
O Banco do Brasil (BBAS3) pode entregar um resultado bem abaixo do que o mercado espera no primeiro trimestre de 2026. É o que aponta relatório do BTG Pactual (BPAC11), publicado em 15 de abril, que projeta lucro líquido entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões no 1T26. Se confirmado, o número ficaria entre 15% e 30% abaixo do consenso dos analistas.
A equipe liderada por Eduardo Rosman cortou o preço-alvo da ação de R$ 30 para R$ 24 e manteve recomendação neutra. O mercado reagiu imediatamente: BBAS3 caiu 3,11% no dia, fechando a R$ 24,59.
O cenário traçado pelo BTG é de deterioração sequencial. Os analistas projetam queda de cerca de 20% no lucro antes dos impostos na comparação com o 4T25, trimestre em que o BB havia surpreendido positivamente com lucro ajustado de R$ 5,74 bilhões.
A expectativa é que as provisões permaneçam em patamar elevado, com custo de crédito ficando "bem acima" da média trimestral de aproximadamente R$ 14 bilhões implícita no guidance do banco. É um sinal de que a inadimplência, especialmente no agronegócio, continua pesando sobre a carteira.
Na leitura do BTG, o problema do BB deixou de ser meramente cíclico e ganhou dimensões estruturais. "A recuperação do agronegócio pode levar tempo e se estabelecer sob condições mais fracas", escreveram os analistas no relatório. Ou seja, mesmo quando a situação melhorar, o patamar de rentabilidade pode não voltar ao que era.
Pra entender por que o BB está sofrendo, é preciso olhar pra composição da sua carteira de crédito. No 4T25, o crédito rural representou 56% do risco total do banco. É uma concentração enorme, e quando o agro vai mal, o impacto é desproporcional.
No último trimestre divulgado, a inadimplência acima de 90 dias na carteira agro chegou a 6,09%, alta de 125 pontos-base em relação ao trimestre anterior. A inadimplência geral do banco subiu pra 5,17%, avanço de 66 pontos-base no período.
O que aconteceu? Uma combinação de fatores. Produtores rurais que entraram no mercado durante o boom da soja, os chamados "aventureiros", agora recorrem a recuperação judicial sem grande preocupação em perder acesso a crédito. O próprio BB reconheceu que demorou a perceber que suas garantias não eram tão robustas quanto imaginava.
As provisões (PDD) saltaram 86,9% no comparativo anual do 4T25, engolindo boa parte do resultado operacional. É como se o banco estivesse correndo numa esteira: a receita entra, mas sai pelo ralo das provisões.
O ano de 2025 foi pesado pro Banco do Brasil. O lucro líquido ajustado anual ficou em R$ 20,68 bilhões, uma queda de 45,4% em relação aos R$ 37,9 bilhões de 2024. A margem financeira bruta recuou 0,8%, pra R$ 103,1 bilhões, enquanto o custo do crédito disparou pra R$ 61,9 bilhões.
O ROE (retorno sobre patrimônio), que era de 20,8% em 2024, despencou. No 4T25, ficou em 12,4%. Analistas já apontam que a era do ROE de 20% do BB ficou pra trás e pode não voltar.
No 4T25 especificamente, o lucro de R$ 5,74 bilhões surpreendeu positivamente (51% acima do esperado), mas caiu 40,1% na comparação anual. O resultado veio melhor que o 3T25 (+51,7%), o que gerou algum otimismo. Mas o BTG agora joga água fria nessa expectativa de recuperação linear. Para o BTG, a evolução favorável da formação de inadimplência, que deve cair de R$ 24,5 bilhões no 4T25 pra cerca de R$ 20 bilhões no 1T26, ocorre por normalização no segmento corporativo, não por melhora real no agro.
O BB divulgou guidance pra 2026 prevendo lucro líquido ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, o que representaria crescimento de 15% a 26% sobre 2025. A carteira de crédito total deve crescer entre 0,5% e 4,5%, com destaque negativo pro agro (projeção de -2% a +2%) e empresas (-3% a +1%). Já pessoas físicas devem avançar de 6% a 10%.
