precisa fazer marcação do passivo.
O fluxo de caixa operacional veio sólido, e a Suzano segue gerando caixa pra honrar o capex de manutenção e os juros da dívida. O capex total do trimestre ficou dentro do guidance anual.
A reação do mercado foi rápida e dura. SUZB3 caiu 6,4% no pregão seguinte à divulgação do balanço, fechando abaixo dos R$ 50, num dia em que o Ibovespa estava em alta recorde. No acumulado da semana, a perda chegou a 7,26%, enquanto a maior parte do índice subia.
O grande catalisador da queda foi o relatório do Bank of America. O banco rebaixou a recomendação da ação de "compra" para "neutra" e cortou o preço-alvo. A casa também revisou pra baixo as projeções de EBITDA da Suzano para 2026, agora em R$ 21,376 bilhões (2,9% abaixo da estimativa anterior).
O ponto central da tese do BofA é a revisão da premissa de longo prazo do preço da fibra curta, de US$ 600/tonelada para US$ 500/tonelada. Pode parecer pouco, mas pra uma empresa que vende milhões de toneladas por ano, essa diferença vale alguns bilhões de receita anual. Outras casas de análise ainda mantinham visões mais otimistas, mas o relatório do BofA ligou um sinal amarelo no setor inteiro.
Vale lembrar que celulose é um setor cíclico clássico. O ciclo já passou pelo pico em 2022-2023 e agora está navegando a parte mais difícil da curva: oferta crescendo (novas fábricas entrando) com demanda na média histórica. Pra quem opera SUZB3, entender em que ponto do ciclo a gente está é mais importante do que olhar resultado tri a tri. E vale a pena passar pelo Checklist pré-operacional: o que verificar antes de operar antes de tomar posição direcional em ação que está com analistas em fluxo de revisão.
A Suzano não fez grandes alterações no guidance de produção e capex pra 2026. A empresa segue projetando volumes maiores no segundo semestre, com a fábrica de Ribas operando próximo da capacidade plena. O custo caixa, pilar da tese histórica, deve continuar entre os mais baixos do mundo, principalmente pela vantagem florestal e logística da Suzano.
O grande tema dos próximos trimestres é preço da celulose. Se o ciclo virar (o que costuma acontecer quando alguns players globais começam a anunciar paradas de manutenção estendidas ou redução de produção), o EBITDA da Suzano pode dar um pulo significativo, já que a empresa tem alavancagem operacional alta. Por outro lado, se o preço continuar pressionado por mais um ou dois trimestres, a tese de geração de caixa fica mais difícil de defender em níveis atuais de múltiplo.
Os próximos catalisadores que o mercado vai acompanhar de perto são: a divulgação dos preços de celulose anunciados pela empresa pra Ásia e Europa nos meses seguintes, eventuais paradas não programadas de concorrentes globais, e a evolução do dólar/real. Cada um desses vetores tem peso direto na linha do EBITDA do trimestre seguinte.
O setor de celulose como um todo está vivendo um momento de digestão. Klabin, Eldorado e outros players locais também devem reportar números mais fracos no 1T26 pelos mesmos motivos: preço internacional pressionado e câmbio adverso. Globalmente, gigantes como UPM (Finlândia) e Stora Enso já tinham antecipado, em seus resultados, que o trimestre seria desafiador.
O ponto positivo é que o setor de celulose tende a ser cíclico-curto. Não é raro o preço sair de US$ 500 pra US$ 700 por tonelada em poucos meses quando a demanda chinesa volta com força ou quando algum player anuncia parada de produção relevante. Mas é difícil cravar quando isso acontece, e a tese só funciona pra quem tem horizonte longo.
Pra quem acompanha SUZB3 na carteira ou pensa em entrar, o balanço do 1T26 é um lembrete de que a ação é exposta a dois vetores que o investidor brasileiro não controla: dólar e preço da celulose lá fora. Ferramentas como o Ibovespa e como funciona ajudam a contextualizar como uma ação de peso como Suzano se comporta em relação ao índice como um todo, especialmente em momentos em que o Ibovespa sobe e o papel cai isolado, como aconteceu nesta semana.
O resultado do 1T26 não muda a tese estrutural da Suzano: ainda é a maior e mais eficiente produtora de celulose de eucalipto do planeta, com vantagem competitiva de custo que poucos rivais conseguem replicar. O que muda é o timing. Quem esperava recuperação rápida do EBITDA em 2026 vai ter que ajustar expectativa, e isso ficou claro na precificação que o mercado deu nos últimos pregões.
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