
O BTG Pactual (BPAC11) publicou um relatório que funciona como um balde de água fria pra quem esperava uma temporada de balanços tranquila. Segundo a equipe de research do banco, quase metade das empresas sob sua cobertura deve apresentar piora de resultado no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior. O principal vilão? A Selic a 14,75% ao ano, que continua corroendo margens, inflando despesas financeiras e travando o consumo.
O levantamento do BTG cobre mais de 200 companhias listadas na B3. E o diagnóstico é claro: o juro elevado está cobrando seu preço de forma ampla e indiscriminada, atingindo desde varejistas até bancos, passando pelo agronegócio e empresas de capital intensivo.
Pra entender o tamanho do estrago, basta olhar um número: 48% da dívida total das empresas domésticas está indexada à Selic. Ou seja, cada ponto percentual a mais na taxa básica de juros se traduz diretamente em despesas financeiras mais pesadas nos balanços. Com a Selic em 14,75%, o custo de carregar dívida atingiu patamares que não se via desde o ciclo de aperto de 2015-2016.
Pra empresas de commodities, o cenário é diferente: apenas 18% da dívida delas está atrelada à Selic. Isso explica por que exportadoras como Vale e Petrobras tendem a sentir menos o impacto direto dos juros, enquanto companhias voltadas ao mercado interno sofrem na veia.
A mecânica é simples. Empresa pega empréstimo atrelado ao CDI. CDI acompanha a Selic. Selic sobe, despesa financeira explode. O lucro operacional até pode vir razoável, mas quando o resultado financeiro entra na conta, o lucro líquido derrete. É o que o mercado chama de "armadilha do juro alto": a empresa opera bem, mas paga caro demais pra financiar essa operação. Quem quiser se aprofundar nessa dinâmica, vale conferir como funciona a Curva de Juros: o que é e como funciona.
O varejo discricionário segue como o setor mais castigado pela Selic restritiva. Segundo o BTG, empresas com exposição a categorias como moda, eletrônicos e artigos para o lar devem apresentar os números mais fracos do trimestre. O consumidor brasileiro está seletivo, priorizando gastos essenciais como alimentos e farmácia.
A combinação é tóxica: juros altos encarecem o crédito, a inflação persistente corrói o poder de compra e o consumidor simplesmente para de comprar o que não é urgente. Varejistas que operam financeiras próprias ou oferecem crédito direto ao consumidor estão duplamente expostos, porque além de vender menos, ainda enfrentam inadimplência crescente nas suas carteiras de crédito.
O BTG destaca que essa dinâmica já era evidente no quarto trimestre de 2025 e não deve mudar significativamente no 1T26. Na prática, o varejo está preso num ciclo vicioso: vende menos, margem cai, custo financeiro sobe e o resultado final fica cada vez mais apertado.
Nem o setor financeiro, que costuma se beneficiar de juros altos pelo spread de crédito, vai passar ileso. O BTG projeta que os grandes bancos devem reportar resultados mais fracos no 1T26, com destaque negativo para o Banco do Brasil (BBAS3).
A projeção do BTG pra BBAS3 é de lucro entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões no 1T26, o que representaria uma queda de 15% a 30% em relação ao consenso de mercado. O principal problema é a deterioração da carteira de crédito rural, com o agronegócio enfrentando dificuldades que elevam as provisões para devedores duvidosos.
Pro Santander Brasil (SANB11), o cenário também é de moderação. O BTG estima lucro líquido em torno de R$ 4 bilhões, ligeiramente abaixo do consenso de R$ 4,1 bilhões, com ROE projetado entre 16,6% e 17,1%. As provisões devem ficar elevadas, ao redor de R$ 6,5 bilhões, acima dos R$ 6,1 bilhões registrados no 4T25.
A lógica é que, embora bancos ganhem com o spread, a qualidade dos ativos se deteriora quando a economia desacelera. O juro alto mata o tomador de crédito, que vira inadimplente, que vira provisão no balanço do banco. É uma faca de dois gumes. Entender a DRE (Demonstração de Resultado): o que é e como funciona ajuda a mapear onde exatamente essas provisões aparecem no resultado.
O agronegócio entrou no radar de preocupação do BTG com força. A alta nos preços de diesel e fertilizantes, combinada com a valorização do dólar, pressiona os custos de produção. E a deterioração das carteiras de crédito rural, especialmente no Banco do Brasil, é reflexo direto desse cenário.
