
A Fenacon (Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis) enviou dois ofícios à Receita Federal alertando sobre erros expressivos na declaração pré-preenchida do IRPF 2026. O problema não é pequeno: com apenas uma semana de prazo aberto, mais de 60% das declarações transmitidas já usam o modelo pré-preenchido. E muitas dessas declarações estão carregadas de dados incorretos que podem mandar o contribuinte direto pra malha fina.
O alerta dos contadores chega num momento em que a Receita espera receber 44 milhões de declarações até o prazo final de 29 de maio. Quem confiou cegamente nos dados que apareceram prontos no sistema pode ter uma surpresa desagradável nos próximos meses.
A lista de inconsistências relatadas pelos contadores é extensa. Os problemas mais frequentes incluem:
Rendimentos divergentes: os valores que aparecem na pré-preenchida não batem com os informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras. Em muitos casos, a diferença é significativa o suficiente pra gerar retenção automática em malha.
Despesas médicas incorretas: mesmo com a integração do sistema Receita Saúde, os valores de despesas médicas aparecem inferiores ao que foi efetivamente pago. Reembolsos de planos de saúde também estão sumindo do sistema, o que distorce completamente a base de cálculo das deduções.
Saldos bancários zerados: contas em instituições financeiras e cooperativas de crédito aparecem com saldo zero, como se o contribuinte não tivesse nada em conta no fim de 2025. Quem transmitir sem corrigir vai ter que explicar pra Receita de onde saiu o dinheiro pra qualquer movimentação em 2026.
Investimentos desaparecidos: dados de renda variável estão incompletos, com valores de imposto retido na fonte (IRRF) incorretos. Pra quem opera na bolsa, isso é especialmente perigoso, já que a Receita cruza essas informações com os dados da B3.
Patrimônio incompleto: imóveis, veículos e outros bens não estão aparecendo na declaração. Dados de dependentes também chegam desatualizados.
A raiz do problema tem nome: fim da DIRF. A Declaração do Imposto de Renda Retido na Fonte foi oficialmente substituída pelo eSocial e pela EFD-Reinf pra fatos ocorridos a partir de janeiro de 2025. São esses sistemas que agora alimentam a declaração pré-preenchida.
O detalhe é que muitas empresas, órgãos municipais, estaduais e instituições financeiras ainda estão se adaptando ao novo formato. Os campos do eSocial que tratam de deduções com dependentes, pensão alimentícia, previdência complementar e plano de saúde estão sendo preenchidos de forma incorreta pelas fontes pagadoras. E o erro lá em cima desce em cascata até a declaração do contribuinte.
É como se a Receita tivesse trocado o motor do carro em movimento. A tecnologia é melhor, mas a transição tá gerando turbulência séria.
A Fenacon apontou uma situação que beira o absurdo. Quando contribuintes procuram o canal "Fale Conosco" da Receita Federal pedindo orientação, a resposta padrão é: declare os dados corretos com base nos seus informes de rendimentos. Até aí, faz sentido.
O problema é que, na prática, seguir essa orientação não tem garantido segurança. A entidade relata casos recorrentes de contribuintes que declararam os valores corretos (diferentes do pré-preenchido) e mesmo assim foram direcionados pra malha fiscal. A Receita cobra uma coisa, mas o sistema pune quem obedece.
Se você é trader ou investidor, a atenção precisa ser redobrada. Os erros no pré-preenchido afetam diretamente três pontos críticos da sua declaração:
Primeiro: rendimentos de renda variável. Se você fez operações na B3 ao longo de 2025, os dados de lucros, prejuízos e imposto retido na fonte podem estar errados ou incompletos no pré-preenchido. A Receita cruza tudo com os dados da B3 e das corretoras. Qualquer divergência acende o alerta.
Segundo: saldos em corretoras e fundos. Se seus saldos de conta na corretora aparecem zerados, a Receita pode interpretar que houve omissão patrimonial. E omissão de patrimônio é um dos principais motivos de retenção em malha.
