
A Gerdau (GGBR4) encerrou o quarto trimestre de 2025 com lucro líquido ajustado de R$ 670 milhões, praticamente estável na comparação anual, com alta de apenas 0,5% sobre os R$ 666 milhões do 4T24. Na comparação com o terceiro trimestre, quando a companhia havia lucrado R$ 1,09 bilhão, a queda foi de 38,5%. A receita líquida ficou em R$ 17 bilhões no período, avanço tímido de 0,9% sobre o mesmo trimestre do ano anterior.
O balanço confirmou uma tendência que vem se consolidando ao longo de 2025: a operação norte-americana carrega o resultado enquanto o Brasil apanha. No acumulado do ano, o lucro líquido ajustado totalizou R$ 3,38 bilhões, queda de 21,1% frente aos R$ 4,29 bilhões de 2024. A receita anual somou R$ 69,9 bilhões, alta de 4,2%.
O EBITDA ajustado do trimestre veio em R$ 2,37 bilhões, recuo de 0,7% na base anual. No acumulado de 2025, o indicador somou R$ 10,1 bilhões, queda de 7,1% ante os R$ 10,9 bilhões de 2024. A margem EBITDA anual caiu de 16,2% pra 14,4%, refletindo a compressão de rentabilidade que marcou o ano.
A questão central não é o tamanho do EBITDA, mas de onde ele vem. E a resposta é clara: dos Estados Unidos.
A operação na América do Norte respondeu por aproximadamente 73% do EBITDA consolidado no quarto trimestre, com margem EBITDA de 21%. No ano, o segmento gerou R$ 6,5 bilhões em EBITDA, crescimento de 18,5% sobre 2024. É a divisão que vem sustentando os números da companhia trimestre após trimestre.
A demanda por aço nos EUA seguiu firme, puxada por investimentos em infraestrutura e construção civil. A carteira de pedidos se manteve em níveis elevados, e a companhia conseguiu repassar preços com mais facilidade que no mercado doméstico.
Pra quem acompanha o setor de perto, a diversificação geográfica da Gerdau está se provando o grande trunfo estratégico. Enquanto concorrentes com operação concentrada no Brasil sofrem mais, a Gerdau tem um colchão que amortece os choques.
Se a América do Norte é o destaque positivo, o Brasil é o ponto de atenção. A margem EBITDA da operação brasileira caiu pra cerca de 7% no quarto trimestre, o menor patamar pra um quarto trimestre em uma década. No ano cheio, o EBITDA do segmento Brasil somou R$ 3,2 bilhões, queda de 31% sobre 2024.
O vilão tem nome: importações. A penetração de aço importado no mercado brasileiro atingiu 21%, pressionando preços e comprimindo margens das siderúrgicas locais. A combinação de real desvalorizado (que deveria frear importações, mas não freou o suficiente) com excesso de oferta global criou um ambiente hostil pra quem produz aço no país.
A construção civil brasileira até ajudou no volume, mas não o bastante pra compensar a pressão nos preços. A Gerdau vendeu mais aço no trimestre, porém com rentabilidade menor por tonelada.
As vendas de aço da Gerdau atingiram 2,86 milhões de toneladas no 4T25, avanço de 5,2% na comparação anual. No acumulado de 2025, os embarques somaram 11,6 milhões de toneladas, alta de 5,9% sobre o ano anterior.
O volume cresceu em todas as regiões de atuação. Mas a leitura isolada do volume engana. Vender mais toneladas com margem menor é como aumentar o faturamento de um restaurante cortando o preço dos pratos pela metade. O movimento sustenta a receita, mas corrói a rentabilidade.
Esse descompasso entre volume e preço é um dos fatores que explica por que o lucro anual caiu mais de 20% mesmo com receita subindo 4%.
Um ponto que chamou atenção no balanço foi a geração de caixa livre. No quarto trimestre, o fluxo de caixa livre saltou pra R$ 1,41 bilhão, contra apenas R$ 427 milhões no 4T24. A melhora veio de uma combinação de redução de estoques e menor investimento em capital (capex).
No acumulado do ano, o fluxo de caixa livre ficou positivo em R$ 394 milhões, revertendo o resultado negativo de 2024. Não é um número espetacular, mas a virada de sinal é relevante.
A dívida líquida sobre EBITDA fechou o ano em 0,76x, acima do 0,48x registrado ao final de 2024. O aumento reflete o ciclo de investimentos pesado que a companhia atravessou. Ainda assim, o patamar é confortável pra uma siderúrgica desse porte.