O BTG alerta que existe "risco crescente de que o segundo trimestre também decepcione" no segmento agro. As provisões ligadas ao crédito rural devem se manter elevadas, na casa dos R$ 17,4 bilhões no sistema bancário, impulsionadas pela migração de créditos para estágios mais avançados de inadimplência.
Na prática, o agro funciona como um efeito cascata: quando o produtor rural não consegue pagar, o banco provisiona. Quando o banco provisiona, o lucro cai. E quando o lucro do banco cai, o mercado reprecifica a ação. É uma cadeia que conecta o campo à B3.
Enquanto projeta cenário difícil pro mercado, o próprio BTG Pactual vem numa sequência impressionante de resultados. No 4T25, o banco registrou lucro líquido ajustado recorde de R$ 4,59 bilhões, alta de 40,3% em relação ao mesmo período de 2024. No acumulado de 2025, o lucro totalizou R$ 16,68 bilhões, crescimento de 35% frente a 2024, com ROE de 26,9%.
A receita total do BTG atingiu R$ 9,1 bilhões no 4T25, impulsionada pelas áreas de Corporate & SMEs, Wealth Management e Sales & Trading. O banco se beneficia da diversificação de receitas: enquanto crédito tradicional sofre, áreas como investment banking, gestão de patrimônio e trading de renda fixa prosperam justamente com a volatilidade e os juros altos.
Os resultados do 1T26 do BTG Pactual ainda não foram divulgados. A expectativa do mercado, contudo, é de continuidade do momento positivo, com estimativas de lucro revisadas pra cima em 18% para 2026. Pra quem quer aprender a interpretar esses números, vale a leitura de Como analisar balanços de empresas e investir melhor.
Um aspecto que o relatório do BTG deixa implícito, mas que merece atenção, é o efeito acumulativo dos juros sobre a dívida das empresas. Não se trata apenas da Selic pontual de 14,75%. O problema é que muitas companhias carregam dívidas roladas há trimestres com taxas crescentes.
Cada refinanciamento sai mais caro que o anterior. E o estoque de dívida vai ficando mais pesado, trimestre após trimestre, num efeito de bola de neve. É o princípio dos Juros Compostos: o que é e como funciona trabalhando contra as empresas, e não a favor delas.
Empresas com alavancagem elevada (dívida líquida acima de 3x o EBITDA) são as que mais sofrem nesse cenário. E o BTG aponta que boa parte das companhias domésticas sob sua cobertura se enquadra nesse perfil.
O relatório do BTG não é só desgraça. Alguns setores devem reportar números decentes ou até positivos no 1T26. Utilities (energia elétrica, saneamento), telecomunicações e empresas exportadoras são apontadas como mais resilientes.
Utilities têm contratos de concessão com reajustes indexados à inflação, o que protege a receita. Telecom opera com base de assinantes estável e churn baixo. E exportadoras se beneficiam do dólar valorizado, que turbina a receita em reais mesmo quando o volume de vendas é estável.
O próprio BTG Pactual projeta que o lucro agregado das empresas listadas na B3 (excluindo Petrobras e Vale) deve crescer 17% em 2026, atingindo R$ 339,7 bilhões. Mas esse crescimento é esperado principalmente no segundo semestre, quando o mercado precifica o início do ciclo de corte da Selic.
A safra de resultados do 1T26 começa pra valer na última semana de abril e se concentra até a segunda semana de maio. Os grandes bancos, que costumam abrir a temporada, vão dar o tom. Se Banco do Brasil e Santander confirmarem as projeções mais fracas do BTG, o mercado pode ajustar expectativas pra baixo pro restante das empresas.
O ponto de atenção principal é o guidance das companhias. Mais do que o resultado em si, o mercado vai querer saber como as empresas estão enxergando o segundo semestre. Se o discurso for de cautela, pode pesar. Se houver sinalização de melhora com a expectativa de corte da Selic, o mercado tende a ser mais complacente com números fracos no curto prazo.
Outro fator é a distribuição de Juros Sobre Capital Próprio (JCP): o que é e como funciona. Com lucros pressionados, algumas empresas podem reduzir ou postergar o pagamento de JCP, o que afeta diretamente o retorno do investidor.
O cenário que o BTG desenha é de um primeiro trimestre difícil, mas não catastrófico. A questão central é se o pior já passou ou se o segundo trimestre de 2026 vai trazer mais do mesmo. Com a Selic ainda em 14,75% e sem sinalização clara de corte pelo Banco Central, a resposta depende muito mais de Brasília do que dos balanços corporativos.
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