
A Suzano (SUZB3) divulgou os números do primeiro trimestre de 2026 e a reação foi azeda. A maior produtora de celulose do mundo registrou lucro líquido de R$ 4,312 bilhões, queda de 32% em relação ao 1T25. A receita líquida somou R$ 10,9 bilhões, recuo de 5% no comparativo anual e de 18% frente ao 4T25. O destaque negativo, na leitura da XP Investimentos, foi o EBITDA ajustado de R$ 4,58 bilhões, cerca de 5% abaixo do consenso de mercado.
O resultado consolidou o tom cauteloso que já vinha rondando o setor de celulose. Custos mais altos, geração de caixa negativa e falta de gatilhos claros pra destravar valor no curto prazo formaram o trio que fez o mercado ajustar projeções. O BofA cortou o preço-alvo de SUZB3 de R$ 82 pra R$ 57, uma redução de R$ 25 por ação, e rebaixou a recomendação pra neutra. A ação chegou a entrar em leilão na sessão seguinte e fechou em queda de 6,4%, abaixo dos R$ 50, mesmo com o Ibovespa em alta recorde.
Vamos abrir os números por partes. O lucro líquido de R$ 4,312 bilhões foi pressionado principalmente pelo câmbio. A valorização do real frente ao dólar diminuiu a tradução de receitas em moeda forte e ainda mexeu com o resultado financeiro, já que a Suzano carrega parcela relevante da dívida em dólar.
A receita líquida de R$ 10,9 bilhões caiu 5% no ano e 18% no trimestre. O recuo sequencial foi puxado pelo volume. As vendas totais somaram 2,835 milhões de toneladas, queda de 17% em relação ao 4T25, mesmo com alta de 7% na comparação anual. Em outras palavras, a empresa vendeu menos celulose que no trimestre cheio anterior, mas continua maior que há um ano.
O EBITDA ajustado de R$ 4,58 bilhões caiu 6% no comparativo anual e 18% sequencial. A margem EBITDA ficou em 42%, número saudável pro padrão da indústria, mas abaixo do que os analistas projetavam. Pra entender por que esse indicador é tão observado em empresas de capital intensivo, vale conferir o guia EBITDA: o que é e como funciona.
A leitura da XP foi direta. O EBITDA decepcionou e três pontos sustentam a tese.
O primeiro é custo caixa. A celulose ainda traz preço internacional firme, mas os custos de produção subiram além do esperado e comprimiram a margem operacional. Isso aparece com clareza quando se compara o EBITDA por tonelada do 1T26 com o do trimestre anterior.
O segundo ponto é o fluxo de caixa livre negativo. A Suzano queimou caixa no trimestre, em parte porque o capex chegou perto de R$ 3 bilhões no período. Boa parte foi destinada a projetos estratégicos como o Cerrado e a investimentos de manutenção. O efeito imediato é menos espaço pra dividendos e pra desalavancagem.
O terceiro ponto é a alavancagem. A relação Dívida Líquida / EBITDA: o que é e como funciona ficou em 3,2x, patamar elevado pra histórico da companhia. Pra contexto, a Suzano historicamente operou com alavancagem entre 2x e 3x, e o número atual deixa pouca folga pra novos projetos sem mais emissão de dívida ou venda de ativos.
O resultado caiu pesado nas mesas de research. O BofA foi o mais agressivo, cortando o preço-alvo em R$ 25 e rebaixando a recomendação pra neutra. O BTG Pactual escreveu que o conjunto de números é "fraco" e não deve ajudar a reverter o sentimento negativo recente com a ação. A XP, mesmo com o EBITDA abaixo do esperado, manteve recomendação de Compra com preço-alvo de R$ 66 pro fim de 2026, argumentando que o valuation já está comprimido demais pra um nome de qualidade global.
SUZB3 entrou em leilão no pregão seguinte ao balanço e fechou em queda de 6,4%. Em meio a um Ibovespa renovando máximas, a ação ficou abaixo de R$ 50 e sublinhou o descompasso entre o papel e o índice.
Mesmo com os números fracos, parte do mercado vê valuation atraente. A XP trabalha com EV/EBITDA 2026E de 6,1x e P/E 2026E de 8,8x. Outras casas trabalham com EV/EBITDA próximo de 5x, considerado historicamente baixo pra Suzano.
Pra entender por que esse múltiplo é tão usado em empresas de commodities e capital intensivo, dá uma olhada no guia EV/EBITDA: o que é e como funciona. A leitura curta é que esse indicador compara o valor da empresa (incluindo dívida) com sua geração operacional, removendo distorções contábeis e diferenças de estrutura de capital. Em ciclos pressionados, costuma cair junto com o sentimento.
Outro recado claro do balanço foi o de prioridades. A Suzano vai focar em desalavancagem e em investimentos. Isso significa que a remuneração ao acionista, via dividendos ou recompras, pode sair do radar no curto prazo. Pra quem comprou SUZB3 buscando renda, o cenário muda. Pra quem está no papel pela tese estrutural de celulose como commodity estratégica, o foco passa a ser execução do Cerrado e geração de caixa nos próximos trimestres.
A indústria de celulose de mercado vive um momento ambíguo. De um lado, o preço internacional segue firme, sustentado pela demanda chinesa e por oferta limitada. De outro, a oferta global vai aumentar nos próximos trimestres com a entrada plena do projeto Cerrado e capacidade nova em outros produtores. O efeito esperado é estabilização ou queda de preços ao longo de 2026.
Pras empresas brasileiras, o câmbio é o outro vetor. Suzano, Klabin e Irani vendem majoritariamente em dólar e têm custos em real. Quando o real se valoriza, como aconteceu no 1T26, a margem comprime mesmo sem mexer em preço internacional ou volume.
Os próximos catalisadores pra SUZB3 são bem definidos. O primeiro é execução do Cerrado, com ramp-up completo, custo de produção ajustado e contribuição efetiva pro EBITDA. O segundo é o preço da celulose na China, principal mercado consumidor. O terceiro é o câmbio, já que qualquer movimento do real frente ao dólar mexe diretamente na margem operacional.
O calendário também importa. A divulgação do 2T26 vai ser o primeiro teste real depois desse balanço fraco. Pra acompanhar o cronograma de balanços e saber o que olhar em cada release, vale o guia Temporada de resultados: como acompanhar earnings e operar.
A foto do 1T26 é desconfortável. Lucro caindo 32%, EBITDA abaixo do consenso, fluxo de caixa negativo, alavancagem em 3,2x e cortes de preço-alvo. O filme é mais nuancado. A Suzano negocia em múltiplos comprimidos, tem o maior projeto de celulose do mundo entrando em operação plena e mantém posição de liderança global. Pra quem opera no curto prazo, os gatilhos negativos pesam. Pra quem olha 24 ou 36 meses, o EV/EBITDA na casa de 5x a 6x começa a entrar no radar de valuation.
O recado do balanço é direto. O pior pode estar no preço, mas a recuperação depende de execução nos próximos trimestres e de um ciclo mais favorável de celulose e câmbio.
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