
As ações do Assaí (ASAI3) despencaram 8,86% na B3 nesta quarta-feira (16), fechando cotadas a R$ 9,26, depois que a Receita Federal notificou cerca de 3 mil empresas do varejo alimentar por inconsistências no uso de créditos de PIS/Cofins. O movimento arrastou o setor inteiro: o Grupo Mateus (GMAT3) também recuou 4,96% no mesmo pregão.
No total, a operação da Receita coloca sob questionamento até R$ 10 bilhões em créditos tributários do setor. Pra ASAI3, a conta pode ser particularmente salgada. Segundo estimativas do BTG Pactual e do JPMorgan, o impacto potencial sobre o Assaí varia entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão em valor presente líquido, o que representa algo entre 8% e 9% do valor de mercado da companhia.
O problema é técnico, mas o efeito é brutal. A Receita identificou que varejistas alimentares vinham tomando créditos de PIS/Cofins em situações nas quais esses tributos sequer foram recolhidos na etapa anterior da cadeia produtiva. Isso acontece, por exemplo, com produtos que têm alíquota zero ou que são tributados de forma concentrada a montante, como bebidas e itens de higiene.
Na prática, essas empresas geravam créditos fiscais sem respaldo legal. A Receita Federal detectou mais de 55 mil pedidos de ressarcimento e compensação com essas irregularidades. É uma operação em escala: 2.959 empresas foram notificadas, mas os holofotes se voltaram com mais intensidade pro Assaí e pro Grupo Mateus, que são os maiores nomes listados na B3 dentro do segmento de atacarejo.
O órgão deu um prazo até 30 de junho de 2026 pra que as empresas revisem e regularizem suas informações. A ideia é estimular a autorregularização antes de partir pra medidas punitivas.
Entre as companhias abertas do setor, o Assaí aparece como o nome mais exposto ao risco. O BTG Pactual estimava que a empresa teria potencial de monetização de créditos tributários na casa de R$ 1,5 bilhão, valor que agora entra em xeque. Se a Receita Federal determinar que parte relevante desses créditos é irregular, o efeito cascata sobre o balanço pode ser significativo.
O impacto estimado de R$ 1 bilhão a R$ 1,2 bilhão em valor presente líquido é preocupante pra uma empresa que vale cerca de R$ 12 bilhões na bolsa. Ou seja, estamos falando de uma erosão potencial que consome quase um décimo do market cap inteiro. Pra quem acompanha risco sistêmico vs específico e como proteger investimentos, esse é um caso clássico de risco regulatório concentrado num único setor.
Já o Grupo Mateus (GMAT3) é considerado contabilmente ainda mais delicado em alguns aspectos, porque já havia reconhecido parte desses créditos diretamente no resultado operacional. Se houver reversão, o impacto bate direto na linha do EBITDA.
O Assaí vinha numa trajetória de desalavancagem e ajuste operacional. No acumulado de 2025, a companhia registrou receita bruta de R$ 84,7 bilhões (+5,2% sobre 2024), com receita líquida de R$ 77,3 bilhões (+4,7%). O EBITDA ajustado fechou o ano em R$ 4,5 bilhões, com margem de 5,8%.
No quarto trimestre de 2025 (4T25), o lucro líquido ajustado foi de R$ 347 milhões, uma queda de 27% na comparação anual. O lucro líquido contábil, por sua vez, despencou 83,5%, pra R$ 78 milhões, impactado pelo impairment de R$ 521 milhões da FIC (joint venture de serviços financeiros com o Itaú).
A geração de caixa livre foi de R$ 2,8 bilhões no ano, com conversão de 84% do EBITDA. A alavancagem encerrou 2025 em 2,56x dívida líquida/EBITDA, abaixo da meta de 2,60x, após redução de R$ 1,2 bilhão na dívida líquida. Números que mostravam uma empresa em recuperação gradual, até o torpedo tributário atingir o papel.
Mesmo antes dessa pressão da Receita, o Assaí já havia cortado pela metade a projeção de abertura de novas lojas pra 2026: de 20 unidades planejadas, passou a mirar apenas 10. A decisão reflete uma postura mais conservadora diante de juros elevados e do próprio endividamento da companhia.
