
O mercado financeiro brasileiro vive nesta quarta-feira (18) uma das sessões mais aguardadas de 2026. O Copom encerra hoje sua reunião de março e deve anunciar o primeiro corte da Selic em dois anos, levando a taxa de 15% para 14,75% ao ano. Ao mesmo tempo, o Fed (Federal Reserve) divulga sua decisão de juros nos Estados Unidos às 15h (horário de Brasília), com expectativa de manutenção na faixa de 3,50% a 3,75%. O problema é que ninguém tá comemorando: a guerra entre EUA, Israel e Irã, que estourou no final de fevereiro, bagunçou todas as projeções.
Até poucas semanas atrás, o consenso do mercado era de um corte de 0,50 ponto percentual na Selic. A guerra no Oriente Médio cortou essa aposta pela metade. O petróleo disparou mais de 40% desde o início do conflito, chegou a superar US$ 105 por barril, e reacendeu o fantasma inflacionário num momento em que o Banco Central finalmente tinha espaço pra começar a aliviar o aperto monetário.
A lógica é direta: petróleo mais caro pressiona combustíveis, que pressionam transporte e logística, que pressionam preços de tudo. O último boletim Focus já captou esse efeito. A projeção de IPCA para 2026 saltou de 3,8% para 4,1%, e a estimativa de Selic no fim do ano subiu de 12,13% para 12,25%. Traduzindo: o mercado espera menos cortes e juros mais altos por mais tempo.
Mesmo assim, o corte de 0,25 ponto deve vir. O próprio Copom sinalizou na reunião de janeiro que "antevê iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião". A comunicação foi explícita. Voltar atrás agora, sem cortar nada, seria um choque de credibilidade que ninguém quer.
O que muda é o ritmo. Antes da guerra, analistas projetavam que o ciclo de cortes seria acelerado ao longo do ano, com a Selic podendo fechar 2026 abaixo de 12%. Agora, o cenário é de cautela redobrada. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, vai precisar equilibrar o compromisso de iniciar a flexibilização com a realidade de um choque de oferta externo que pode contaminar a inflação doméstica.
Do lado americano, a decisão em si não tem suspense. Os mercados futuros precificam 99,1% de chance de manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75%. O Fed fez três cortes consecutivos de 0,25 ponto no final de 2025, mas estacionou desde então.
O que os traders estão de olho mesmo é no dot plot, o gráfico de projeções individuais dos membros do FOMC. Em dezembro, a mediana apontava para juros de 3,4% no fim de 2026, o que implicaria basicamente mais um corte de 0,25 ponto ao longo do ano. Agora, com o impacto da guerra nos mercados, a expectativa é que o dot plot venha mais hawkish, sinalizando que os cortes de juros nos EUA ficam pra setembro ou outubro, na melhor das hipóteses.
Esta reunião também é uma das últimas de Jerome Powell como presidente do Fed. O mandato dele expira em 15 de maio de 2026, e o mercado quer entender como ele vai posicionar a narrativa sobre inflação, emprego e o choque do petróleo nessa reta final.
Os dados reforçam a cautela. A inflação no atacado dos EUA veio acima do esperado em fevereiro, com preços de energia subindo 2,3% no mês. É o primeiro dado concreto que captura o efeito da guerra sobre os custos de produção americanos. Se isso se traduzir em inflação ao consumidor nos próximos meses, o Fed vai ter ainda menos espaço pra cortar.
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciado no final de fevereiro, é o fator que ninguém tinha na planilha. O petróleo Brent saltou de uma faixa de US$ 70 para acima de US$ 100 em questão de dias. Isso afeta diretamente dois pontos críticos pra quem investe:
Primeiro, a curva de juros. Os DIs futuros abriram nesta quarta com viés de alta, precificando menos cortes da Selic ao longo do ano. Quem tá posicionado em prefixados longos sentiu o impacto nas últimas semanas.
Segundo, o câmbio. O dólar operava em alta de 0,52% nesta quarta, cotado a R$ 5,22. A moeda americana funciona como termômetro de aversão ao risco global, e com guerra e petróleo subindo juntos, o fluxo de capital tende a ir pro porto seguro dos Treasuries americanos.
O Ibovespa, por sua vez, operava próximo da estabilidade, aos 180.241 pontos. A Petrobras (PETR4) ajuda a segurar o índice por ser beneficiária direta do petróleo caro, mas o restante do mercado opera com cautela.
Essa é a pergunta que tá na cabeça de todo mundo, do trader ao motorista de aplicativo. A resposta curta: não imediatamente. Especialistas apontam que o repasse do preço internacional do petróleo para a bomba no Brasil pode levar de três a seis meses, dependendo da política de preços da Petrobras e da duração do conflito.
Se o barril se mantiver acima de US$ 80 por um período prolongado, estimativas indicam que isso pode adicionar 0,25 ponto percentual à inflação brasileira. É exatamente esse efeito cascata que fez o mercado reduzir a aposta de corte da Selic.
As próximas horas são decisivas. O Copom divulga a decisão depois do fechamento do mercado, por volta das 18h30. Já o Fed anuncia às 15h, seguido da coletiva de Powell às 15h30. Os dois comunicados vão dar o tom pro mercado nas próximas semanas.
No Copom, o mercado quer saber duas coisas: se o corte será mesmo de 0,25 ponto e, principalmente, o que o comunicado vai dizer sobre os próximos passos. Se o BC sinalizar que o ritmo de cortes vai depender da evolução do conflito no Oriente Médio, a curva de juros pode se ajustar pra cima, precificando menos alívio monetário no ano.
No Fed, o dot plot é o evento principal. Se a mediana dos membros do FOMC apontar pra zero ou um corte em 2026, será um sinal claro de que o ambiente global de juros vai permanecer restritivo por mais tempo. Isso tem efeito direto sobre mercados emergentes como o Brasil, porque reduz o diferencial de juros e pode pressionar o câmbio.
Os traders na comunidade da Traders estão divididos. Uma parte acredita que o corte de 0,25 ponto já tá precificado e que o comunicado é o que realmente importa. Outra parte argumenta que, se o Fed vier mais hawkish do que o esperado no dot plot, o Copom pode usar um tom ainda mais cauteloso no comunicado, o que frustraria quem espera uma aceleração dos cortes nas próximas reuniões.
O consenso entre os mais experientes é: esta superquarta é mais sobre forward guidance do que sobre a decisão em si. O número (0,25 ponto de corte aqui, manutenção lá) já tá dado. O que define o jogo é a sinalização sobre o que vem depois.
Se o cenário se confirmar, março de 2026 marca o início de um ciclo de flexibilização monetária no Brasil que nasceu cercado de incertezas. Dois anos atrás, quando o Copom subiu a Selic pra 15%, o mundo era outro. Não havia guerra no Oriente Médio, o petróleo estava na faixa de US$ 70 e a inflação global parecia controlada.
Agora, o BC brasileiro precisa navegar um ambiente onde o choque externo puxa a inflação pra cima enquanto a atividade econômica doméstica já dá sinais de desaceleração. É o dilema clássico de bancos centrais: cortar pra estimular a economia ou segurar pra conter preços? A resposta de Galípolo começa hoje. E vai definir o humor do mercado por um bom tempo.
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