
O BTG Pactual divulgou sua prévia para os resultados do 1T26 da MBRF (MBRF3), a companhia nascida da fusão entre Marfrig e BRF, e o cenário não é de euforia. Segundo os analistas do banco, a operação de carne bovina deve voltar a pesar no trimestre, com margens comprimidas nos Estados Unidos e dificuldade em repassar o custo mais alto da arroba no Brasil.
A casa projeta receita consolidada de R$ 41 bilhões e EBITDA de R$ 2,9 bilhões para a MBRF no período, com margem de 7,1%. Os números representam uma revisão pra cima em relação às estimativas anteriores do próprio BTG, mas vêm acompanhados de um recado importante: os ciclos favoráveis que sustentaram os resultados fortes da empresa em 2025 começam a mudar de direção. A MBRF deve publicar o balanço oficial em 14 de maio.
O BTG separa a tese em dois capítulos bem distintos. Do lado da BRF, segmento de aves e suínos, o banco elevou a projeção de margem EBITDA para 15,5% no 1T26, ante 14,8% estimados antes. A leitura é que a sazonalidade desfavorável do primeiro trimestre não deve apagar a boa dinâmica de preços de proteína branca e do halal, especialmente nos embarques pra Arábia Saudita e demais mercados do Oriente Médio. Custos mais baixos de milho e farelo de soja também ajudam a segurar a rentabilidade da BRF num ano em que a demanda externa segue firme.
Já na operação de carne bovina, que engloba Brasil, América do Sul e Estados Unidos, o tom é outro. A casa projeta receita de R$ 24,3 bilhões pra esse segmento, com alta de 5% ano contra ano mas recuo de 7% na comparação trimestral. O EBITDA do segmento bovino é estimado em R$ 483 milhões, com margem estável em 12 meses, mas 120 pontos-base abaixo do 4T25. Na prática, a MBRF deve produzir mais bovino, mas ganhar menos por quilo vendido.
Dois fatores pesaram. No Brasil, a arroba do boi gordo continuou em alta, pressionando a matéria-prima. A companhia teve dificuldade em repassar esse custo pro preço final, num mercado interno com consumidor sensível e varejistas apertando a margem do atacado. A valorização do real frente ao dólar também atrapalhou a receita das exportações quando convertida pra moeda local, mesmo com os embarques crescendo em volume.
Nos Estados Unidos, o ciclo do gado segue desafiador. O rebanho americano está em patamar historicamente baixo, o que encarece o animal disponível pros frigoríficos e comprime margens. O BTG enxerga volumes de 280 mil toneladas na América do Sul, puxados pelo ritmo forte das exportações brasileiras pra China e Oriente Médio, mas essa alta de volume não se traduziu em rentabilidade melhor. A operação americana, que em 2025 passou por momentos difíceis com margem perto de zero, segue como o grande ponto de atenção da tese.
A MBRF3 estreou na B3 em 23 de setembro de 2025, após a conclusão da fusão entre Marfrig e BRF. Desde então, o papel acumula queda de cerca de 28%, num movimento que reflete tanto o desmanche de posições de fundos que tinham BRFS3 (e zeraram a posição após a incorporação) quanto a desconfiança do mercado com a capacidade da nova companhia de capturar sinergias rapidamente.
O episódio de venda de ações em bloco pelo fundo árabe Salic, em março deste ano, também adicionou volatilidade ao papel. A ação chegou a cair 10% no pregão em que o movimento foi comunicado, mostrando que a base de acionistas ainda está em acomodação. Se você quer entender como esses eventos afetam o índice mais amplo, vale a leitura do guia sobre O que é o Ibovespa e como funciona, já que a MBRF3 figura entre os papéis relevantes do benchmark brasileiro.
O BTG mantém recomendação neutra pra MBRF3, com preço-alvo de R$ 26. O recado dos analistas é que, apesar da revisão pontual pra cima nas estimativas do 1T26, a tese estrutural não mudou: o topo do ciclo favorável já foi atingido em 2025 e daqui pra frente a companhia enfrenta um ambiente mais duro, com margens normalizando pra baixo na operação bovina.
O banco chama atenção pro nível de alavancagem da companhia pós-fusão e pra geração de caixa no curto prazo. Com os custos do boi pressionados e a margem de aves já próxima do teto do ciclo, o espaço pra desalavancar rapidamente sem resultado extraordinário fica mais estreito. A relação dívida líquida sobre EBITDA segue acima do que o mercado considera confortável pra uma proteína cíclica, o que restringe a capacidade da MBRF de voltar a distribuir dividendos robustos no médio prazo.
