
A Suzano (SUZB3) divulgou nesta quinta-feira o balanço do primeiro trimestre de 2026 e o resultado veio com cara de paradoxo: a maior produtora mundial de celulose de eucalipto bateu recorde histórico em vendas, mas viu o lucro líquido recuar 32% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram R$ 4,312 bilhões de lucro, contra R$ 6,3 bilhões no 1T25, com a receita líquida caindo 5%, para R$ 10,97 bilhões.
O culpado principal não tem segredo: o câmbio. A valorização do real frente ao dólar ao longo do trimestre encolheu o valor das vendas em moeda local, mesmo com a empresa entregando volumes operacionais que, em qualquer cenário cambial diferente, teriam virado lucro recorde. Para uma exportadora pesada como a Suzano, dólar mais fraco bate direto na linha de cima do balanço.
Os números operacionais da Suzano no 1T26 foram, de fato, fortes. As vendas de celulose somaram 2,835 milhões de toneladas, alta de 7% na comparação anual, marcando um recorde para o trimestre. Esse volume é resultado direto do projeto Cerrado, a nova fábrica em Ribas do Rio Pardo (MS) que adicionou 2,55 milhões de toneladas anuais à capacidade da empresa e segue em rampa de produção.
O custo caixa de produção de celulose ficou em R$ 802 por tonelada, queda de 7% na base anual. Para entender por que esse número importa: cada R$ 50 a menos no custo caixa por tonelada, multiplicado por mais de 11 milhões de toneladas anuais, vira mais de meio bilhão de reais em margem. A Suzano segue como uma das produtoras mais eficientes do mundo em termos de custo, e isso se traduz em margem operacional resiliente mesmo quando o preço da celulose oscila.
Já o segmento de papel teve performance mais discreta. O volume foi de 378 mil toneladas, queda de 3% sobre o 1T25, refletindo demanda mais fraca em algumas linhas e calendário de manutenção. O papel representa fatia menor da receita, mas tem margem mais alta e estabilidade maior que a celulose, então oscilações nesse segmento mexem menos com o resultado consolidado.
O EBITDA ajustado da Suzano no trimestre foi de R$ 4,58 bilhões, queda de 6% na comparação anual. A margem EBITDA se manteve em 42%, nível considerado saudável para uma empresa de commodities. Esse é o número que separa o discurso fácil ("lucro caiu 32%, é desastre") da realidade operacional: a geração de caixa operacional caiu bem menos que o lucro líquido porque boa parte do impacto veio de itens não caixa, principalmente variação cambial sobre a dívida em dólar.
Vale lembrar como funciona o efeito cambial na Suzano. A empresa tem grande parcela da dívida em dólar (porque a receita também é majoritariamente dolarizada). Quando o real se valoriza, o passivo em dólar diminui em reais, gerando ganho contábil. Mas quando o real desvaloriza e depois volta, ou quando há volatilidade alta, o resultado financeiro fica balançado e leva o lucro líquido junto. No 1T26 o efeito foi negativo no comparativo anual e isso explica boa parte da queda de 32%.
Mais do que o lucro, o número que dominou as conversas no call de resultados foi a alavancagem. A relação dívida líquida sobre EBITDA em dólar fechou o trimestre em 3,3 vezes, patamar que o mercado considera elevado para o histórico da empresa. Essa alavancagem maior é fruto de uma combinação de fatores: o capex pesado do Cerrado, a aquisição de ativos da Kimberly-Clark (KC) anunciada em 2025, e geração de caixa pressionada pelo câmbio.
O recado da gestão foi claro: nos próximos trimestres, a prioridade da Suzano vai ser desalavancar o balanço, e isso significa que dividendos extraordinários e recompras de ações ficam em segundo plano. Para quem investe em SUZB3 esperando proventos gordos, a mensagem é "espera aí". Os pagamentos ordinários seguem, mas distribuições mais generosas só voltam quando a alavancagem voltar para a faixa de 2,5x a 3,0x EBITDA.
A ação SUZB3 vinha de uma sequência fraca antes do balanço. Nos últimos 12 meses, o papel acumula queda de mais de 10%, sendo negociado na faixa dos R$ 44, contra os R$ 51 do início do ano. O mercado já vinha precificando a deterioração de margens e a alavancagem mais alta, então o resultado em si não foi um choque, mas a comunicação sobre dividendos pesou no humor.
