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JBS lucra US$ 415 mi no 4º tri: ciclo do gado nos EUA pressiona resultado

Publicado em
25/3/2026
JBS lucra US$ 415 mi no 4º tri: ciclo do gado nos EUA pressiona resultado. Análise completa no blog da Traders. Saiba como isso afeta seus investimentos.
JBS lucra US$ 415 mi no 4º tri: ciclo do gado nos EUA pressiona resultado
JBS lucra US$ 415 mi no 4º tri: ciclo do gado nos EUA pressiona resultado

A JBS (JBSS3) encerrou o quarto trimestre de 2025 com lucro líquido de US$ 415 milhões, alta de apenas 1% em relação ao mesmo período de 2024. O número mostra uma empresa que cresce em receita, mas sente no bolso a fase mais dura do ciclo pecuário nos Estados Unidos.

O balanço, divulgado nesta quarta-feira (25), trouxe um contraste que resume bem o momento da maior processadora de proteínas do mundo: vendas em nível recorde e margens operacionais em queda. A estratégia multiproteína e multigeográfica, que costuma ser o trunfo da companhia, funcionou parcialmente, mas não conseguiu blindar totalmente o resultado contra a pressão dos custos do boi americano.

Receita recorde, EBITDA em queda: os números do 4T25 da JBS

A receita líquida consolidada atingiu US$ 23,06 bilhões no quarto trimestre, avanço de 15% na comparação anual. É número de peso. No acumulado de 2025, foram US$ 86,18 bilhões, crescimento de 12% e novo recorde histórico pra companhia.

O aumento refletiu expansão de volumes e preços em praticamente todas as unidades de negócio. Quem olha só pra linha de receita pode achar que foi um ano espetacular. Mas a realidade operacional conta outra história.

O EBITDA ajustado caiu 7% no trimestre, pra US$ 1,72 bilhão. No ano, o recuo foi de 5%, totalizando US$ 6,83 bilhões. A margem EBITDA consolidada ficou em 7,4% no 4T25 e 7,9% no acumulado de 2025, ambos abaixo dos níveis praticados em 2024.

No acumulado do ano, o lucro líquido somou US$ 2,02 bilhões, alta de 15%. Cresceu, sim, mas quem acompanha a DRE (Demonstração de Resultado): o que é e como funciona sabe que lucro líquido pode ser inflado por efeitos financeiros e extraordinários. O operacional é que mostra o filme real.

O ciclo do gado nos EUA: vilão do resultado

O principal vilão do balanço tem nome e sobrenome: ciclo pecuário adverso na América do Norte. A operação de bovinos nos Estados Unidos registrou EBITDA negativo de US$ 319 milhões em 2025. Leu certo: negativo.

O que está acontecendo? O rebanho americano está no menor nível em décadas. Com menos gado disponível, o custo da matéria-prima sobe mais rápido do que o preço da carne no atacado. A conta não fecha. E o problema foi agravado ao longo do ano por restrições às importações de bovinos vivos do México, limitando ainda mais a oferta.

Esse cenário comprimiu as margens de um dos maiores negócios da JBS em receita. O resultado operacional ajustado somou US$ 1,09 bilhão no 4T25, queda de 15% contra o 4T24. No acumulado de 2025, foram US$ 4,52 bilhões, recuo de 10%.

Pra quem investe em JBSS3, o recado é claro: a divisão de beef dos EUA vai continuar pressionada enquanto o rebanho não se recompor. E ciclos pecuários são longos. A fase de retenção, quando os pecuaristas começam a segurar fêmeas pra reconstruir o plantel, pode levar de dois a três anos pra produzir efeitos práticos na oferta de animais pra abate.

Aves e Seara seguraram o jogo

Se a operação de bovinos nos EUA foi o calcanhar de Aquiles, o segmento de aves foi o grande destaque positivo do balanço.

A Pilgrim's Pride, subsidiária americana de frango, entregou EBITDA de US$ 2,80 bilhões no ano. É o tipo de número que compensa muita coisa. A empresa se beneficiou de demanda resiliente, ganhos de produtividade e maior participação de produtos de valor agregado no mix de vendas.

No Brasil, a Seara contribuiu com US$ 1,55 bilhão de EBITDA em 2025, enquanto a operação na Austrália entregou US$ 916 milhões. As três divisões juntas mais do que compensaram o rombo da carne bovina americana.

Esse é o argumento central da tese de investimento em JBS: a diversificação. Quando uma proteína ou uma geografia vai mal, outras puxam o resultado. Não é perfeito (o EBITDA ainda caiu), mas evita cenários de catástrofe.

Operação Brasil: receita salta 26%

A divisão Brasil da JBS registrou receita líquida de US$ 4,38 bilhões no 4T25, alta de 26% na comparação anual. O crescimento foi impulsionado por preços mais elevados e pelo maior volume de abates da história da companhia no país.

O EBITDA ajustado da operação brasileira somou US$ 288 milhões no trimestre, avanço de 24,7%. A combinação de demanda externa aquecida, especialmente da China, e melhora da execução comercial no mercado doméstico explica o desempenho.