Terceiro: BDRs e investimentos internacionais. Quem investiu em BDRs de empresas como Apple, Microsoft ou ETFs americanos precisa conferir se esses ativos aparecem corretamente na ficha de "Bens e Direitos". Os dados de rendimentos de BDRs, incluindo dividendos recebidos, são outra fonte frequente de inconsistência.
Na comunidade da Traders, contadores e investidores já estão trocando experiências sobre os erros que encontraram. O consenso é claro: não confie no pré-preenchido sem conferir linha por linha.
Se você já transmitiu usando o pré-preenchido, a boa notícia é que dá pra fazer uma declaração retificadora a qualquer momento até o fim do prazo (29 de maio). Se ainda não declarou, aproveite pra fazer a conferência antes de enviar.
Pra quem gosta de trabalhar com método e não quer deixar nada passar, vale seguir uma lógica de checklist pré-operacional, igual os traders fazem antes de operar. A disciplina é a mesma: conferir cada item antes de apertar o botão.
Compare rendimentos: pegue os informes de rendimentos de todas as fontes pagadoras (empregador, corretoras, bancos, aluguéis) e cruze com o que aparece no pré-preenchido. Se houver divergência, use o valor do informe.
Confira despesas médicas: reúna todos os recibos e notas fiscais. Verifique se os reembolsos do plano de saúde estão computados. A dedução líquida (valor pago menos reembolso) é o que deve constar.
Valide saldos bancários: consulte os extratos de 31/12/2025 de todas as contas e aplique os valores reais. Saldo zerado quando havia dinheiro em conta é receita pra problema.
Revise investimentos: use o informe de rendimentos da sua corretora como base. Confira posição de ações, FIIs, BDRs, renda fixa e fundos. Verifique os valores de IRRF retido na fonte em operações de renda variável.
Atualize bens e direitos: imóveis, veículos e outros bens devem estar com valores atualizados. Se comprou ou vendeu algo em 2025, confira se a movimentação aparece.
O prazo de entrega vai até 29 de maio de 2026, e a grande novidade é que a restituição será paga em apenas 4 lotes (eram 5 no ano passado): 29 de maio, 30 de junho, 31 de julho e 28 de agosto. A Receita promete que 80% das restituições serão pagas nos dois primeiros lotes.
Pra entrar no primeiro lote, o contribuinte precisa transmitir até 10 de maio e ter prioridade. Usar a pré-preenchida dá prioridade, assim como ter CPF como chave Pix. Idosos, pessoas com deficiência e professores também têm preferência.
A multa por atraso continua salgada: mínimo de R$ 165,74, podendo chegar a 20% do imposto devido, além de deixar o CPF em situação irregular.
Não. A isenção de R$ 5.000 aprovada em janeiro de 2026 só vale pra rendimentos de 2026 em diante. Na declaração que você está fazendo agora (referente a 2025), o limite de obrigatoriedade é quem recebeu mais de R$ 35.584 em rendimentos tributáveis no ano passado.
A Fenacon não está pedindo pra acabar com o pré-preenchido. Pelo contrário, a ferramenta é útil e reduz erros de digitação. O que os contadores cobram é transparência e correção: que a Receita trabalhe com as fontes pagadoras pra melhorar a qualidade dos dados que alimentam o sistema, e que contribuintes que declararem informações corretas (divergentes do pré-preenchido) não sejam automaticamente direcionados pra malha.
Quem tem uma rotina organizada de documentação financeira sofre menos nessa hora. Trader que mantém controle de operações, informes arquivados e notas de corretagem organizadas resolve a declaração em uma fração do tempo.
O cenário reforça uma lição que vale pra qualquer área da vida financeira: confiar, mas verificar. A tecnologia facilita, mas não substitui a conferência humana. Especialmente quando o sistema que alimenta a ferramenta ainda está em fase de adaptação. Quem não revisar agora pode pagar caro nos próximos meses, seja em multa, seja em dor de cabeça com a malha fina.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.