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JBS bate recorde de receita, mas escassez de gado nos EUA aperta margens | InvestNews

Publicado em
25/3/2026
JBS bate recorde de receita, mas escassez de gado nos EUA aperta margens | InvestNews. Saiba como isso afeta seus investimentos.
JBS bate recorde de receita, mas escassez de gado nos EUA aperta margens | InvestNews
JBS bate recorde de receita, mas escassez de gado nos EUA aperta margens | InvestNews

A JBS (JBSS3) reportou receita líquida recorde de US$ 23,06 bilhões no quarto trimestre de 2025 (4T25), alta de 15,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando faturou US$ 19,97 bilhões. O lucro líquido ficou em US$ 415 milhões, praticamente estável na comparação anual (+0,5%), mas com queda de 28,6% frente ao terceiro trimestre de 2025, quando a companhia havia lucrado US$ 581 milhões.

No acumulado de 2025, a receita da maior processadora de proteínas do mundo chegou a US$ 86 bilhões, um crescimento de 12% sobre 2024 e novo recorde histórico. A empresa cresceu em todas as divisões, mas o número esconde um desequilíbrio importante: enquanto algumas unidades entregaram resultados sólidos, a operação de carne bovina nos Estados Unidos virou um ponto de dor cada vez mais intenso.

O nó da carne bovina americana

A divisão JBS Beef North America, que responde por cerca de 30% da receita total, atingiu faturamento recorde de US$ 7,2 bilhões no trimestre. Receita recorde, porém, não significa margem saudável. O EBITDA ajustado da divisão ficou negativo em US$ 42 milhões, com margem de -1,3%.

A explicação é direta: o rebanho bovino nos EUA está nas mínimas de múltiplas décadas. Com menos gado disponível, o preço do boi gordo americano bateu recordes, espremendo a diferença entre o custo da matéria-prima e o preço do produto final. É o chamado ciclo pecuário, e ele está na fase mais desfavorável pra quem depende de gado barato.

A JBS tem escala pra continuar operando mesmo com margem negativa nessa divisão, coisa que frigoríficos menores não conseguem. Mas o mercado quer saber quanto tempo essa sangria vai durar. E a resposta, por enquanto, não é animadora: analistas projetam que o aperto deve continuar ao longo de 2026.

Seara: queda brusca na margem

Se a carne bovina americana foi o principal problema, a Seara trouxe uma surpresa negativa pra quem esperava repetição dos trimestres anteriores. A margem EBITDA da divisão de aves e suínos no Brasil despencou de 16,8% para 9,2%, uma perda de mais de 7 pontos percentuais.

O motivo principal: mercados importantes ficaram fechados pra o frango brasileiro no trimestre. A União Europeia e a China, dois dos maiores compradores, mantiveram restrições que reduziram o volume exportado. Menos destino pra produção significa preço mais baixo e margem comprimida.

No terceiro trimestre, a Seara havia sido um dos destaques positivos, com EBITDA ajustado de US$ 818 milhões e crescimento de 30%. A reversão no 4T25 mostra como o negócio de proteínas é sensível a decisões sanitárias e comerciais de outros países.

EBITDA consolidado e o papel da diversificação

O EBITDA ajustado consolidado da JBS no 4T25 ficou estimado em torno de US$ 1,4 bilhão a US$ 1,7 bilhão (a depender do padrão contábil, US GAAP ou IFRS), segundo projeções do JP Morgan que se mostraram alinhadas com o resultado final. É um número que reflete a compensação entre divisões fortes e fracas.

A Pilgrim's Pride, subsidiária americana focada em frango, manteve desempenho positivo, beneficiada pela demanda firme por proteínas mais baratas num ambiente de inflação alimentar nos EUA. No terceiro trimestre, a Pilgrim's havia entregado EBITDA de US$ 1,5 bilhão com crescimento de 15%. Mesmo com alguma sazonalidade negativa no quarto trimestre, a divisão seguiu como pilar de sustentação.

A operação da Austrália também contribuiu. Com melhor disponibilidade de gado no país e demanda global aquecida, a divisão australiana vinha de EBITDA de US$ 451 milhões no 3T25, alta de 29%. Um contraste direto com a realidade americana.

Essa é a tese central da JBS: a plataforma global multiproteína permite que uma divisão compense a outra. Quando o boi americano aperta, o frango segura. Quando o frango brasileiro perde mercado, a Austrália puxa. O modelo não elimina os riscos, mas distribui.

O ciclo do gado nos EUA: quando melhora?