No acumulado de 2025, a receita da divisão Brasil atingiu US$ 15,29 bilhões, crescimento de 21,5%. Já o EBITDA totalizou US$ 955 milhões, praticamente estável em relação a 2024 (queda de 1%). Aqui também o custo do gado pesou, mas em proporção menor que nos Estados Unidos, já que o ciclo pecuário brasileiro está numa fase diferente.

Caixa e endividamento: atenção redobrada

O fluxo de caixa operacional no 4T25 foi de US$ 2,24 bilhões, alta de 23,6% contra o 4T24. Número sólido. Mas no acumulado do ano, houve recuo pra US$ 4,05 bilhões, queda de 26,8%.

O fluxo de caixa livre conta uma história mais preocupante: US$ 990 milhões no trimestre, mas apenas US$ 400 milhões em 2025. Pra efeito de comparação, foram US$ 2,33 bilhões em 2024. A queda é expressiva e tem explicação: o capex subiu pra cerca de US$ 2,1 bilhões (expansão de capacidade e modernização), além de desembolsos com acordos antitruste e recompra de ações.

A dívida líquida encerrou 2025 em US$ 16,3 bilhões, alta de aproximadamente 20% na comparação anual. A alavancagem, medida pela relação dívida líquida/EBITDA, ficou em 2,39 vezes. Está dentro da faixa que a companhia considera confortável, mas o aumento merece monitoramento.

Ponto positivo: o perfil da dívida continua alongado, com prazo médio próximo de 15 anos e custo médio de 5,7% ao ano. Isso dá fôlego pra JBS atravessar a fase ruim do ciclo sem precisar rolar dívida em condições desfavoráveis.

O que esperar: listagem nos EUA e ciclo pecuário

Dois fatores devem dominar a narrativa de JBSS3 nos próximos trimestres.

O primeiro é a listagem na NYSE. A JBS está em processo de dual listing nos Estados Unidos, o que pode destravar valor significativo pra ação. Empresas listadas em Nova York costumam negociar com múltiplos mais altos que seus pares em mercados emergentes. Se concretizada, a listagem amplia a base de investidores e melhora a liquidez do papel.

O segundo é a evolução do ciclo do gado americano. Enquanto o rebanho não se recompor, a divisão de beef vai continuar operando com margens comprimidas ou negativas. Analistas do setor estimam que a virada pode começar a aparecer entre 2027 e 2028, quando o aumento na retenção de matrizes comece a se traduzir em maior oferta de animais pra abate.

Pra quem acompanha o setor de ETFs americanos: guia completo pra investir nos EUA, vale notar que o desempenho da JBS nos EUA reflete uma dinâmica setorial, não um problema exclusivo da companhia. Concorrentes como Tyson Foods enfrentam pressões semelhantes no segmento bovino.

Contexto setorial: proteínas em direções opostas

O setor global de proteínas vive um momento de divergência. Enquanto a carne bovina nos EUA sofre com oferta restrita e custos elevados, o segmento de aves segue aquecido globalmente. O frango continua sendo a proteína mais acessível pra consumidores em diversos mercados, e a demanda por produtos processados de maior valor agregado cresce consistentemente.

No Brasil, o cenário é quase o oposto do americano pra carne bovina. O ciclo pecuário brasileiro está em fase de oferta ampla, com abates recordes e preços ainda competitivos no mercado internacional. Isso explica o bom desempenho da divisão Brasil da JBS no trimestre.

Já os mercados internacionais, como China e Oriente Médio, continuam sendo destinos relevantes pra exportação de proteína animal brasileira. Quem busca entender melhor como investir em empresas com exposição global pode conferir o guia sobre BDRs de Europa e Asia: como investir além dos EUA.

Resumo dos números: 4T25 vs 4T24

Pra facilitar a visualização dos principais indicadores:

Receita líquida: US$ 23,06 bilhões (alta de 15% YoY)

Lucro líquido: US$ 415 milhões (alta de 1% YoY)

EBITDA ajustado: US$ 1,72 bilhão (queda de 7% YoY)

Margem EBITDA: 7,4% (contração YoY)

Receita anual 2025: US$ 86,18 bilhões (recorde, alta de 12%)

Lucro anual 2025: US$ 2,02 bilhões (alta de 15%)

Dívida líquida: US$ 16,3 bilhões (alavancagem de 2,39x)

O balanço do 4T25 da JBS confirma uma empresa que fatura como nunca, mas enfrenta um teste de rentabilidade. A diversificação protege, as aves compensam, mas o ciclo do gado americano não dá trégua. Pra quem analisa o papel, o ponto de inflexão está na recomposição do rebanho nos EUA e na concretização da listagem em Nova York. Até lá, é um jogo de paciência e acompanhamento trimestral dos indicadores operacionais, especialmente da linha do Payroll (EUA): o que é e como funciona, que sinaliza a saúde da economia americana e, indiretamente, a demanda por proteínas no maior mercado consumidor do mundo.


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