Agora, com o risco tributário no radar, fica ainda mais difícil imaginar uma retomada agressiva de expansão. A prioridade deve continuar sendo proteger o caixa.
A queda de 8,86% num único pregão não é trivial. ASAI3 abriu o dia a R$ 10,20 e derreteu até fechar a R$ 9,26. Pra ter uma dimensão, a ação já vinha negociando perto das mínimas de 52 semanas (o piso foi R$ 6,28), e a variação recente de preços mostra que o papel não consegue firmar uma recuperação consistente.
O JPMorgan e o BTG Pactual adicionaram viés negativo às perspectivas pro setor. Em um ambiente de Selic elevada e incerteza macroeconômica, o apetite por papéis de varejo já era reduzido. O componente tributário jogou mais lenha numa fogueira que já estava acesa.
Quem opera o setor precisa entender bem os fundamentos de gestão de risco no trading, porque momentos como esse testam qualquer tese de investimento.
O regime de PIS/Cofins no Brasil é uma das maiores dores de cabeça tributárias que existem. No varejo alimentar, a complexidade se multiplica porque convivem produtos com alíquotas cheias, alíquotas zero e tributação monofásica (concentrada num único elo da cadeia). Cada categoria de produto tem tratamento diferente, e a fronteira entre o que dá direito a crédito e o que não dá é, em muitos casos, uma zona cinzenta.
As grandes redes de atacarejo, como Assaí e Grupo Mateus, operam com milhares de SKUs e volumes gigantescos. A tentação de interpretar a legislação de forma mais agressiva pra maximizar créditos fiscais sempre existiu. O que a Receita Federal está fazendo agora é colocar um ponto final nessa ambiguidade, e o recado é claro: quem tomou crédito indevido vai ter que devolver.
Pra 2027, a transição pro novo sistema de CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) promete simplificar essa bagunça. Mas até lá, o risco de autuações e cobranças retroativas segue no ar.
Embora Assaí e Grupo Mateus sejam os nomes mais citados, a operação da Receita atingiu quase 3 mil empresas. Outras redes de supermercados e atacarejos com ações na B3, como Carrefour (CRFB3), também podem sentir algum respingo, dependendo de como estruturaram seus créditos fiscais.
O setor de varejo alimentar brasileiro já opera com margens apertadas. A margem EBITDA do Assaí, por exemplo, ficou em 5,8% no ano de 2025. Qualquer contingência tributária relevante corrói uma fatia proporcionalmente enorme do lucro operacional. É o tipo de situação em que entender o que é risco e como ele funciona nos investimentos faz toda a diferença.
O prazo de 30 de junho de 2026 é o primeiro marco importante. Até lá, as empresas notificadas precisam apresentar suas revisões à Receita Federal. O que vier depois depende de cada caso: se as companhias reconhecerem as irregularidades e se regularizarem, as penalidades tendem a ser menores. Se contestarem e perderem, a conta pode crescer com juros e multas.
Pro Assaí especificamente, vale monitorar os próximos comunicados ao mercado. A empresa precisará esclarecer qual parcela dos créditos está sob questionamento, se já fez provisão no balanço e qual é a estratégia jurídica. Os resultados do 1T26, que devem ser divulgados nas próximas semanas, serão o primeiro grande teste pra ver se a companhia reconhece algum impacto antecipadamente.
Do lado positivo, a parceria recentemente anunciada com o Mercado Livre e a continuidade do plano de desalavancagem são fatores que podem ajudar a sustentar a tese de investimento no médio prazo. Mas no curto prazo, o sentimento é de cautela. Como destacam analistas de JPMorgan e BTG, o viés pra todo o setor de varejo alimentar é negativo enquanto a situação tributária não se resolver.
Pra quem acompanha o setor de perto, o uso de estratégias como momentum pode ajudar a navegar papéis que estão em tendência definida, seja pra cima ou pra baixo. Já pra quem tem posição de longo prazo, a questão central é se o risco tributário é temporário ou estrutural. A resposta a essa pergunta vai depender do que acontecer nos próximos 75 dias, até o prazo final da Receita.
O varejo alimentar brasileiro segue sendo um setor de margens finas e riscos concentrados. Quando a Receita Federal resolve apertar, o mercado reage com a proporcionalidade que o risco exige. E R$ 10 bilhões em créditos questionados não são um detalhe que se ignora.
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