Pra entender o cenário, vale um breve contexto. O ciclo pecuário americano dura entre 8 e 12 anos. Nos últimos anos, secas prolongadas no sul dos EUA forçaram pecuaristas a abater mais fêmeas do que o normal, reduzindo o rebanho reprodutor. O resultado: menos bezerros nascendo, menos gado chegando ao mercado e preços de compra nas alturas.

A JBS não é a única afetada. Tyson Foods, Marfrig (via National Beef) e outros frigoríficos com operação americana enfrentam o mesmo problema. Mas a JBS, por ser a maior processadora do mundo, sente o impacto em escala proporcional.

No Brasil, o cenário também preocupa a médio prazo. O abate de fêmeas atingiu níveis não vistos desde 1997, sinalizando que o rebanho brasileiro pode encolher entre 3% e 5% em 2026, segundo a própria administração da JBS. Isso sugere que a oferta de gado no Brasil, hoje relativamente confortável, pode apertar nos próximos anos.

Pra quem acompanha o setor de ETFs americanos ou investe em ações ligadas a commodities, entender esses ciclos é fundamental pra avaliar o momento certo de exposição ao setor.

Receita anual recorde: o que está por trás

Os US$ 86 bilhões de receita em 2025 representam um marco. É o maior faturamento da história da JBS, consolidando a empresa como a maior produtora de proteínas do planeta, à frente de Tyson Foods e Cargill.

O crescimento veio de uma combinação de fatores: preços médios mais altos (inflação alimentar global), ganho de market share em frango e suínos, e a expansão da operação australiana. A receita do primeiro trimestre de 2025 já havia sido de US$ 21 bilhões (recorde na época), com lucro de R$ 2,9 bilhões e alta de 77,6% sobre o 1T24.

Ao longo do ano, porém, a pressão do ciclo do gado americano foi corroendo a rentabilidade trimestre a trimestre. O EBITDA ajustado do 3T25, por exemplo, já havia caído 14,8% na comparação anual, de US$ 2,15 bilhões para US$ 1,84 bilhão.

Projeções pra 2026 e o que observar

O BTG Pactual projeta que a JBS feche 2025 com receita de R$ 478,1 bilhões e EBITDA de R$ 37,7 bilhões, com margem de 7,9%. Pra 2026, a estimativa é de EBITDA de R$ 31,6 bilhões e lucro ajustado de R$ 7,5 bilhões, refletindo um momento mais fraco do ciclo.

Apesar da queda projetada, o BTG mantém recomendação de compra pra JBSS3 e enxerga potencial de valorização de cerca de 40%, com dividend yield estimado de 10,6% pra 2026. Os dividendos têm sido consistentes: em 2025, a empresa distribuiu R$ 4,00 por ação em proventos.

Os principais catalisadores pra ficar de olho:

Dupla listagem. A JBS segue avançando no processo de listagem simultânea na bolsa americana, o que poderia destravar valor ao ampliar a base de investidores e reduzir o desconto de holding.

Reabertura de mercados pra Seara. A normalização das exportações de frango pra União Europeia e China seria um gatilho importante pra recuperação de margem na divisão.

Evolução do ciclo do gado. Qualquer sinal de recomposição do rebanho americano ou estabilização dos preços de boi gordo tende a ter efeito positivo relevante na divisão Beef North America.

Tarifas comerciais. Com o ambiente de comércio internacional sob tensão, eventuais mudanças tarifárias podem afetar tanto positiva quanto negativamente os fluxos de exportação de proteínas.

JBSS3: o contexto setorial

O setor de frigoríficos listados na B3 passa por um momento de divergência. Enquanto a JBS mostra receita recorde mas margem pressionada, concorrentes como a BRF se beneficiaram do bom momento do frango em boa parte de 2025, e a Marfrig enfrenta desafios semelhantes na carne bovina via sua participação na National Beef.

Pra investidores que acompanham o setor de proteínas globais, entender a dinâmica entre ciclo do gado, demanda por frango e fluxos de comércio internacional é essencial. A leitura dos resultados da economia americana e dos indicadores de consumo ajuda a projetar se a demanda por carne nos EUA vai sustentar os preços no varejo mesmo com custos mais altos no atacado.

Quem investe em ativos ligados a commodities pela B3, seja via ações diretas como JBSS3 ou por BDRs e ETFs do setor alimentício global, precisa calibrar as expectativas: receita recorde não é sinônimo de lucro recorde quando o insumo principal está no pico.

O resultado do 4T25 da JBS reforça uma lição que vale pra qualquer análise de empresa de commodities: a receita conta uma parte da história, mas é a margem que paga as contas. E, no caso da JBS, 2026 promete ser o ano em que a resiliência da plataforma multiproteína será colocada à prova de verdade.


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