A margem financeira bruta tem projeção de crescimento de 4% a 8%, e o custo do crédito (PCLD) está estimado entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões. É justamente nesse ponto que o BTG discorda. Os analistas consideram o guidance otimista demais e veem "riscos significativos de revisão para baixo nas projeções, no consenso e nas orientações".
O argumento faz sentido quando se analisa a DRE (Demonstração de Resultado) do banco nos últimos trimestres. Se o custo de crédito trimestral ficar acima de R$ 15 bilhões no 1T26, como o BTG sugere, atingir o piso do guidance anual de R$ 22 bilhões em lucro exigiria uma melhora significativa nos trimestres seguintes.
Além do agro, o BTG aponta dois fatores de risco que podem contaminar o 2T26: o aumento nos custos de diesel e a pressão do câmbio. Produtores rurais têm custos denominados em dólar (defensivos, fertilizantes) e receitas em reais, o que piora quando o real se desvaloriza.
Outro ponto é que a ação já negocia a cerca de 0,8 vez o valor patrimonial. É um desconto relevante em relação ao histórico do banco, mas o BTG argumenta que pode ser justificado se o ROE permanecer comprimido. Um banco que entrega ROE de 10% a 12% simplesmente não justifica múltiplos de pares que entregam 15% ou mais.
A XP, em relatório separado, reforça a cautela. A corretora classificou a recuperação do BB como "uma maratona, não um sprint", sugerindo que a paciência dos investidores será testada ao longo de 2026.
Nos últimos 12 meses, BBAS3 acumula queda de 9% a 13%, dependendo da janela. A ação oscilou entre R$ 18,12 e R$ 30,04 no período, uma amplitude que reflete a incerteza do mercado sobre a tese.
No setor bancário brasileiro, o BB se destaca negativamente. Enquanto Itaú e Bradesco navegam a alta de juros com carteiras mais diversificadas e menor exposição ao agro, o Banco do Brasil carrega essa concentração como um fardo.
O dividend yield dos últimos 12 meses ficou em 3,27%, com R$ 1,18 por ação distribuídos. É um rendimento modesto pra quem se acostumou com os dividendos gordos dos anos anteriores, quando o ROE de 20% permitia distribuições generosas.
O consenso de 13 analistas aponta preço-alvo médio de R$ 26,02, mas o range é amplo: de R$ 20 (os mais pessimistas) a R$ 39 (os mais otimistas). Essa dispersão por si só já mostra que não há concordância sobre o futuro do banco.
O primeiro semestre de 2026 ainda deve ser fortemente impactado por provisões elevadas. O ponto de inflexão, se vier, provavelmente será no 2T26. É o trimestre que vai mostrar se a inadimplência no agro realmente estabilizou ou se o BB precisa provisionar ainda mais.
Investidores devem ficar atentos a alguns indicadores-chave na divulgação do 1T26: a formação de inadimplência (NFLs), o custo de crédito por trimestre versus a média implícita do guidance, e qualquer sinalização da diretoria sobre revisão das projeções. Se o banco mantiver o guidance mesmo com números fracos, será um sinal de que a administração ainda acredita na recuperação do segundo semestre.
Pra quem acompanha o setor, a dinâmica do controle emocional é fundamental num momento como esse. A tentação de comprar na baixa é grande quando se olha pro desconto em relação ao valor patrimonial, mas os fundamentos precisam confirmar a tese antes de qualquer decisão.
O cenário do Banco do Brasil é, acima de tudo, uma história de concentração de risco. Um banco que apostou pesado no agro colhe os frutos quando o setor vai bem e paga o preço quando as safras decepcionam. A questão que fica é se o mercado já precificou o pior ou se ainda há espaço pra mais deterioração. O 1T26 vai dar pistas importantes.
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