Quando a fusão foi anunciada, a companhia mirou cerca de R$ 800 milhões em sinergias anuais entre redução de despesas administrativas, ganho de escala em compras, otimização logística e racionalização de plantas. O mercado ainda quer ver captura concreta desses números. No 1T26, o BTG não espera que esse efeito apareça com força nos resultados; a expectativa é que a curva de captura comece a ficar mais visível só a partir do segundo semestre de 2026.
Outro ponto que o mercado vai olhar é a estrutura da Sadia Halal, anunciada no início do ano como alavanca pra expansão no Oriente Médio. A ideia é dedicar uma operação exclusiva pra exportação de produtos processados e prontos pra consumo no padrão halal, mirando Arábia Saudita, Emirados, Qatar e Turquia. É uma tentativa clara de proteger margens num segmento onde a BRF já tem marca forte.
Além do balanço do 1T26, os investidores devem ficar de olho em alguns gatilhos que podem mover o papel nos próximos meses. O primeiro é qualquer atualização sobre o ritmo de captura das sinergias, tema que o CEO da MBRF vem tratando como prioridade. O segundo é a dinâmica do ciclo do gado nos Estados Unidos, que define boa parte da rentabilidade da operação norte-americana e depende de fatores que fogem ao controle da companhia.
Os juros americanos também entram na conta. Parte relevante da dívida da MBRF é denominada em dólar, e movimentos na curva dos treasuries afetam diretamente a despesa financeira da companhia. Pra quem quer entender melhor como política monetária afeta empresas alavancadas, o artigo sobre como a Selic afeta seus investimentos traz um paralelo útil, já que a mesma lógica de Selic aqui vale pra Fed Funds lá fora.
O recado do BTG pra MBRF ecoa o que a própria Minerva (BEEF3) sinalizou recentemente: as margens de carne bovina devem cair em 2026. O ciclo do gado, que é uma variável mais ligada à biologia do rebanho do que a decisões de mercado, roda num prazo de anos. O movimento atual é de contração de oferta com custo subindo, e isso vai continuar pressionando o resultado de todos os frigoríficos listados na B3.
A JBS (JBSS3 e JBSS32) também vive momento parecido nos EUA, onde opera a Pilgrim's Pride em aves e a JBS USA em carne bovina. A grande diferença é que a JBS tem diversificação geográfica mais ampla e exposição direta ao mercado americano via listagem em Nova York, o que altera a estrutura de capital. Parte da exposição internacional desses frigoríficos globais também pode ser acessada via BDRs, um caminho que muitos investidores brasileiros exploram pra diversificar carteira. Se o tema te interessa, vale conferir o guia sobre como investir no mercado americano através de BDRs listados na bolsa brasileira.
Pra MBRF3, a chave nos próximos trimestres é mostrar disciplina de capital, velocidade na captura de sinergias e sinal claro sobre o que fazer com a alavancagem. O ciclo já não joga a favor como em 2025, e o mercado tá cobrando prova concreta de que a fusão entrega valor além da soma das partes. O balanço do dia 14 de maio é o primeiro teste real dessa tese.
Sources: - [Money Times — MBRF (MBRF3): BTG vê mudança de direção para ciclos, mas com melhores margens no 1T26](https://www.moneytimes.com.br/mbrf-mbrf3-btg-ve-mudanca-de-direcao-para-ciclos-mas-com-melhores-margens-no-1t26-pads/) - [Seu Dinheiro — BTG mantém recomendação para MBRF3 e BEEF3 após 4T25](https://www.seudinheiro.com/2026/empresas/btg-mantem-recomendacao-para-mbrf-mbrf3-e-minerva-beef3-apos-4t25-com-pressao-no-caixa-e-margens-no-radar-kaes/) - [ADVFN — Marfrig e BRF concluem fusão: MBRF3 estreia na B3 em 23 de setembro](https://br.advfn.com/jornal/2025/09/marfrig-e-brf-concluem-fusao-nova-companhia-mbrf3-estreia-na-b3-em-23-de-setembro) - [Seu Dinheiro — MBRF (MBRF3) tomba após venda de ações pela Salic](https://www.seudinheiro.com/2026/bolsa-dolar/mbrf-mbrf3-tomba-9-apos-venda-de-acoes-pela-salic-kaes/)Aviso Legal
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