
A Gerdau (GGBR4) abre a temporada de balanços do setor de siderurgia nesta segunda-feira, 27 de abril, com a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) após o fechamento do mercado. O número que o mercado mais quer ver é o EBITDA consolidado, e a expectativa do Santander é de R$ 2,856 bilhões, alta de cerca de 20% frente aos R$ 2,374 bilhões do 4T25.
É um trimestre que deve refletir duas Gerdaus diferentes operando ao mesmo tempo. De um lado, a operação na América do Norte, que vem puxando o consolidado e deve mostrar de novo metal spread em expansão. Do outro, o Brasil, com margens descritas por analistas como "em crise" por causa da enxurrada de aço chinês importado a preços agressivos.
Pra colocar em perspectiva, no 1T25 a Gerdau registrou receita líquida de R$ 17,4 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 2,4 bilhões e lucro líquido ajustado de R$ 758 milhões. Já no 4T25, último resultado divulgado, o EBITDA caiu 13,3% no comparativo trimestral, pra R$ 2,374 bilhões, e o lucro líquido ajustado recuou 38% pro patamar de R$ 670 milhões.
A leitura agora é se o 1T26 marca uma virada. O Santander estima EBITDA de R$ 2,856 bilhões. Se confirmar, é alta de cerca de 19% no QoQ e algo em torno de 19% no YoY também. O Itaú BBA já tinha sinalizado que via espaço pra melhora no trimestre, sustentada principalmente por preços mais altos do aço lá fora.
Mas atenção pra um detalhe: ganho de EBITDA não vira lucro automaticamente. A linha final do balanço sofre com despesas financeiras, câmbio e depreciação. Em trimestres anteriores, a Gerdau já mostrou EBITDA decente combinado com lucro abaixo do esperado, e isso costuma derrubar a ação no dia seguinte.
A operação norte-americana virou a vedete da Gerdau nos últimos trimestres. Nos EUA, a demanda por aço longo segue firme, puxada por construção não residencial e infraestrutura. O metal spread, que é a diferença entre o preço do aço vendido e o custo da sucata usada na produção, continua em níveis confortáveis.
Pra entender o tamanho dessa importância, basta olhar o ano passado: enquanto o Brasil patinava, a unidade da América do Norte era responsável por mais de 60% do EBITDA consolidado em alguns trimestres. A expectativa pro 1T26 é que essa fatia continue alta, com preços do aço plano e longo nos EUA mantendo a tendência de leve alta no início do ano.
O Brasil é a dor de cabeça da Gerdau. As margens da operação local seguem pressionadas pela invasão de aço chinês, que entra no país a preços que tornam a produção doméstica menos competitiva. A indústria já pediu ao governo medidas mais duras, incluindo o aumento das tarifas de importação, mas o resultado prático ainda é incerto.
No 4T25, a Gerdau Brasil teve margem EBITDA na casa de um dígito, bem abaixo do que a empresa entrega historicamente. A pergunta pro 1T26 é se a tarifa antidumping aplicada no fim do ano passado começou a fazer efeito, ou se o cenário continua o mesmo. Qualquer comentário da empresa sobre isso na teleconferência vai ser destrinchado pelo mercado.
Além do EBITDA e do lucro líquido, alguns números merecem atenção:
O volume de vendas (em toneladas) diz se a empresa está conseguindo escoar produção. Queda forte aqui é sinal de demanda fraca; alta significa que o trimestre foi de aquecimento.
A geração de caixa operacional mostra a saúde financeira de verdade. Empresa com EBITDA bom mas caixa fraco normalmente está com capital de giro inflado ou tendo que dar prazos maiores pra clientes.
A alavancagem (dívida líquida sobre EBITDA) continua sendo um dos diferenciais competitivos da Gerdau. A empresa fechou 2025 com indicador baixo, na casa de 0,7x, o que dá fôlego pra dividendos e recompras. Pra entender melhor essa métrica, vale dar uma olhada em Dívida Líquida / EBITDA: o que é e como funciona.
O capex também pesa na conta. A Gerdau tem mantido programa de investimentos em modernização de plantas no Brasil e nos EUA. Capex acima do esperado pressiona o caixa livre e pode atrasar pagamentos a acionistas.
