
O Assaí (ASAI3) abriu a temporada de balanços do varejo brasileiro com um resultado que decepcionou o mercado. A rede de atacarejo do grupo Sendas reportou lucro líquido de R$ 86 milhões no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 46,7% na comparação com o mesmo período de 2025. As ações reagiram mal: ASAI3 desabou 6,47% no pregão desta terça-feira (28), fechando a R$ 8,96 e devolvendo o que tinha conquistado nos últimos pregões.
A receita líquida ficou em R$ 18,64 bilhões, alta de apenas 0,5% sobre o 1T25. O EBITDA ajustado somou R$ 1,025 bilhão, praticamente estável (+0,3%), com margem de 5,5%. Para piorar, ambos os números ficaram abaixo do consenso da Refinitiv: analistas esperavam EBITDA de R$ 1,39 bilhão e receita de R$ 18,95 bilhões. Foi um miss duplo, e o mercado cobrou na hora.
O número cheio assusta, mas precisa de contexto. A queda de 47% no lucro tem um efeito comparativo: o 1T25 foi inflado por créditos extraordinários de PIS/Cofins que entraram na linha financeira. Quando se isola esse efeito não recorrente, a história fica menos dramática. O lucro líquido recorrente cresceu 7% no ano, para R$ 174 milhões. E se forem considerados novos créditos tributários reconhecidos no trimestre, o resultado contábil sobe para R$ 367 milhões.
Mesmo com a leitura mais favorável, a operação não convenceu. O grande problema do Assaí no 1T26 foi a vendas mesmas lojas (same store sales), indicador que mede o desempenho de unidades já maduras. O número caiu 0,9% no trimestre, mostrando que, descontadas as inaugurações, a rede vendeu menos do que vendia um ano antes. Para uma operação que vive de giro e escala, é um sinal amarelo.
Dois ventos contrários explicam boa parte do tropeço. O primeiro é a deflação nos itens básicos da cesta, especialmente arroz, feijão, açúcar e óleo, que caíram cerca de 12% nos últimos doze meses. Atacarejo opera com margem apertadíssima e volume gigante; quando o preço unitário cai, o tíquete médio encolhe e a receita não acompanha o aumento de fluxo nas lojas. A empresa vende mais quilos de comida, mas fatura menos reais por carrinho.
O segundo fator é mais curioso e diz muito sobre o momento do consumo no Brasil: o avanço das canetas emagrecedoras (semaglutida e tirzepatida) começou a impactar o consumo de alimentos calóricos básicos entre as classes de maior poder aquisitivo, enquanto o endividamento elevado das famílias de baixa renda aperta o ticket dos clientes do core do Assaí. É um sanduíche estranho: o consumidor de cima come menos e o de baixo não tem dinheiro pra encher o carrinho.
Nem tudo foi ruim. A linha mais comemorada pela companhia foi a desalavancagem. A relação dívida líquida sobre EBITDA caiu de 3,15x para 2,52x em doze meses, o menor patamar desde o fim de 2021. A dívida líquida absoluta ficou em R$ 11,5 bilhões. Esse é um movimento estratégico relevante: o Assaí passou os últimos três anos digerindo a aquisição das lojas do antigo Extra, e a redução do endividamento mostra que a companhia voltou a gerar caixa de forma consistente.
A margem bruta também avançou 0,3 ponto percentual, para 16,7%, sinalizando que a empresa está conseguindo defender preço mesmo no cenário deflacionário, possivelmente via mix de produtos e marca própria. Para investidores que olham a tese de longo prazo, esses são os números que importam mais do que o lucro contábil ruído por crédito tributário. Quem investe via Fundo de Ações: o que é e como funciona em geral pondera esse tipo de leitura na hora de decidir se mantém ou reduz posição.
A leitura do mercado foi clara: o operacional ainda preocupa mais do que a desalavancagem anima. ASAI3 abriu o pregão em queda e foi acelerando ao longo do dia, fechando a R$ 8,96, o pior nível em duas semanas. O volume financeiro foi 30% acima da média dos últimos vinte pregões, indicando que houve realização forte por parte de fundos institucionais.
No ano, a ação acumula queda próxima de 18%, performando pior que o Ibovespa e que outros pares do varejo alimentar. Em termos de múltiplos, ASAI3 negocia agora a um P/L (Preço/Lucro): o que é e como funciona bem abaixo da média histórica, o que pode atrair investidores de valor. Mas, como o próprio mercado mostrou hoje, múltiplo barato sem catalisador positivo costuma ficar barato por mais tempo do que se imagina.
O guidance da companhia foi mantido. O Assaí continua projetando abertura de 15 a 20 novas lojas em 2026 e crescimento de receita de um dígito médio. A administração indicou que o segundo trimestre deve mostrar melhora gradual no same store sales, conforme o efeito comparativo da deflação dos básicos perde força e a base de comparação fica mais branda.
Os próximos catalisadores no radar são a divulgação do 2T26 em agosto, a evolução da curva de juros (atacarejo é altamente sensível ao custo da dívida) e o comportamento do consumo nas classes C e D, que respondem por mais de 60% do faturamento da rede. Eventos como o pagamento do 13º no segundo semestre e a temporada de festas podem virar o jogo.
O resultado do Assaí precisa ser lido junto com o do setor. O Atacadão (CRFB3), principal rival, também tem mostrado pressão em margens e same store sales nos últimos balanços, e o Carrefour Brasil está em meio a um turnaround complexo. O Grupo Mateus (GMAT3) tem sido a exceção positiva, com forte crescimento via expansão geográfica no Norte e Nordeste.
O macro também não ajuda. Com a Selic ainda em patamar elevado e o consumo das famílias mostrando sinais de fadiga, o segmento de cash and carry vive um teste de resiliência. Companhias com balanço forte e disciplina de capital tendem a sair fortalecidas dessa fase, e o Assaí parece estar se posicionando para isso, mesmo que o trimestre tenha sido decepcionante.
Para investidores que acompanham a temporada de balanços, vale ficar de olho em outros papéis do varejo nas próximas semanas. Quem monta carteira temática pode encontrar leituras úteis em Melhores ações do Ibovespa em 2026 e em Melhores ações para dividendos em 2026, que ajudam a contextualizar o momento de cada nome do setor.
O recado do 1T26 do Assaí é direto: a tese estrutural segue de pé, mas a operação ainda precisa provar que consegue crescer mesmo com deflação dos básicos e consumidor apertado. Até lá, ASAI3 deve seguir refém do humor de curto prazo do mercado e da próxima divulgação trimestral.
Sources: - [Assaí (ASAI3) lucra R$ 86 milhões no 1º trimestre de 2026 - InfoMoney](https://www.infomoney.com.br/mercados/assai-asai3-resultados-primeiro-trimestre-2026/) - [Assaí (ASAI3) recua mais de 6% após queda no lucro do 1T26 - Suno](https://www.suno.com.br/noticias/assai-asai3-recua-mais-5-apos-queda-lucro-1t26-go/) - [Assaí (ASAI3) tem queda de 47% no lucro no 1T26 - Money Times](https://www.moneytimes.com.br/assai-asai3-tem-queda-de-47-no-lucro-no-1t26-a-r-86-milhoes/) - [Assaí lucra R$ 86 milhões no 1T26, queda de 46,7% - ADVFN](https://br.advfn.com/jornal/2026/04/assai-lucra-r-86-milhoes-no-1t26-queda-de-46-7-mas-resultado-recorrente-cresce)Aviso Legal
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