Em termos de valuation, a Suzano segue em múltiplos descontados em relação à média histórica. O EV/EBITDA estimado para 2026 está em 6,1 vezes, contra média histórica próxima de 7,0 vezes. O P/E projetado é de 8,8 vezes e o FCF yield (rendimento do fluxo de caixa livre) varia entre 10,9% e 11,9% dependendo do cenário. Em outras palavras: a ação tá barata em relação ao próprio passado, mas o mercado quer ver desalavancagem entregue antes de pagar mais.
Quem acompanha as Melhores ações do Ibovespa em 2026 sabe que SUZB3 sempre aparece nas listas de papéis cíclicos com potencial, justamente por essa combinação de eficiência operacional e exposição a um ativo global (celulose).
O grande motor de transformação da Suzano segue sendo o projeto Cerrado. Com a fábrica de Ribas do Rio Pardo já operando em rampa, a expectativa é de que o capex normalize gradualmente, caindo de R$ 10,9 bilhões em 2026 para algo próximo de R$ 9,4 bilhões nos anos seguintes. Esse alívio no investimento, combinado com volumes maiores e custo caixa em queda, deve recompor a geração de caixa livre da companhia.
A aquisição dos ativos de tissue da Kimberly-Clark adiciona outra camada à tese. A operação dá à Suzano presença direta em produtos de consumo (papel higiênico, lenços, guardanapos), com sinergias estimadas e diversificação que reduz a dependência da volatilidade da celulose comoditizada. Mas também aumenta a complexidade operacional e a dívida no curto prazo.
O cenário global de celulose em 2026 segue marcado por demanda firme da China, que é o maior consumidor mundial. Os preços em dólar da celulose de fibra curta (BHKP) se mantêm em patamares saudáveis para os produtores de baixo custo, e a Suzano se enquadra nesse grupo. Concorrentes globais como a chilena Arauco e a finlandesa UPM seguem com expansões mais modestas, o que limita pressão de oferta nos próximos anos.
Por outro lado, o setor enfrenta o desafio estrutural da transição energética. Empresas de celulose têm vantagem ESG natural por usarem florestas plantadas como matéria-prima renovável, mas também precisam continuar investindo em descarbonização das fábricas para manter o premium de sustentabilidade junto aos clientes europeus.
Para investidores que buscam exposição a setores cíclicos brasileiros, vale conferir o panorama dos Melhores setores para investir em 2026, onde commodities aparecem como classe de ativos relevante na alocação. Quem está começando agora pode também olhar o guia de Melhor investimento para iniciantes em 2026 para entender como ações de empresas exportadoras se encaixam numa carteira diversificada.
O segundo trimestre de 2026 deve trazer continuidade do esforço de desalavancagem, com a Suzano provavelmente buscando refinanciar parte da dívida em dólar e usando geração de caixa operacional para amortizar passivo. A diretoria sinalizou que não pretende fazer follow-on (oferta de ações), o que descarta diluição dos atuais acionistas.
Catalisadores no radar incluem a continuidade da rampa do Cerrado (que ainda tem espaço para ganhos de produtividade), a evolução dos preços internacionais da celulose e a integração dos ativos da Kimberly-Clark. Do lado de risco, qualquer movimento brusco do dólar para baixo continua sendo o maior fator de pressão sobre o resultado financeiro consolidado.
O 1T26 da Suzano mostrou uma empresa operacionalmente forte, com volumes recordes e custo competitivo, mas com balanço que ainda precisa ser arrumado. Para o investidor de longo prazo, o desafio é avaliar se o desconto atual no múltiplo compensa a espera pela normalização da alavancagem e pela retomada de proventos mais robustos. Para o trader de curto prazo, a ação tende a continuar reativa às variações do câmbio e dos preços spot da celulose nos próximos meses.
Sources: - [Suzano (SUZB3) tem lucro líquido de R$ 4,3 bi no 1º trimestre - InfoMoney](https://www.infomoney.com.br/mercados/suzano-suzb3-resultados-primeiro-trimestre-2026/) - [Suzano (SUZB3) tem lucro caindo 32% - Money Times](https://www.moneytimes.com.br/suzano-suzb3-tem-lucro-caindo-32-para-r-43-bilhoes-com-impacto-do-cambio-vtra/) - [Suzano (SUZB3) registra EBITDA de R$ 4,6 bi no 1T26 - Visno Invest](https://visnoinvest.com.br/news/12851/suzano-suzb3-registra-ebitda-de-r-46-bi-no-1t26) - [Suzano (SUZB3) foca em desalavancagem - Money Times](https://www.moneytimes.com.br/suzano-suzb3-foca-em-desalavancagem-e-dividendos-podem-ficar-de-lado-vtra/)Aviso Legal
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