GGBR4 vinha de um movimento de recuperação nas últimas semanas, embalada pela expectativa de números melhores na América do Norte e por um humor mais positivo do mercado em relação a commodities. Em 2026, a ação acumula performance acima do Ibovespa, mas ainda paga preço mais baixo que pares globais como Nucor e Steel Dynamics, com múltiplo EV/EBITDA descontado.
O dia do balanço costuma ser de volatilidade alta. Em janeiro, quando saiu o 4T25, a ação chegou a cair quase 3% na sessão seguinte mesmo com EBITDA dentro do esperado, porque o mercado se assustou com as margens no Brasil. Não dá pra descartar movimento parecido caso a empresa não dê sinal claro de melhora local.
A Gerdau é tradicional pagadora de dividendos e tem política definida que prevê distribuição mínima de 30% do lucro líquido ajustado. Em 2025, o payout efetivo ficou bem acima disso, com pagamentos extraordinários ao longo do ano. A pergunta é se o 1T26 traz alguma comunicação adicional sobre proventos ou recompras de ações.
Pra quem acompanha o setor, vale lembrar que a estrutura de capital da Gerdau permite uma combinação interessante de dividendos com baixa alavancagem, o que é raro em siderurgia mundial. Olhar o Balanço Patrimonial: o que é e como funciona ajuda a interpretar como a empresa equilibra essa equação.
O balanço da Gerdau não chega sozinho. A agenda macro desta segunda também traz divulgações importantes:
O Boletim Focus, que sai pela manhã, mostra como o mercado está revisando projeções para inflação, Selic, PIB e câmbio. Nas últimas semanas, o relatório vem trazendo ajustes graduais nas estimativas pra 2026, com analistas dividindo opiniões sobre o ritmo de cortes adicionais na taxa básica de juros.
Os dados da Dívida Pública Federal também são divulgados nesta segunda pelo Tesouro Nacional. O número é acompanhado de perto por gestores de renda fixa, porque indica o ritmo de emissões e a composição entre títulos prefixados, indexados à inflação e flutuantes. Quem quiser entender como esse mecanismo funciona pode conferir Dívida Pública: o que é e como funciona.
Esse pano de fundo macro tem efeito direto na Gerdau. Selic mais baixa estimula construção civil, principal cliente do aço longo no Brasil. Câmbio mais alto melhora a competitividade da exportação. PIB acima do esperado puxa demanda por aço plano. Tudo conversa.
A teleconferência da Gerdau acontece tradicionalmente na manhã seguinte à divulgação. É nela que os executivos comentam tendências, dão pistas sobre os próximos trimestres e respondem perguntas dos analistas. Alguns pontos que devem ser cobrados:
Quanto da melhora de margem na América do Norte é estrutural e quanto é pico de ciclo. Como a empresa vê a evolução da demanda doméstica brasileira nos próximos trimestres. Quais medidas adicionais a Gerdau pretende tomar pra defender preço no Brasil. Se há revisão pra cima ou pra baixo no plano de capex de 2026. E qual a leitura sobre o impacto de tarifas anti-China nas duas pontas (Brasil e EUA).
Resposta clara nessas perguntas pode reverter movimento da ação no dia seguinte, mesmo se o número em si vier abaixo do consenso. O mercado tem mostrado paciência com siderúrgicas em ciclos longos, desde que enxergue caminho de recuperação.
O setor de aço no Brasil vive um momento de teste. Os pares locais como Usiminas (USIM5) e CSN (CSNA3) também enfrentam o mesmo problema da concorrência chinesa, mas com perfis diferentes de exposição internacional. A Gerdau, com presença forte nos EUA, tem amortecedor que as outras não têm.
O governo federal tem dado sinais de que pode endurecer ainda mais barreiras antidumping em 2026, mas o calendário é incerto. Enquanto isso, o consumo aparente de aço no Brasil cresce, mas a fatia capturada pela indústria nacional continua estável ou em queda. É uma equação que precisa de solução política pra mudar de patamar.
Pra investidores, o balanço desta segunda funciona como termômetro: se a Gerdau, que tem o melhor mix geográfico do setor, der sinais de aperto adicional no Brasil, fica difícil imaginar pares puramente domésticos entregando muito mais. Por outro lado, números fortes na América do Norte podem destravar valor relativo da ação frente a comparáveis globais.
O resultado oficial sai depois do fechamento desta segunda-feira, e os ajustes de cotação do GGBR4 vão acontecer ao longo da terça-feira, 28 de abril, com a teleconferência puxando boa parte da reação intra-day.
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