Junto com o balanço, a Gerdau anunciou dividendos de R$ 0,10 por ação (GGBR4), com pagamento previsto pra 18 de março de 2026. No total do ano, os proventos somaram R$ 0,62 por ação, totalizando R$ 1,2 bilhão distribuído aos acionistas.
A companhia também aprovou um novo programa de recompra de ações, com autorização pra adquirir até 56,4 milhões de papéis preferenciais. O programa anterior já havia sido concluído. A recompra funciona como um retorno adicional ao acionista, reduzindo a base de ações em circulação e, em tese, aumentando o lucro por ação no futuro.
Pra quem busca entender como funcionam os proventos na prática, vale conferir o conceito de Data Ex e Data Com (Dividendos): o que é e como funciona. E se o objetivo é montar uma carteira focada em renda, o guia sobre as melhores ações para dividendos em 2026 pode ajudar na seleção.
O mercado não gostou do que viu. Na sessão seguinte à divulgação do balanço, em 24 de fevereiro, as ações GGBR4 recuaram 2,22%, fechando a R$ 21,13. O principal fator de descontentamento foi justamente a margem no Brasil, que veio abaixo das expectativas dos analistas.
Desde então, o papel continuou pressionado. Em meados de março, GGBR4 negocia na casa dos R$ 17,66, acumulando queda expressiva no ano. A ação havia iniciado 2026 próxima de R$ 20,39.
A percepção do mercado é que, enquanto o cenário no Brasil não melhorar, o papel vai continuar pressionado, mesmo com a operação americana entregando bons resultados. Pra quem usa indicadores técnicos no acompanhamento de ações, GGBR4 é um caso interessante de análise de suporte em tendência de baixa.
Uma das sinalizações mais relevantes do balanço veio na linha de investimentos. A Gerdau anunciou que o capex de 2026 será de R$ 4,7 bilhões, uma redução de 24% frente aos R$ 6,1 bilhões gastos em 2025.
A decisão reflete o fim de um ciclo de investimentos pesados e uma postura mais conservadora diante do cenário de margens apertadas no Brasil. Menos capex significa mais caixa livre, o que abre espaço pra aumento de dividendos ou novas recompras ao longo do ano.
É um movimento que o mercado costuma premiar no médio prazo, especialmente quando a empresa já tem capacidade instalada suficiente pra atender a demanda corrente.
O cenário pra siderurgia em 2025 foi de margens apertadas no mundo inteiro, mas com diferenças regionais importantes. Nos Estados Unidos, investimentos em infraestrutura e a política de proteção comercial (com tarifas sobre aço importado) criaram um ambiente favorável pra produtores locais como a Gerdau.
Já no Brasil, a combinação de importações elevadas, juros altos e demanda industrial moderada pressionou o setor. A penetração de aço importado em 21% é um dado que preocupa. Boa parte desse volume vem da China, que segue despejando excedentes no mercado global a preços difíceis de competir.
A expectativa de analistas é que o primeiro semestre de 2026 ainda seja desafiador pra operação brasileira, com alguma melhora possível no segundo semestre caso o governo implemente medidas antidumping mais efetivas.
Os analistas seguem majoritariamente otimistas com GGBR4. Das 10 casas que cobrem o papel, todas recomendam compra. O preço-alvo médio gira entre R$ 22 e R$ 24, o que implica um potencial de valorização significativo em relação ao preço atual.
Os principais catalisadores pra frente incluem: a redução do capex liberando caixa, possíveis medidas de proteção comercial no Brasil contra importações de aço, e a manutenção da força da operação norte-americana. Se as tarifas americanas sobre aço forem mantidas ou ampliadas, a Gerdau se beneficia diretamente por ter plantas nos EUA.
Do lado dos riscos, a principal preocupação é uma deterioração adicional das margens no Brasil ou uma desaceleração da economia americana que impacte a demanda por aço. O comportamento do indicador de divergência entre os resultados das duas operações é algo pra monitorar de perto nos próximos trimestres.
Pra quem pensa em montar posição visando renda passiva, a pergunta central é se os dividendos são sustentáveis. Com yield anual de cerca de 3,5% nos níveis atuais e a política de retorno ao acionista da companhia (dividendos + recompra), o cálculo de quanto é necessário pra viver de dividendos passa necessariamente por entender o ciclo de resultados da empresa.
O balanço do 4T25 da Gerdau não trouxe surpresas positivas, mas tampouco desastres. O resultado confirma a tese de que a diversificação geográfica é o grande diferencial competitivo da companhia. O desafio agora é mostrar que consegue melhorar a rentabilidade no Brasil sem depender exclusivamente dos Estados Unidos pra sustentar seus números.
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